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CAPÍTULO 13 – TRUST

CAPÍTULO 13
TRUST 

“He would have to prove himself worthy,

in order to finally get to know that man.”

Moscou, Rússia – Ano de 1950

  

Damaran chamou-o com um gesto de mão, e ele não tinha muita opção fora obedecer. Era a primeira vez que o convidava a sair junto dele, que o deixava seguí-lo para fora do hotel desde que havia aceitado-o como aprendiz alguns dias atrás. Dias durante os quais trocaram poucas palavras, e encontraram-se para uma refeição silenciosa duas ou três vezes. E algo que o garoto pôde notar fora que o russo sempre desaparecia para algum lugar após o jantar, e nunca acordava a tempo para o café da manhã que era servido deveras prematuramente naquele hotel. Na verdade, só conseguia vê-lo durante o almoço, ou mais tardiamente. E, agora, havia finalmente descoberto o motivo.

Prostrava-se frente a uma casa de madeira, velha, relativamente mal cuidada, mas incrivelmente iluminada em vermelho e amarelo. De dentro ouvia risos, gritos… e gemidos. Por mais que houvesse música em algum lugar do salão, as janelas abertas dos quartos no segundo andar delatavam sem pejo o que se passava ali. E, por mais inexperiente que fosse, era até próximo do que Kyouya havia imaginado quando deixaram o hotel. Mas ainda era a primeira vez que ele chegava tão perto de um prostíbulo, e o constrangimento estava estampado em seu rosto. Damaran, que o esperava com um pé através da porta, observou-o até cair no riso.
-Que cara é essa, garoto? Ninguém te contou o que acontece por aqui a noite? – riu ele, com uma mão no bolso e outra segurando aquele grosso charuto fedorento de que ele tanto gostava. – Vem, não me faz perder o meu tempo. Quem sabe não aprende mais do que eu imaginei que fosse aprender.

Kyouya olhou para o russo em um quase desespero, franzindo as sobrancelhas enquanto ele entrava e vendo-se sozinho, observado. Reuniu sua coragem e segurou o ar, e seguiu-o para dentro apenas para quase engasgar-se com o cheiro forte de álcool e nicotina. Apertou os olhos para enxergar, dentre as luzes, a névoa e o movimento, os homens fumando e embebedando-se enquanto mulheres semi-nuas dançavam, beijavam, sentavam em seus colos dando-lhe de beber… e flertavam para depois levá-los aos quartos. Damaran encontrava-se já próximo ao balcão do bar, com o charuto entre os dentes e rublos em mãos. Cumprimentou alguns poucos que lá se encontravam, que pareciam não apenas participar da baderna mas também, de alguma forma, administrar o que acontecia ali, e gesticulou por um copo de vodka. O garoto espremeu-se por entre as pessoas, receoso de tocar em qualquer um e acabar metendo-se em problemas e sentindo-se levemente enjoado pelo forte cheiro, para conseguir alcançar o balcão e colocar-se ao lado de Damaran – que parecia, no momento, a opção mais segura. O russo sorriu para ele com o copo em mãos, a bebida já na metade.

-Você parece nervoso. – riu ele.
-Eu… como? É que eu estou nervoso… – respondeu o garoto, levemente irritado. O russo sorriu, voltando a beber de seu copo, virando até a última gota.
-Não precisa ficar bravo, como eu ia saber que nunca tinha vindo num lugar desses? Não me disse que já tem mais de vinte anos?
-Eu… tenho, mas ainda assim, nunca vim. – Kyouya levou a mão à nuca, encabulando-se. – O que isso tem a ver com o que eu te pedi…?
-Se quer ser meu aprendiz, tem que agüentar pelo menos isso. Ao menos três vezes por semana. É sério que nunca veio? O que há de errado com você?
“O que há de errado com vocês todos”, respondeu Kyouya apenas mentalmente. Ele já tinha o rosto todo vermelho, mas continuava fitando o russo nos olhos com uma expressão de completa absurdidade. A falta de resposta fez Damaran rir novamente.
-Esse lugar… – começou ele, batendo o salto da bota contra o chão de madeira. – É meu. Essas mulheres que você está vendo, aqui, são minhas. O dinheiro que recebem aqui vai em parte pra mim, em parte pra quem cuida daqui… e em parte para a manutenção. Ou bebida… como preferir chamar. E aqueles homens… – ele apontou para um grupo que, apesar de todos terem copos ou garrafas em mãos e um ou outro terem uma mulher ao lado, mantinham-se mais atentos que os outros. – São os que cuidam das mulheres daqui. Pra elas não saírem, não roubarem… ou pra evitar que qualquer palhaço acabe fazendo alguma coisa que não devia com elas.

Kyouya olhou-os durante algum tempo e balançou a cabeça positivamente, engolindo em seco. Queria saber o que exatamente ele queria dizer com ‘alguma coisa que não devia’, mas não ousou pronunciar-se; apenas imaginou que era alguma coisa que pudesse prejudicar os negócios. Damaran sorriu para ele, já acabando o segundo copo de vodka e pedindo mais um, e gesticulou para alguém ao longe.
Um homem baixo, em seus vinte e poucos anos, mantinha-se quieto e observador até ser chamado pelo russo. Levantou-se e se aproximou, respeitosamente, sem interromper nada ao redor. Tinha os cabelos ruivos bagunçados, o rosto magro e olhos verde-oliva que demonstravam, mesmo naquele lugar, uma calma inabalável. Vestia-se humildemente com um colete surrado e uma camisa com as mangas dobradas, mostrando as tatuagens em seu braços esquerdo. Uma serpente enrolada em uma espada, e os pequenos símbolos nas mãos e nos dedos. Tatuagens de prisão. Kyouya olhou-o durante algum tempo, enquanto ele cumprimentava Damaran respeitosamente, e logo reparou que estava sendo encarado de volta.

-Bóris… – Damaran gesticulou para o homem, apontando Kyouya. – Esse é o garoto de quem te falei. Tem como dar uma volta com ele e explicar mais ou menos como as coisas funcionam por aqui?
-Sem problema algum… – respondeu o outro, olhando o garoto de cima a baixo e levantando uma sobrancelha. – … Lá em cima, também?
-Lá em cima, sim… ele tem idade o suficiente. Só vai precisar de experiência no tranco… – riu Damaran, dando um tapinha leve nas costas de Kyouya. – Depois pode trazer ele pra mim de volta, que ele vai aprender a beber direito também.
-Sim, senhor… – respondeu o ruivo, ainda hesitante e achando difícil acreditar que o garoto era mais do que uma criança. Ele gesticulou para Kyouya e colocou as mãos nos bolsos, caminhando por entre as mesas e pessoas, indo para os fundos do lugar. Kyouya o seguiu após olhar para Damaran uma última vez, que apenas sorriu e levantou o copo em um gesto de ‘boa sorte’.

