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Archive for the ‘Uncategorized’ Category

CAPÍTULO 19
PARANOIA
 

“He never, never forgot,

to keep his gun close enought even when sleeping”

Hamburgo, Alemanha – Ano de 1950

  

Às vezes, ele sentia como se tudo aquilo não fosse verdade. Mas era um sonho do qual nunca acordava; era a realidade que interrompia os seus sonhos de verdade. Acordou num tranco e viu-se sentado em sua poltrona, em frente à lareira de sua própria sala. O fogo já havia há muito se extinguido, e apenas as cinzas ainda queimavam suas últimas forças. O livro que estivera lendo havia caído de seu colo para o chão, aberto, e o frio que entrava pela fresta da porta do quintal lhe trazia arrepios. Por que diabos essa porta está aberta, em primeiro lugar? Levantou-se e foi até a porta do quintal, fechando-a. Por um momento, pegou-se observando um pequeno arbusto de rosas que existia em seu quintal desde que podia se lembrar. Sabia que não estava ali da primeira vez que entrara na casa, mas, por algum motivo, desde que ele havia surgido Alexis sentia-se incapaz de sequer pensar em tirá-lo dali. Aquelas flores lhe proporcionavam uma tranqüilidade estranha, e eram a visão mais agradável do quintal nos dias quentes nos quais ele resolvia sentar-se a sombra e respirar um pouco do ar fresco. Já era noite, no entanto, e as poucas rosas que sobreviviam ao outono ganhavam na escuridão uma cor muito mais sombria do que nos dias de verão. A escuridão de fora fê-lo pensar no silêncio da casa, e levou algum tempo até lembrar-se de que Vladilena havia voltado para sua própria moradia; estava, finalmente, sozinho como tanto desejou. Mas anda não me lembro quando foi que abri essa maldita porta.

Fechou as cortinas após verificar o quintal já escuro por completo. Seus vizinhos estavam em casa, sabia graças às luzes acesas nas janelas. Não os conhecia bem, mal sabia seus nomes, e nunca considerara esforçar-se para fazer amizades. Não se importava, realmente. Talvez houvesse um tempo em que o fazia, mas não se lembrava. Pegou o livro do chão e foi até a cozinha, ouvindo o silêncio tão costumeiro de sua própria morada quando se encontrava sozinho. Encheu uma chaleira com água e colocou-a sobre o fogão, pegando então a caixa de chá no armário. Sabia que se tomasse café a noite, não conseguiria dormir de maneira alguma. Apoiou o quadril na bancada e arrumou os óculos sobre o nariz, procurando a página na qual havia adormecido. Folheou, passando os olhos pelas palavras, tentando lembrar-se do que havia lido. Andava sentindo dificuldade em concentrar-se, e quando não conseguia se concentrar em sua própria leitura, sabia que algo estava muito errado. Apertou os olhos ao ter certeza de chegar em uma passagem que não havia lido. ‘A raça humana é algo monótono. A maioria das pessoas usa a maior parte do seu tempo trabalhando para viver, e qualquer pequena liberdade que sobra os enche de medo…’ [1]. Suspirou e usou a embalagem do saquinho de chá para marcar a página, deixando o livro sobre a bancada. Onde estava com a cabeça ao pegar esse livro da estante?

Ao ver o vapor subindo pela chaleira, desligou o fogo e serviu-se do chá em uma xícara, introduzindo e retirando o saquinho na água, esperando-a tingir-se. De repente perguntou-se quando fora a última vez que comera, e percebeu que não conseguia lembrar-se. Talvez tivesse sido no café da manhã. Acreditava ter cozinhado o almoço, mas não sabia o que havia sido e se havia comido. Foi até a geladeira e olhou dentro. Não havia muito; um pouco de salada, batatas, um pequeno pedaço de carne que havia sobrado do pouco que cozinhara para si. Ao menos parecia ter almoçado, a não ser que aquilo estivesse ali desde o dia anterior. Talvez devesse pegar aquelas sobras e comer algo antes de dormir, mas seu estômago o impedia de pensar em comida. Sentia cada vez menos fome, e, após algumas tentativas, notou que forçar-se a comer fazia-o sentir ânsia ou causar-lhe até dores de cabeça.