Por detrás do bar, as coisas acalmavam-se um pouco e os risos eram abafados pela grossa porta da madeira que separava os ambientes. Lá atrás, havia uma pequena cozinha – que necessitava de uma faxina – onde duas mulheres fumavam seus cigarros perto da janela e esperavam qualquer coisa dentro de uma panela batida ficar pronta para poderem comer entre suas aventuras sexuais com estranhos; ao lado, um homem saia de um banheiro de tamanho razoável, mas que parecia enxotado de produtos de limpeza que Kyouya duvidava serem usados muito freqüentemente; um almoxarifado ao lado guardava todo tipo de objeto que poderia vir a ser usado, e, finalmente, havia o local onde as bebidas eram guardadas. Por um momento lhe pareceu ser o mais limpo aposento desde que havia entrado naquele lugar; mas fora apenas impressão. Apesar da euforia que se passava no salão, era um lugar razoavelmente apresentável, e o bar fazia jus à fama que Damaran parecia ter. As garrafas estavam arrumadas na estante, e os copos enfileirados nos armários, sem manchas visíveis no vidro. O balcão estava limpo e os bancos em boas condições, aparentemente perfeitos… para se fazer negócios enquando apreciavam uma bebida.

Bóris explicava-lhe algumas coisas com a voz baixa, quase nunca fazendo contato visual; mas Kyouya não se importava. Achava que era melhor desse jeito, também, por estar realmente desconfortável na situação em que se via. Ainda achava difícil entender o porquê de estar ali, e começava a desconfiar que Damaran estava brincando com ele e só queria ver qual seria a sua reação. E se isso realmente fosse verdade, estava perdendo seu tempo de uma maneira bastante constrangedora. Constrangedora… mas, ao menos, relativamente fácil de entender. Era um prostíbulo, forçava-se a lembrar a cada minuto; a hierarquia era simples, o funcionamento, uma vez explicado, também. Os homens tinham que controlar as mulheres, o dinheiro que entrava era dividido entre eles, elas, a bebida… e o cabeça. Resumindo tudo, era assim que funcionava… superficialmente.
Subiram ao segundo andar, e os gemidos vindo dos pequenos quartos ao redor do corredor estreito pelo qual Boris seguia deixavam o garoto profundamente incomodado. As portas estavam fechadas, mas ainda assim ele sentia-se invadindo a privacidade de alguém. Uma privacidade estranha, de cuja as mulheres não pareciam fazer questão, e nem os homens que não tivessem nada a esconder. Era quase como se as coisas estivessem se invertendo, e aquele ambiente se tornasse o invasor para Kyouya… uma sensação deveras estranha. Naquele momento, Boris falou ainda menos do que antes. Ele não parecia se incomodar, já deveria estar acostumado. Mas a impressão era de que ele não tinha nada a falar sobre tudo aquilo, que nada precisava ser dito. E realmente, dispensava explicações. Era simplesmente sexo, dinheiro, um romance falso de uma noite e que poderia se estender e trazer outras conseqüências… mas para Damaran, era um negócio. Sexo por dinheiro. Simples.

Após apenas alguns poucos minutos, Boris dirigiu-se novamente para a escada de madeira que rangia a cada passo e desceu. Kyouya o seguiu, atento, ainda tomando cuidado para não esbarrar em lugar algum. Tinha aquela sensação de que não devia tocar em nada para manter sua integridade. No entanto, quando Kyouya virou-se para o bar, pensando que finalmente poderiam voltar para o hotel, encontrou Damaran quase deitado sobre uma poltrona mais ao fundo, com o casaco ao lado e a camisa aberta… e com uma mulher de cabelos castanhos em seu colo, que vezes lhe dava de beber direto do gargalo de uma garrafa e vezes beijava-o devagar. Ele correspondia e sorria pra ela, e ela dava-lhe de beber novamente quando ele levava a mão à sua cintura e a apalpava. E a cena se repetia algumas vezes enquanto Kyouya prostrava-se no lugar, ainda tentando entender o que se passava ali.

Foi apenas quando a vodka da garrafa acabou que Damaran finalmente deu-se conta da presença do garoto. Sorriu apoiando-se nos braços da poltrona, ergueu o corpo devagar e sussurrou para a mulher em seu colo, que olhou para Kyouya e riu com a mão sobre a boca. O russo levantou-se com ela lentamente, sendo amparado pela poltrona, e o garoto teve certeza de que ele já estava bêbado. Suspirou.

-Se divertiu…? – riu ele, com bem menos compostura do que tinha quando entraram. Mantinha o casaco sobre o braço, e fechava a camisa com alguma dificuldade. Kyouya franziu-lhe o cenho.
-Não, mas vi que o senhor aproveitou bastante…
-Não precisa me chamar de senhor… – riu Damaran, apoiando o braço sobre os ombros do garoto. – Que cara é essa? Ficou nervoso?
Kyouya desacreditava que ele realmente estava lhe perguntando aquilo.
-Estou. E não sei bem o que era pra eu ter aprendido com isso tudo.
Damaran sorriu maliciosamente, apoiando os braços no bar.
-Depois você vai entender… agora, que tal uma bebida?

O garoto olhou-o durante alguns segundos e suspirou. Começou a achar que não havia muito sentindo em discutir com aquele homem que, já não lhe dando atenção sóbrio, jamais ia levá-lo a sério depois de litros de vodka.
-Não quero, obrigado. Por que… me trouxe até aqui? Sinceramente?
O russo sorriu para ele, vestindo o casaco.
-Porque não é qualquer um que eu deixaria me acompanhar depois de quase três garrafas de vodka… – riu Damaran, observando a expressão de surpresa no rosto do garoto que, após hesitar por algum momento, finalmente sentou-se ao seu lado.

CAPÍTULO 12 – AMBITION

CAPÍTULO 12
AMBITION 

“And there was his brother,

Smirking calmly with blood on his hands.”

Yokohama, Japão – Verão de 1940

  

Ele não sabia ao certo se deveria arrepender-se amargamente de ter seguido o irmão, ou se ter visto tudo poderia ter sido uma descoberta positiva para si mesmo. Mas tinha certeza de que não seria nada bom se fosse descoberto por qualquer um que fosse. Manteve as mãos sobre a boca, segurando a respiração o melhor que podia, mantendo-se encolhido dentro daquele armário com cheiro de bolor. Achava curioso como o ar parecia capaz de emitir um som tão alto nesses momentos. Não ousava mexer um único músculo para fora da sombra nem fazer um único ruído, por mais que quisesse correr para casa. E absolutamente, não tirava os olhos da cena que sua curiosidade lhe trouxe.

Pela pequena fresta entre a porta e a coluna de madeira, Kyouya observava os homens com lâminas em mãos, admirando o resultado do trabalho daquela noite. O chão e as paredes tingiam-se de vermelho escarlate, que tornava-se quase negro na escuridão da noite. O garoto via a forma de um corpo inerte sob as cobertas encharcadas, um corpo que seu irmão rondava como uma hiena faminta e com o sorriso de satisfação mais assustador que ele já havia visto em toda sua vida. Eram poucas as vezes que via uma expressão como essa naquele rosto sempre sereno, com aquele sorriso que transmitia uma calma estranha. Os outros dois que o acompanhavam, diferentemente, colocavam-se um de cada lado, sem nada dizer mas sem sinal algum de arrependimento. Teruo, que parecia ser o líder do grupo, parou o movimento após alguns segundos e começou uma risada baixa, assustadora, cheia de desprezo. Colocou o pé sobre o cadáver ao qual ele mesmo havia desferido o golpe fatal, apertando-o de forma que o sangue quente molhava seus dedos e fazia o estômago do irmão mais novo embrulhar. Não obstante, ele simplesmente não conseguia deixar de olhar aquilo.

-Ora… ora… – ria ele, empurrando e puxando o corpo com o pé descalço. – Isso foi mais fácil do que eu imaginava. Foi fácil demais, tio. O senhor não devia confiar na sua família, sabia…? Pelo menos, não na parte da família pra qual o senhor nunca deu importância. Eu te disse, não disse? Que eu era mais do que vocês imaginavam que eu podia ser…? – ele estourou numa risada baixa, estreitando os olhos para o morto. Os outros homens ainda mantinham-se quietos, e um apenas levantou a espada para limpar o sangue que escorria pela lâmina.
Kyouya sentiu um arrepio correr pelo seu corpo e abraçou-se, encolhendo os ombros. Nunca tinha sentido tanto medo de sangue de seu próprio sangue, de sua família, como naquele instante. ‘Ele vai me matar’, pensou. ‘Se ele me descobrir, aqui, vai me matar. Eu não posso morrer. Não quero, não agora…’ Ele segurou a respiração e fechou os olhos, finalmente, encolhendo-se e abraçando as pernas. E esperou. Esperou, até que tudo ficasse em silêncio.
-Senhor Teruo. Se nos demorarmos mais, alguém pode aparecer… – disse um dos homens, de repente, em tom grave. Teruo olhou-o sem expressão por alguns segundos, e sorriu.
-Alguém, não é…? Tem razão… tem razão… isso não seria bom. Mas é claro… que eu posso confiar em vocês pra não falarem pra ninguém, não é mesmo? – respondeu ele, sorrindo gentilmente e aproximando-se de cada um dos homens. Ambos se entreolharam.
-Sem dúvida alguma, senhor. – disse o segundo, embainhando a espada.
-Ótimo. Porque se eu algum dia desconfiar… acabam como ele. – apontou o cadáver, alargando o sorriso de forma que seus olhos ficassem ainda mais estreitos. – Entendido?
-Sim, senhor. – exclamaram os dois respeitosamente, corrigindo a postura e mantendo os braços esticados ao lado do corpo. Teruo continuou sorrindo.
-Agora, vamos embora. Que isso fique como uma traição interna… ou um mistério. Vamos, saiam… eu não demoro. Preciso apenas resolver uma última coisa sozinho.

E assim, Teruo ficou sozinho no quarto, observando os dois sumirem de sua vista. De costas para Kyouya, ele apoiou a mão na porta de papel, e suspirou. O mais novo abriu os olhos novamente ao ouvir o silêncio, e voltou, silenciosamente, a observar pela fresta. O irmão ainda estava ali, olhando para o jardim fora do quarto do assassinado.
-Kyouya… – cantarolou ele, sem virar-se. Kyouya sustou-se, sentindo seu corpo gelar de cima a baixo. Não soltou um único som, e apenas arregalou os finos olhos castanhos. Não era possível que tivesse sido descoberto.
Teruo soltou um riso baixo, novamente, ainda olhando para fora do quarto.
-Kyouya… não me diga que não está aí. Pra me deixar falar sozinho assim, como um louco… eu sei que você me seguiu, sabe? Onde está escondido? Eu sabia que cedo ou tarde, você iria me seguir… andava grudado demais, eu percebi isso. Acompanhando cada passo meu pra ver onde eu iria escorregar…? Vamos, Kyouya, saia. Não vou lhe fazer mal, você sabe… irmãozinho. Bom, não parece estar no jardim… – suspirou ele, e virou-se para dentro do quarto.

Kyouya podia jurar que seus olhos haviam se encontrado; mas não conseguiu sair do lugar. Continuou quieto, observando, atento, amedrontado.
-… Hm. Talvez você realmente não esteja aqui, não é…? Saiu correndo depois do primeiro corte? O que, e agora me faz dialogar com o morto. Isso não é certo, sabia? Mas se não está aqui… talvez seja melhor que eu me cale. De qualquer forma… – riu ele – se for me esperar sair, saberei que esteve aqui ao chegar em casa. Não pretende chegar antes de mim, pretende? Para esbaforir-se e inventar qualquer desculpa… bem, paciência. Cedo ou tarde vamos nos encontrar… enquanto isso, posso me divertir com a nossa irmãzinha.

Kyouya inclinou o corpo para trás, horrorizado. Ele não deixava passar um único detalhe, sabia como tirar o que queria de qualquer um… Kyouya sabia que era mais fraco, e nem de longe tão inteligente quanto o irmão mais velho. Abriu a boca para falar, mas sua voz não saia. E não ousava sair. Lhe faltava coragem, ele tinha certeza de que seria morto… mas ele tinha algo a proteger. Apertou os olhos, sem mais poder ver a silhueta do primogênito, e reuniu bravura para, finalmente, empurrar a porta e levantar-se. Apenas para deparar-se com o quarto vazio, o corpo no chão… e o silêncio. Seu irmão já havia deixado o lugar… e se dirigia para casa.
O garoto parou no lugar durante alguns segundos, apenas para sentir o pânico crescer em seu peito. Puxando o ar com força, saiu pela porta em disparada, enfiando-se entre as árvores pelo atalho que conhecia, correndo o mais rápido que se lembrava em toda sua vida. Os galhos enroscavam-se em suas roupas e cortavam seu rosto, e não tinha mais chance alguma de esconder de Teruo que havia visto tudo o que ele havia feito. Mas havia deixado de se importar consigo mesmo no momento em que a irmã fora mencionada. Aquela criatura pequena, magra, que nunca nada havia feito… mas que acabara servindo para Teruo como uma maneira de controlar o irmão mais novo. Pois ele sempre soube que Kyouya nutria por ela um sentimento muito mais forte do que com ele, e isso o mais velho não poderia perdoar. Com a vestimenta em trapos e os pés arranhados, o fôlego acabado e o rosto sangrando, entrou correndo na casa onde estavam hospedados pelos fundos e abriu a porta de madeira e papel com uma força que nunca soube que tinha.