Pegou a xícara de chá e apagou as luzes de sua cozinha, subindo as estreitas escadas até seu quarto, o único da casa. O lugar não era grande. O maior aposento era a sala de estar apenas porque o grande piano de cauda assim exigia. Todo o resto era suficiente para apenas uma pessoa, uma pequena casa de dois andares que lhe dava o luxo de um escritório e até uma saleta ao lado do quarto; e era assim que ele apreciava. Morava sozinho, e cuidava de sua casa sozinho; um lugar grande demais seria apenas um grande inconveniente. Encostou a porta do quarto, deixando a xícara sobre a cômoda ao lado da cama de casal que, por algum motivo, estava em seu quarto até antes de juntar-se a Vladilena. Costumava dormir de apenas um lado, nunca ocupando o meio ou a extensão inteira da cama, mas havia se acostumado a sua largura que acabara se tornando conveniente considerando as poucas visitas que recebia. A primeira imagem que lhe veio a mente, no entanto, não foi a noiva. Pensara em ‘família’ ao sentar-se, e sua mente divagou até sua própria sobrinha. Julia.

Há quanto tempo ela não a visitava? Deve estar com seus oito anos, ou seriam mais? Lembrava-se dela claramente quando era um bebê de colo, quando havia acabado de aprender a andar, quando ele ainda visitava sua irmã em sua cidade natal. Parece que foi há dezenas de anos. As visitas de ambos os lados haviam ficado cada vez mais raras, provavelmente devido a sua posição, a sua situação delicada. Perguntou-se se estaria sentindo falta dela, da família… de sua própria mãe. Ela também estava no mesmo lugar, ali, desde que ele nascera, na casa que ele crescera. Ou, ao menos, era o que gostaria de acreditar. A casa ainda estava lá… mas pelas notícias que recebia, a mãe passava mais tempo em um quarto de hospital do que na própria casa. Pensar naquele lugar vazio, abandonado, lhe dava um aperto no peito que ele nunca havia conseguido racionalizar. Talvez seja hora de uma visita, e dessa vez, uma visita decente. Longa. Mas a vontade lhe faltava. Ou seria a coragem?

Lembrou-se de seu chá que esfriava sobre a cômoda e pegou a xícara envolvendo-a em ambas as mãos, aquecendo-se. Bebeu, deixou-a de volta, levantou-se e foi direto ao banheiro. Despiu-se e abriu o chuveiro, agradecido pela água aquecida que descia pelo chuveiro que batia em seus ombros e descia pelo seu corpo. Deixou-a molhar seus cabelos finos e seu rosto, fechando os olhos, sentindo como se o banho pudesse levar suas preocupações ralo abaixo. Não costumava funcionar, mas a sensação era reconfortante. Lavou-se, lavou os cabelos, o rosto, o corpo, os ombros, o ombro, aquele ombro. O ombro distorcido pela cicatriz, sua grande lembrança de sua maior humilhação, sempre ao seu lado, acompanhando-o. Suspirou em frustração, e enrolou-se na toalha após enxaguar-se e desligar o chuveiro. Aproveitou o vapor para se secar e foi até o quarto, vestiu-se e engoliu um de seus remédios que lhe proporcionavam um sono mais agradável. Deitou-se de seu lado da cama, virando-se de costas para o outro, e adormeceu.

A manhã seguinte acordou-o com um raio de sol em seu rosto através das cortinas. Havia dormido de costas para a janela… e acordado de frente para ela. O travesseiro do lado estava em seus braços, o cobertor emaranhado em volta de seu corpo. Não era a primeira vez que aquilo acontecia, por mais que não costumasse se mover durante o sono. Puxou o travesseiro sobre o rosto, faltando-lhe forças para levantar, e passou alguns minutos em silêncio e imóvel. Não queria de saber que horas eram, normalmente levantava-se cedo, mas a solidão lhe dava um sabor de liberdade. Conseguiu cochilar por mais alguns minutos, e foi acordado novamente com o som da campainha.