Apenas para deparar-se com a irmã, que o olhava em silêncio, piscando os olhos negros como o ébano. Vestia um kimono de verão branco e leve, e tinha os cabelos grossos presos por uma fita. Ela ajoelhava-se frente a uma mesa baixa, com um pedaço de papel colorido nas mãos e esfregava os pés miúdos um no outro. Kyouya hesitou por um momento, encarando-a, caiu sobre o tatami e apoiou as mãos, finalmente deixando-se respirar.
-E… o Teruo…?
A garota demorou a responder e apenas levantou uma sobrancelha.
-Ele não chegou ainda… o que você foi fazer que chegou assim, todo… todo?
Kyouya não respondeu. Não poderia responder, não agora… agora, tinha que conseguir ajeitar-se antes do irmão chegar. Jogou o corpo pra trás, sentando-se e apoiando as mãos no chão, e suspirou em alívio. Ao menos havia chegado antes e ela estava lá, do lado dele, onde ele poderia ver. Dane-se o que pode acontecer comigo, pensou. Só não queria que o irmão fizesse nada a ela. No entanto, nesse momento, ouviu a porta do lado oposto do quarto se abrindo e, dela, surgindo aquele que menos queria encontrar – e recebendo ambos com o sorriso caloroso de sempre, que faziam seus olhos parecerem ainda menores e que lhe davam a feição de uma raposa.

-Kyouya… Manami… – começou ele, aproximando-se. – O jantar está pronto, nosso tio fez o favor de nos preparar um banquete maravilhoso. Venham antes que esfrie… ah, Kyouya, o que é isso? Está em trapos, melhor se trocar e cuidar desses cortes antes de aparecer em público. Seria uma vergonha para mim e para nossa irmã se resolvesse vir assim… não é, Manami?
-Não. – respondeu ela, firme, franzindo o cenho para o mais velho. – Pra mim, o Kyo não é uma vergonha… mas… melhor cuidar desses machucados, não é…? – prosseguiu ela, baixando o olhar e dirigindo-o a Kyouya, que pode sentir que ela havia entendido bem que algo estava errado. – Eu vou ajudar ele, não ligo se a sopa esfriar. Pode ir, Teruo-nii…
[1]

O sorriso desapareceu do rosto de Teruo por um breve momento, mas ele logo recompôs-se. Chegou mais perto e colocou a mão magra sobre a cabeça da garota, agachando-se e apoiando o outro braço sobre a coxa.
-Certamente, Manami-chan, certamente… como pude dizer uma coisa dessas de nosso querido irmãozinho, não é mesmo? Pois bem… esperarei por vocês na sala de jantar. Tentem não demorar. – Ele rangeu os dentes ao concluir a frase.
O tom de voz de Teruo ao acabar a frase fez com que Manami se arrepia-se, mas ela sempre se recusava a demonstrar. Balançou a cabeça positivamente, devagar, sem mudar a expressão. O mais velho sorriu e levantou-se deixando o recinto dando uma última olhada fria em Kyouya. Os dois no quarto se entreolharam e o silêncio reinou por um momento, após o qual a garota levantou-se e puxou o irmão pela mão.
-Vem… isso deve estar doendo, tá sangrando. Vai infeccionar…
-… É… – respondeu ele, levantando-se e indo com ela. Sentia a pequena mão da garota tremendo levemente, e preferiu calar-se. Depois, quem sabe, poderiam conversar sobre o que Kyouya havia visto… mas, naquele momento, ambos pareciam assustados demais para tal.

_________________________

[1] -Nii – Sufixo do japonês usado para referir-se a irmãos mais velhos de maneira respeitosa, ou, neste caso, ainda infantil ou feminina.

CAPÍTULO 11 – DIPLOMACY

CAPÍTULO 11
DIPLOMACY 

“Too many people around him made him unconfortable,

but he’d do anything to get what he wanted.”

Berlin, Alemanha – Janeiro de 1939

  

Alexis olhava mais para o relógio em seu pulso do que para as faces de qualquer uma das pessoas lá dentro. Após observar o ponteiro mover-se por alguns segundos, ele elegantemente arrumava a manga de sue farda e colocava os braços por trás das costas, olhando sobre a multidão – e caminhava normalmente, em direção à janela. Ousava dar alguns passos na para a saída ou mesmo para a varanda, mas era freqüentemente interrompido e, esboçando um sorriso consciente, cordialmente trocava algumas poucas palavras com aqueles que o abordavam. ‘É bom vê-lo por aqui’, diziam eles. ‘Na minha época, um jovem como você não tinha chances de chegar aonde chegou’ – algo com o qual ele respondia com um aceno de cabeça, um sorriso amarelo e um sarcasmo eminente na voz.
-São novos tempos. – e retirava-se com a desculpa de que precisava ajeitar-se no lavabo. Só para ser novamente interrompido em seu caminho.

Diplomacia em demasia o aborrecia. Em sua casa, passava horas sozinho durante as quais entretia-se com um bom livro, ou praticando em seu piano ou com seu violino. Se o tempo começasse a se tornar longo demais, entediava-se e simplesmente ia cuidar de seu trabalho. E o caminho oposto também ocorria. No entanto, viagens longas e eventos sociais eram trabalhosos demais. Especialmente quando ele, ainda considerado um novato por não ter sido parte de tudo desde o início, era obrigado a conhecer e passar seu tempo introduzindo-se a todos aqueles homens que, no fundo, guardavam um ligeiro desprezo por sua posição e por sua idade. Não era o único jovem a ganhar um posto elevado [1], mas era sem dúvida um dos que possuíam menos idade. De certa forma, amaciava-lhe o ego saber que era invejado; mas toda a falsidade da situação o incomodava. Sempre preferiu elogios sinceros, e podia sentir o sarcasmo que seguia durante ou após as conversas, quando aqueles homens juntavam-se com seus companheiros mais próximos e olhavam-no pelas costas. Mas fosse dentro ou fora, o mundo estava cheio de hipócritas. Ao menos lá dentro, algumas opiniões poderiam ser dadas com sinceridade. Algumas.

Após algum tempo, conseguira aproximar-se da porta, pegar seu casaco e sair. Segurou-o próximo ao pescoço ao vesti-lo, sem abotoar, e desceu os degraus frente a casa onde a pequena celebração se passava. Ao olhar para o lado, via os motoristas jogando bolas de neve uns nos outros, como crianças finalmente livres da vigília de seus pais. Não se importava. Eram apenas motoristas; eles sequer o tinham visto, ou teriam recuperado da rigidez e batido continência no mesmo momento. A passos lentos, afastou-se em direção ao vazio, parando sob uma árvore e apoiando o ombro sobre sua casca gélida. Com um longo suspiro, encheu os pulmões do ar frio que o circulava e, arrepiando-se, puxou a gola de sua farda para cima, protegendo-se. E pensou que, apesar de não apreciar eventos daquele tipo, estava satisfeito. Satisfeito com seu trabalho; havia subido mais rápido que muitos e era respeitado, tinha sua autoridade. Com sua vida; tinha uma casa apenas dele, ajudava sua mãe quando ela precisasse – após a morte do esposo, sua saúde havia piorado – e podia comprar o que quisesse ou precisasse. Sua ambição nunca fora dinheiro; mas, sim, enriquecer seu próprio ego. Queria ser bom no que fazia, queria ser admirado, queria dignidade, mando, prestígio. E queria, ao seu modo, limpar o país – era o que estava ao seu alcance – de todos aqueles que ele considerava não dignos. Tal termo era, no entanto, deveras amplo; alguns do que ele achava não merecedores da vida que tinham estavam, inclusive, dentro daquela casa. Mas ele não era estúpido em absoluto e sabia que, sozinho, dificilmente conseguiria alguma coisa. Então, juntou-se ao grupo no momento certo – alguns, ele poderia eliminar e poderia, ainda, fazer disso um emprego e uma forma de conseguir poderio. E com suas próprias mãos.

Fora interrompido por uma mão sobre seu ombro e uma voz chamando-lhe a atenção. Virou o rosto.
-Cigarro? – disse-lhe o homem que lhe dirigia a palavra, oferecendo-lhe do maço. Alexis hesitou por um momento, e soltou um riso baixo.
-Não, obrigado… Prefiro não abusar.
-Ótimo. Não combina com você. – riu ele, acendendo o que levava entre seus lábios finos e guardando o maço no bolso do casaco. – Como passou o ano-novo?
-Nada de mais… – respondeu Alexis, movendo o ombro. – A Hilde anda mais atarefada com o casamento, de qualquer forma.
-Ela vai se casar? Deuses. Não desejo isso para ninguém. – Ele suspirou. – Parece que até algum tempo atrás, ela não passava de uma criança. – disse, ajeitando os óculos.
-Ainda parece não passar, se conviver algumas horas com ela. – Alexis soltara outro riso, baixo, passando as costas da mão sob o nariz.
-Você também não deveria ter crescido tanto. Acho que isso quer dizer que estou ficando velho… Mas sabe que ainda tem essa mania de esgueirar-se por uma fresta e se isolar dos outros.
-Sei… nunca… fui de conviver com multidões por muito tempo.
-Multidões? Muito tempo? – Riu ele novamente, tragando do cigarro. – Por Deus, Alexis, não tem nem trinta pessoas lá dentro… e mal se passaram duas horas. Tem certeza que isso não veio piorando com o tempo?
-Talvez… acho que amadureci, não concorda? – sorriu Alexis. – O que me intriga mais é se o senhor pode se dar ao luxo de deixar aquele lugar.
-Ach, eu tenho a minha autoridade. O discurso, eles dizem, o discurso… inferno, eles o ouvirão quando for a hora. E fumar aqui fora me pareceu melhor, também. Principalmente quando vi que você estava ausente.
-E o seu favorito?
O homem sorriu e apertou os olhos, passou as mãos pelo ralo bigode em seu buço e bateu sobre o ombro do mais jovem.
-Foi uma ponta de ciúmes que senti nessa pergunta?
-De forma alguma. – Sorriu Alexis, simpático. – Mas ele, sim, pode ficar com algum ciúme.
-Há, não… Não se preocupe com isso. Ele tem os próprios assuntos pra cuidar. Tem tanto nas mãos, que me impressiona que chamem apenas a mim de viciado em trabalho…
-Quem não é, hoje em dia… – suspirou o jovem, ajeitando o quepe sobre a cabeça, e riu. – Boa sorte com o discurso.
-Esse maldito discurso, até você. Venha, que frio dos infernos, nem sei como você agüenta. Beba uma taça de vinho, coma mais alguma coisa e depois pode ir pra casa. Ou hotel. Em que hotel resolveu ficar? – Ele mais uma vez bateu sobre as costas de Alexis e gesticulou para que ele o seguisse.
-O de sempre… perto do portão de Brandemburgo. E obrigado, Reichsführer. Depois do vinho, vou precisar dormir… – sorriu Alexis, seguindo-o.
-Aah. É um bom lugar. E sem títulos, Alexis, não agora. É Heinrich quando podemos deixar de lado as formalidades. – Ele ajeitou o casaco sob o queixo quase inexistente. – Deuses, que frio.

Alexis sorriu novamente e encolheu os ombros, entrando. Ambos os homens tiveram de interromper o diálogo assim que foram abordados por outros; mas Alexis fez como lhe foi permitido, e, meia taça de vinho e um prato de comida depois, desvencilhou-se novamente do bando e dirigiu-se para o carro. Interrompeu a diversão dos motoristas, fazendo com que um, ao levantar-se em continência, levasse uma bola de neve no rosto. Suspirando, apenas olhou para o lado e soltou um riso pelo nariz, sorrindo com um canto dos lábios. Entrou por si mesmo no carro enquanto o pobre jovem que para ele dirigia ajeitava-se e corria para ligar o veículo, e deixou o quepe sobre o colo. O motor rugiu e o carro seguiu seu caminho, com os dois homens em silêncio – os motoristas dificilmente dirigiam palavra a seus chefes, e Alexis claramente não era a pessoa mais comunicativa do mundo. Sem muita delonga, o automóvel frente ao hotel e, com uma saudação, o motorista despediu-se de seu chefe após assegurar-se que ele não precisaria mais de seus serviços. Alexis retribuiu com um leve gesto de cabeça, e entrou para aquecer-se de uma vez, cruzando o saguão como uma flecha e subindo direto para seu quarto.

Sem pensar duas vezes, despiu-se de seu uniforme e entrou direto debaixo da água quase fervendo do chuveiro, suspirando profundamente e deixando-a bater em seu peito e face. Fechou os olhos e passou as mãos pelo rosto, pressionando as têmporas com os polegares. Encolheu os ombros e alongou o corpo, esticando os braços para frente e molhando os finos cabelos louro esbranquiçados, passando os dedos entre os fios, em seguida. Pegou o sabonete e começou a lavar-se, vagarosamente, passando os olhos sobre sua própria pele. Nenhuma imperfeição, pensou ele. Ele poderia conviver com a imperfeição do mundo; mas não com a própria. Vaidade era uma das palavras que melhor o definiam, e que também, de certa forma, o atormentavam. Não gostava de sujar-se, e nunca poderia imaginar manter seu ego em seu nível satisfatório se ganhasse alguma cicatriz. Seu corpo deveria ser perfeito. Corpo e mente, do jeito que ele considerava perfeito. Ele era magro, porém forte; seus ombros eram largos e seu tronco bem definido, e a espessura de seus braços ornavam de maneira perfeitamente proporcional; não era corpulento em demasia, mas tinha músculos que lhe davam um porte elegante em seus vinte e quatro anos.

Cautelosamente esfregou a espuma pelos membros, enxaguando-os apenas colocando-os sob a água, e começou a lavar os cabelos, massageando a cabeça devagar. Após deixar a cabeça sob o chuveiro por alguns minutos, fechou o registro e puxou uma toalha, secando-se no calor do vapor que enchia o banheiro. Saiu, dirigiu-se diretamente para o aquecedor e ligou-o, vestindo frente ao armário. Passou a toalha pelo cabelo e escovou-os com os dedos – não era necessário mais do que isso para colocar os fios em seus lugares – , seguiu para a cama e apoiando-se na cabeceira, pegou o livro que havia deixado na cômoda e abriu na página marcada. Ele ficaria lendo, em silêncio, até entardecer e o sono surgir. E foi o que fez; algumas poucas horas depois, ajeitou-se sob as cobertas e adormeceu rapidamente, em seu sono pacato e silencioso como o de uma criança.
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[1] Entre oficiais do alto escalão com pouca idade, estavam Heinrich Himmler, com 33 anos quando Hitler tornou-se Chanceler; Reinhard Heydrich na época possuia apenas 29, e Walter Schellenberg apenas 23 anos de idade.