O pensamento de deixar quem quer que fosse esperando do lado de fora lhe fora tão tentador que só considerou levantar-se quando a campainha ficou mais insistente. Praguejando, levantou-se da cama e foi até o banheiro para lavar-se, irritando-se mais a cada toque. Desceu as escadas ainda em roupas de dormir e abriu a porta com uma expressão incomodada. O homem na porta lhe sorria por trás dos óculos, gesto que Alexis não retribuiu.
-Por um momento achei que tinha morrido. – disse o homem de óculos. Tinha quase a mesma altura de Alexis, e os cabelos louro areia penteados para trás com apenas alguns fios caindo-lhe sobre o rosto como franja. Trazia um jaleco branco e uma sacola de pães num braço, e um pouco de café no outro.
-Por um momento quase quis morrer. – respondeu Alexis num quase rosnado. – O que foi?

-Bom dia pra você também.
Alexis soltou um resmungo.
-Seu humor está agradável como sempre, Alexis. – disse o outro, tomando a liberdade de entrar na casa e levar a comida até a cozinha. – Imagino que a saúde esteja como sempre também, então.
-Está. Não precisava ter vindo…
-… Por mais que eu saiba que o seu ‘como sempre’ é o que a maioria das pessoas consideraria como péssimo? – Alexis não respondeu. – Você comeu ontem?
-Não sei.
-Não sabe? – o homem de óculos levantou uma sobrancelha.
-Não me lembro. Acho que sim.
-Não lem… acha que sim?
-Fiz chá antes de ir pra cama.
-Claro.
-E tomei o remédio também.
-‘O’ remédio? Qual deles?
-O de sempre.
-Deveria ter mais de um ‘de sempre’, Alexis.

Respondeu com um rosnado. No fundo sabia que deveria nutrir certa gratidão pela preocupação do amigo, que atuava ainda como seu próprio médico particular. Era, talvez, o único que Alexis poderia chamar de amigo, se é que ele também se via como tal. Se ele ainda se dá ao trabalho de vir, devo assumir que sim.
-Você não devia estar trabalhando, Erich?
-Na verdade estou desperdiçando minha folga com você. – sorriu por trás dos óculos, entregando-lhe um dos pães que havia trazido. – Coma.
-Ora, obrigado pela consideração. – Alexis apenas fitou o pão, sem dignar-se a pegá-lo. – Não tenho fome.
-Você nunca tem fome. Por isso anda cada vez mais parecido com um cadáver. Coma, que não quero te ver parar lá no hospital por inanição.

Com um resmungo, Alexis pegou o pão e mordeu-o sem vontade, enquanto Erich o observava atentamente. Mastigava devagar, com uma sensação estranha no estômago, forçando-se a colocar a comida para dentro. Talvez ele tivesse mesmo razão. Não seria bom se acabasse magro demais e parecesse ainda mais velho do que se sentia, com sua vaidade ferida. Como se não bastasse aquele horror em meu ombro. Se fosse obrigado a comer um pouco mais para manter-se em forma, como costumava fazer quando era mais jovem…

Erich pegou duas xícaras no armário e encheu-as de café, adicionando a ambas um pouco de leite fresco, e entregando uma delas a Alexis. Este, por sua vez, aceitou-a sem reclamações e bebeu. O gosto pareceu-lhe estranho, mas nada disse; estava tão acostumado a beber o café que fazia para si mesmo, que café comprado lhe parecia estranhamente artificial. Ao menos serviria para ajudar com o pão, o qual sentia cada vez mais incômodo em colocar para dentro. Puxou um dos bancos de madeira e sentou-se, engolindo o último pedaço, enquanto Erich ocupava-se com sua própria refeição. Alexis mantinha-se em silêncio, observando o vazio.
-O que tem feito? – perguntou Erich.
-Nada. – respondeu Alexis, incomodado. – Realmente, nada.
-Ainda anda trabalhando… com aquilo?
Como os ideais mudam. Ao menos, não os de Erich. Desde que o havia conhecido, ele sempre fora contra aquilo.
-Tem algo mais com que eu possa trabalhar?
-Se você ao menos tentasse…
-Tentasse não acabar preso, Erich?