The Vor

Apenas algumas fotos do Damaran, tiradas a algum tempo. :3 Logo, atualizações (após milênios de procrastinação)! ><‘

CAPÍTULO 10
BACK AND FORTH 

“He always thought guns were for cowards,

but never had the chance to test his other weapon effectively.”

Leste da Finlândia – Ano de 1940

  

O ar que entrava por sua boca descia-lhe gélido e cortante para seus pulmões. Desejava, por um instante, que fosse possível não respirar; mas ofegante como estava, segurar o fôlego certamente parecia-lhe algo inconcebível. Suas mãos apertavam o cano enfaixado e o gatilho do rifle de maneira que homem algum conseguiria fazê-lo soltar. Ele sentia que o frio havia colado sua pele ao metal, mesmo tendo suas mãos cobertas por luvas bastante grossas. Ficou sentado na terra fria apenas por alguns segundos; levantou-se rapidamente, e apertou o gatilho três vezes, quase sem olhar a mira. E jogou-se ao solo novamente, soltando o ar com toda sua força. Não sabia se tinha acertado alguma coisa; mas nunca dava tempo de conferir.

Só mais um pouco, pensou ele. É uma batalha pequena; só mais um pouco e acabaria. Os soldados inimigos já estavam exaustos desde as ofensivas no mês anterior, e aquela parecia-lhe apenas uma última ofensiva. Mesmo eles tendo conseguido dividir sua tropa, seus homens mantinham-se firmes nas trincheiras e ele acreditava piamente que reforços estavam a caminho. Haviam sofrido alguns contra ataques, mas resistiram firmemente – e ele planejava continuar resistindo até alcançar a vitória. Respirou fundo novamente, e levantou-se, atirando até que sua munição se esgotasse. Escorregou o corpo pela terra, apalpando o chão a procura de balas, e rapidamente pegou-as e recarregou a arma. Já mal sentia as extremidades de seus membros, mas não ligava. Quanto antes aquilo acabasse, melhor seria – e mais chances todos ali teriam de sair vivos. Ele puxou o ar mais uma vez, e quando estava preparado para levantar-se novamente, sentiu o toque de um de seus companheiros em seu ombro.

-Ei, Capitão! As balas acabaram ali, tem algumas pra emprestar?

Ele encarou o homem que o chamava por um instante e balançou a cabeça afirmativamente, colocando um punhado de munição dentro de um saco de pano e entregando ao outro.

-Spasibo. – sorriu ele, para depois chamar a atenção de seus companheiros a alguns metros dali e jogar baixo o saco com as balas para eles após carregar seu próprio rifle. – Devemos ser de tropas diferentes, já que nunca havia visto o senhor. Esses malditos conseguiram fazer mais que esperávamos, hein? Sou Anton. Seu nome, Capitão, se me permite?

– … Damaran. – respondeu ele, após hesitar um pouco. Sentia que aquele não era o melhor momento para se ter uma conversa amigável. Ainda mais considerando que ele era, de certa forma, seu superior – por mais que partilhassem o mesmo inferno congelado.

-Hm… nome incomum. – riu ele, olhando sobre o ombro e procurando o momento certo para atirar. – De onde veio?

-Stalingrado. – respondeu ao outro sem muita simpatia na voz, levantando-se rapidamente e deferindo mais dois ou três tiros. Agachou-se novamente, procurando não manter um contato visual com aquele que lhe dirigia a palavra dando a si mesmo a desculpa de que qualquer movimento em falso poderia custar-lhe a vida. Mas, aparentemente, Anton não estava disposto a deixá-lo em paz.

-É? Conheço uns caras de lá. Eu sou de Kashin. Lugarzinho pequeno, mas até que gosto. Tem família?

Damaran apenas balançou a cabeça negativamente, ainda sem olhar o outro soldado nos olhos. Perguntava-se o motivo daquela conversa no meio daquele inferno congelante. Anton olhou-o por um tempo e suspirou.

-Você é meio quieto, não é? Tudo bem, acho que entendi. Sinto muito pela sua família.

O outro suspirou discretamente, pensando que ele havia entendido errado – Damaran não possuía família desde antes do início dessa guerra. Ou, ao menos, não tinha idéia de quem seriam ou de onde estariam. Mas preferiu poupar as palavras e apenas respondeu com um gesto de ombro, notando sua arma descarregada e pegando a munição.

-Minha noiva tá me esperando na minha cidade. Depois disso aqui, vou voltar pra lá e ver se passo um tempo com ela e com meu futuro pirralho. – disse o outro, sorrindo orgulhoso. Por mais que sentia pela perda de Damaran, sua alegria em falar sobre sua família era latente em seu rosto. Mas o soldado simplesmente não parecia importar-se muito com isso – Damaran ficava imaginando o porquê dele resolver dizer essas coisas em meio a chumbo e pólvora. E ainda mais para um completo estranho.

Mas Anton não parecia notar a indiferença em seu rosto – o frio, o barulho, o caos e o cabelo que cobria parte do rosto de Damaran tornavam difícil uma leitura profunda da sua expressão, por menos sutil que ela fosse. E então, Anton prosseguiu. Levou a mão ao seu bolso, e retirou uma foto muitíssimo suja e amassada, passando-a a Damaran.

-Aqui. A minha mulher… é por ela que preciso ajudar a ganhar essa coisa aqui. – riu ele, apontando para trás com o polegar, referindo-se a batalha. Ele mantinha um sorriso demasiadamente otimista no rosto – será que compreendia que poderia não sair dali com vida? Ou simplesmente possuía tanta crença em suas habilidades de combate e em sua sorte?

Damaran ecarou a foto por um momento, e logo encarou o homem. Não disse nada – não sabia exatamente como reagir a isso. Mas resolveu tentar esboçar um sorriso, e balançou a cabeça. Anton sorriu de volta, e, tomando o rifle no ombro, levantou-se curvado para manter a cabeça protegida.

-Vou voltar pra onde estava. Depois que isso acabar, conversamos melhor… prazer te conhecer, Capitão. Ou Damaran. – disse ele, acenando baixo e dirigindo-se para onde estavam seus colegas. – Qualquer dia, se for a Kashin, dá uma passada em casa. Minha mulher vai ficar feliz de receber um convidado.

Damaran apenas o observou por alguns instantes, e soltou um suspiro longo, voltando a concentrar-se na pólvora, na mira e no inimigo. Pensou que dificilmente iria a um lugar como aquele, visitar um homem que acabara de conhecer e uma mulher cuja aparência conhecia apenas por uma foto.

Os dias se passaram iguais, um após o outro, e Damaran sentia que o fim não estava sequer próximo. Os suprimentos que chegaram eram menos do que o esperado – o inimigo havia conseguido cortar o seu fornecimento. No entanto, não pareciam dispostos a deferir um ataque definitivo e a batalha apenas se prolongava de maneira bastante frustrante para o capitão. No que pareceu ser um curto intervalo da chuva de chumbo, Damaran viu-se cercado por seus companheiros que dividiam parte dos poucos alimentos que os haviam alcançado. Um homem com o capacete até os olhos e uma espessa barba castanho avermelhada lhe passou um pedaço de porco enlatado, já mais frio que o normal por passar alguns segundos no ar gelado. Damaran agradeceu com um gesto de cabeça, após encará-lo discretamente por alguns segundos e passar os olhos ao redor, pelos outros soldados. Tinha certeza que não queria ver a si mesmo em um espelho naquele momento, e nem ousaria despir as luvas para tocar o próprio rosto. Os únicos acessórios de higiene que possuíam eram facas, faixas, a água dos cantis que rapidamente se congelava, e a neve ao redor que mal saberia dizer se estava realmente limpa ou não; e nenhum deles estava em posição de se importar com algo desse gênero. Procurou afastar o pensamento balançando a cabeça, e mordeu o pedaço de carne arrancando-lhe metade. Pegou a garrafa de vodka ao seu lado e jogou a rolha ao chão, virando-a garganta a baixo para ajudar o alimento a descer e esquentar o corpo. A bebida escorreu-lhe pelo queixo num feixe fino e gélido, mas ele não ligou. O calor do álcool dentro de seu corpo compensava algumas pequenas gotas, pensava ao afastar a garrafa vazia e limpar a boca com a manga de seu casaco. Mordiscou o que restava da carne até nada sobrar, e esfregou as luvas na neve misturada a terra numa vã tentativa de limpá-las.

Olhou para o lado, de onde ouvira algumas risadas animadas de seus homens – e viu Anton apoiado na terra, segurando um cantil com uma mão e repousando a outra sobre a ferida na perna. Damaran não sabia ao certo o que havia lhe acontecido; segundo o que ouvira, fora atingido quando tentava ir até o lago próximo encher o seu e mais alguns poucos cantis. O garoto era corajoso, mas não muito inteligente. Com receio de não encontrar neve livre de impurezas, abriu a guarda para o inimigo. Mas, de certa forma, o capitão encontrou em si um pouco de admiração por ele. Suspirou profundamente e levantou-se, ordenando para que todos voltassem a seus postos assim que acabassem de comer e beber, e dirigiu-se até seu lugar na trincheira. Carregou o rifle e sentou-se na terra, lançando um olhar ao céu cinza em cuja companhia passara os últimos meses e aproveitando o silêncio.

Pegou-se imaginando se os soldados do outro lado também tinham momentos como esse, e se tinham algo melhor para comer. Seu país não era conhecido pelo bom suprimento dos soldados, mas, talvez, seus inimigos o fossem. E por um momento, sentiu uma frustração aguda que sequer sabia de onde vinha. Debruçou-se sobre a terra, procurando afastar esses pensamentos, e levantou o cano de sua arma, procurando mira. No entanto, o outro lado parecia estranhamente calmo. Não via movimento algum, não ouvia som algum – parecia até que a batalha havia se acabado de repente, como se não houvessem mais inimigos a combater. E suas suspeitas confirmaram-se ao ver o rapaz que cuidava do rádio correndo até o grupo com um sorriso de alívio no rosto, e os outros levantando suas armas em comemoração ao fim do inferno. De alguma forma, aquilo finalmente havia chegado ao fim.

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Nota: A batalha em questão trata-se da Guerra de Inverno entre a União Soviética e a Finlândia, que lutava ao lado do Eixo, entre o final de 1939 e o início de 1940, com atenção específica ao VIII Batalhão Russo. Iniciou-se com uma ofensiva soviética e terminou com o Tratado de Paz de Moscou, resultando na expulsão da URSS da liga das nações. O VIII Batalhão, criado em 1939, tinha como objetivo a defesa da fronteira Noroeste da Rússia e enfrentou a Finlândia na área do lago Ladoga, visando destruir as tropas inimigas no local e avançar pela área de Sortavala e Joensuu num tempo de dez dias. 

CAPÍTULO 9
ACCORDANCE

“He had support and an idea.

Now he just needed the puppets.”


Moscou, Rússia – Ano de 1950

 

 

Kyouya corria pelo corredor de paredes avermelhadas, tomando cuidado ao olhar os números das portas para encontrar o quarto certo. Haviam se passado três dias desde que o russo havia aceitado sua proposta, e ele não havia aproveitado o tempo de maneira muito produtiva. Mal havia conseguido pensar em por onde poderia começar, muito menos os meios que deveria usar para tal. Fazer tudo o que queria sozinho era realmente complicado, pensava ele. Ainda mais com a pouca experiência que possuía e pelo fato de recusar-se a pedir a ajuda do irmão. 


O irmão. Kyouya parou na frente da porta do quarto do russo, encarando-a durante alguns segundos, e suspirou. Por que diabos havia pensado nele justo naquela hora? Ele não queria fazer tudo por si mesmo? Se quisesse continuar em frente, teria que abandonar qualquer possibilidade de ser ajudado pelos membros de sua família. Ainda não sabia exatamente o que iria dizer sem que aquele homem simplesmente o descartasse apenas como um moleque inconseqüente; mas respirou fundo e bateu na porta.


Nenhuma resposta. Ele perguntava-se se havia errado o quarto, ou se o russo já havia saído. Se esse fosse o caso, ele acordava incrivelmente cedo. Levantou uma sobrancelha checando o numero do quarto novamente e viu que estava correto. Tentou bater novamente, e pôde ouvir passos pesados se aproximando.


A porta abriu-se após alguns segundos, e Kyouya surpreendeu-se ao topar com o peito largo e semi-nu do russo. Sua cabeça ficava exatamente na altura do centro da enorme tatuagem em formato de cruz que estendia-se pela parte superior de seu tronco, tamanha era a diferença de altura entre os dois. Os cabelos cinzentos de Damaran estavam molhados, deixando pingar água em sua pele, e a franja cobria completamente o lado direito de sua face. Apertava o único olho castanho que deixava a mostra, como se tivesse acabado de acordar e tomado um banho que de nada havia adiantado para acabar com seu sono. Ambos se encararam, e Damaran não pôde evitar soltar um suspiro.


-Você acorda bem cedo. – disse ele, entrando de volta no quarto, mas deixando a porta aberta. E estendeu o corpo, espreguiçando-se. – O que quer comigo a essa hora? Não pôde nem esperar o café da manhã?