O amigo olhou-o incomodado. Alexis sabia o que ele estava pensando, sabia que ele se perguntava para onde havia ido toda a força de vontade que ele já teve, quando era mais jovem, quando não se deixou vencer mesmo ao beirar o desespero. Aqueles foram bons tempos. Alexis pigarreou.
-Se eu pudesse… – murmurou para si mesmo, e soltou um suspiro longo. Virou o olhar para o lado, no lugar vazio da mesa. Ali sempre haviam dois lugares. Sempre, desde antes de Vladilena freqüentar sua casa…
-Se você pudesse, já teria feito?
Alexis ergueu o olhar para Erich. Sem responder, levantou-se e levou a xícara até a pia, enxaguando-a lentamente. Se eu pudesse, já teria matado todos que ajudaram a minha vida a se tornar esse inferno. Se pudesse. O que poderia fazer?

Erich encarou-o por um momento e levou a própria xícara vazia até a pia.
-Se tem vontade, deveria pensar em algum jeito…
-Conhece algum jeito?
-Eu nunca trabalhei com o que você trabalhou, Alexis.
Então deve ser por isso que não faz a menor idéia do quão difícil isso poderia ser. Segurou a própria língua, encarando-o. O único amigo que possuía.
-Sei que não. – respondeu, amuado.
Erich ficara por mais alguns minutos antes de retirar-se de volta a sua casa. Tem uma família, tem mais conhecidos com quem conversar. Não que estivesse inclinado a longas conversas. Alexis despediu-se taciturno, e tentara voltar a sua leitura após já ter sido tirado da cama e sentir-se incapaz de voltar a dormir. A tarde poderia ter passado tranqüila. Mas não demorara mais de algumas horas até que a campainha tocasse novamente.
E Alexis sabia quem estaria lá. E sabia que seu dia estaria arruinado.

_________________________

[1] Passagem de ‘Os Sofrimentos do Jovem Werther’, de Johann Wolfgang von Goethe. – Ich habe allerlei Bekanntschaft gemacht, Gesellschaft habe ich noch keine gefunden. Ich weiß nicht, was ich Anzügliches für die Menschen haben muß; es mögen mich ihrer so viele und hängen sich an mich, und da tut mir’s weh, wenn unser Weg nur eine kleine Strecke miteinander geht. Wenn du fragst, wie die Leute hier sind, muß ich dir sagen: wie überall! Es ist ein einförmiges Ding um das Menschengeschlecht. Die meisten verarbeiten den größten Teil der Zeit, um zu leben, und das bißchen, das ihnen von Freiheit übrig bleibt, ängstigt sie so, daß sie alle Mittel aufsuchen, um es los zu werden. O Bestimmung des Menschen!

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CAPÍTULO 18
OBSERVATION
 

“They were killers, he thought.

They were his best chance.”

Moscou, Rússia – Ano de 1950

  

Com ovos e café forte quebravam o jejum no restaurante do hotel, já quando o salão se encontrava praticamente vazio. Mesmo nas raras vezes que Damaran acordava cedo o suficiente para não ter de almoçar logo após sair da cama, Kyouya já estaria acordado havia horas. A ansiedade dificultava-lhe o sono, por mais que ele mesmo não compreendesse o motivo dela ainda estar lá. Imaginou que depois de boas semanas acompanhando o russo nos mais suspeitos lugares já teria se acostumado com tudo, mas não se passava um dia sem que ele descobrisse algo novo… ou alguém.