-Deve ser a diferença de horário… – disse Kyouya para si mesmo, olhando para o relógio em seu pulso e pensando que não costumava acordar tão cedo quando estava em sua casa. E, pelo jeito, nem o russo o fazia, julgando pela supresa com a qual o recebera. Kyouya limpou a garganta, dando um passo para dentro do quarto, receoso.

-Pode entrar. – disse o russo, pegando uma toalha e passando-a pelos cabelos. Sua camisa e casaco estavam estendidos sobre a cadeira, e sua mesa encontrava-se um tanto bagunçada. Kyouya entrou no quarto, e apenas prostrou-se próximo à cama de Damaran, que se sentava e passava a mão no rosto após um longo bocejo. O russo encarou-o por um momento, olhando-o de cima a baixo.

-Não precisa ficar assim tão tenso, sabia? – disse ele, esfregando a toalha sobre a cabeça. – Você quer ser parceiro de negócios, e não meu subordinado. Pelo que eu entendi da conversa…

Kyouya balançou a cabeça afirmativamente, tentando relaxar seu corpo, sem sucesso. Ele não sabia ao certo se a etiqueta mudava tanto de um pais para o outro, ou se o russo podia simplesmente se dar ao luxo de esquecê-la tão pouca fosse a importância que estava dando a tudo aquilo. Com a mesma postura reta, continuou a encarar Damaran tentando lembrar-se do que exatamente havia vindo falar, enquanto o outro abria uma pequena caixa de madeira e tirava um grosso charuto o qual logo acendeu, tragando vigorosamente. A fumaça espalhou-se pelo cômodo fazendo com que o garoto acidentalmente abanasse a mão frente ao rosto, tão forte era o cheiro do tabaco. Mas logo parou quando o russo voltou a encará-lo e ao perceber que não havia feito algo muito sensato.

-Perdão…

-Não gosta do cheiro? – perguntou ele soltando um riso pelo nariz, tragando novamente e levantando-se para abrir a janela. – Pode ser sincero. A maioria detesta.

O garoto olhou-o por um tempo e suspirou. Se ele sabia que o cheiro era tão ruim, por que fumava aquela coisa? Mas a educação mandava que ele apenas se calasse e mostrasse respeito.

-Não me incomoda. Foi apenas costume… – respondeu polidamente, por mais que se lembrasse de quando seu tio acendia o cigarro quando tanto ele e o irmão eram ainda crianças. Sempre haviam odiado aquilo.

-Bom. Porque é uma das poucas coisas que me faz conseguir relaxar ultimamente…

-Relaxar?

Damaran balançou a cabeça afirmativamente, tragando com força e soltando a fumaça pelo nariz. Não respondeu mais nada e olhou para fora por um bom tempo, enquanto Kyouya observava-o entretido. O russo bateu o charuto no batente da janela e suspirou, virando-se para o japonês.

-Então, o que veio fazer aqui tão cedo?

-Ah. – exclamou o garoto, pensando que andava se distraindo com demasiada facilidade desde que havia chegado naquele lugar. – Eu preciso… de um favor…

-Que tipo de favor? – perguntou novamente o russo, levantando uma sobrancelha e encarando o garoto que, por sua vez, abaixava o rosto ligeiramente e limpava a garganta, engolindo sua honra em seco.

-Eu gostaria… de passar alguns dias como seu aprendiz. Se não for muito incômodo.
Damaran encarou-o surpreso por um longo momento. Começava a imaginar se o garoto havia se enrolado com a língua ou algo parecido, pois aquela fora a proposta mais bizarra que havia recebido desde muito tempo.

-… Como?

É realmente absurdo, pensou Kyouya. Claro que ele não aceitaria. Da mesma maneira que o alemão recusou-se a fazer negócios com ele, era óbvio que o russo jamais iria aceitar, simplesmente, tornar-se professor de um garoto estrangeiro que havia simplesmente aparecido do nada. Estava preparado para receber um incisivo ‘não’, ou ser encarado como uma piada. E, ao que lhe parecia, havia acertado – o russo soltou um riso baixo pelo nariz, encarando-o por alguns segundos, e logo caiu na risada. 


O garoto encolhia os ombros, olhando para baixo. Perguntava-se se ninguém estaria disposto a dar-lhe uma chance – afinal, já havia chegado longe a ponto de encontrar o hotel e ainda conseguir falar pessoalmente com pessoas de, achava ele, relativa importância. E havia viajado o longo caminho até Moscou sozinho, saindo de seu país que estava quase ainda recuperava-se dos desastres da guerra.

-Entendo que pareço só uma criança inexperiente. Mas…

O russo mal deu-lhe tempo de continuar.

-Maravilhoso!! Fazia anos que ninguém conseguia me entreter dessa maneira. Você tem um toque pro inesperado, garoto. Pois bem… imagino que isso não vá me trazer nenhum tipo de recompensa material, mas pode me divertir por um bom tempo. – disse ele, excitado, sorrindo para Kyouya. O garoto processou o que havia ouvido por alguns momentos.

-Isso quer dizer que…?

Damaran sorriu.

-Que eu aceito. Vou fazer-lhe esse favor. E em troca… divirta-me. – riu ele, tragando seu charuto com força e soltando a fumaça escura pelo nariz. – Mostre-me que fiz bem em aceitar que ficasse ao meu lado, e que pode ser mais que apenas um garoto oriental irresponsável.

Kyouya sorriu largo pra ele, curvando o corpo perfeitamente em agradecimento.

-Muito obrigado!! Prometo que não vai se arrepender! – respondia ele, com grande empolgação. O russo apenas olhou-o por um momento com o cenho franzido, estranhando o gesto. E suspirou.

-Certo, certo… mas não vai querer ficar perto de mim o tempo todo, vai? – suspirou, dando a deixa para que Kyouya deixasse o quarto por um momento.

-Ah. Perdão… – disse o garoto, curvando-se novamente. E voltou a olhar pro russo, que apagava o charuto num cinzeiro de cristal, esperando que ele lhe dissesse quando deveria voltar.

-Vou almoçar no restaurante do hotel depois do meio-dia. Se quiser aprender alguma coisa, me procure por lá. – sorriu ele, logo acendendo outro charuto. Kyouya se perguntava como alguém conseguia fumar dessa maneira logo de manhã, mas achou que seria mais educado não perguntar sobre isso.

-Sim! Muito obrigado novamente! – respondeu ele, sorrindo. – Então, se me dá licença… – e retirou-se, sem olhar pra trás. Damaran olhava para suas costas e assim que a porta se fechou, não conseguiu segurar-se a soltar um riso. Enfim, entretenimento, pensou. Aquele garoto acabava lembrando-o de si mesmo quando jovem, de certa forma – impetuoso e sem muita noção de perigo. Mas apenas deu de ombros e continuou a fumar, calmamente. 


Kyouya encostou-se na parede e sorriu para si mesmo, mordendo o próprio lábio em satisfação. Mais perto, pensou ele. Um passo mais perto.

Aews! X3

Damaran desenhado pela minha amiga Fran!! :3 *abraça*

Muito obrigada, moça! ❤