Damaran concentrava-se mais na comida, que já enchia seu prato pela terceira vez, do que em manter uma conversa. Os dois quase sempre partilhavam refeições silenciosas, o garoto por temer dizer algo estúpido, e o outro, aparentemente, por falta de interesse ou interesse maior na comida. Kyouya não sabia ao certo, mas era raro que Damaran iniciasse qualquer tipo de assunto. Eram coisas pequenas que acabavam por iniciar diálogos igualmente pequenos, e ele mais lhe dirigia a palavra quando queria ensinar-lhe algo ou quando Kyouya perguntava algo sem pensar, apenas por curiosidade. Pensou que fora o desconforto repentino que o incitara àquilo, naquele momento.
-Como foi que perdeu o olho?

O russo parou o garfo no ar e fitou-o longamente com o único olho castanho avermelhado que lhe sobrara. Kyouya encarou-o de volta, notando as feições cansadas e sombrias do outro que assim se mantinham mesmo quando ele sorria, havia reparado. O redor de seus olhos por debaixo da grossa sobrancelha cinzenta tinha um tom escuro e levemente arroxeado, de forma que quem não o conhecesse pudesse imaginar que passava noites e noites em claro. Ele franziu o cenho e soltou um suspiro longo, levando à boca um grande pedaço de salsicha com ovos.
-Que raio de conversa pra um café da manhã é essa? – perguntou ele, mastigando a comida, engolindo e novamente abocanhando o novo pedaço de ovo que trazia do garfo e cortando um naco de pão branco com os dentes.
-Eu… estava curioso.

-Longa história. – Kyouya concluiu que certamente não seria naquele momento que iria ouvi-la. Esforçou-se para procurar um novo tópico que pudesse ajudar a corrigir sua gafe, mas, para o seu alívio, foi interrompido por uma voz grave e aveludada em suas costas.
-Buon giorno, Damaran. Ti sei svegliato questa mattina presto. – riu a voz, depositando uma mão sobre o ombro de Kyouya.

O garoto virou-se, deparando-se com um homem ao menos uma cabeça mais alto que ele, mas aparentemente pouco mais baixo que o russo. Tinha o rosto alongado, de feições sérias e parcialmente coberto por uma franja espessa de cabelos castanho escuros e bagunçados que ele prendia na nuca com uma fita de veludo negro em um rabo-de-cavalo. Grossas sobrancelhas encimavam seus olhos dourados, ligeiramente apertados por seu largo sorriso. Vestia um terno marrom avermelhado, e levava no corpo uma variedade de jóias – de anéis em todos os dedos de ambas as mãos a brincos que cobriam completamente sua orelha esquerda e um broche decorado com pedras vermelhas em seu peito, ambos combinando com o relógio dourado em seu pulso. No entanto, mantinha o pescoço livre de qualquer ornamentação, com exceção de um fino lenço de seda amarrado ao redor da gola de sua camisa. Ele puxava uma cadeira da mesa ao lado para sentar-se do lado de Damaran, fazendo-o de uma forma mais leve que Kyouya imaginou que qualquer um daqueles homens poderia fazer, e cruzou as pernas apoiando as mãos entrelaçadas sobre um joelho.

-Bom dia, Andrea. – respondeu-lhe Damaran com um ligeiro sorriso, aparentemente também aliviado pela interrupção. – Ontem correu pro quarto mais rápido que de costume. – riu ele. Kyouya raramente o vira rir assim quando estava sóbrio.
-Alguns costumes nunca mudam. – riu o outro, com um sotaque forte e o largo sorriso estampado no rosto. Levou uma das mãos sobre o peito, fechando os olhos num suspiro dramático. – E que costume, é tão bom quando a noite é inesquecível assim. Mas você hoje possui uma companhia inesperada. O que é isso, comprou uma criança chinesa? Não sabia que a Zhao tinha entrado no tráfico infantil, muito menos que você teria interesse nisso.

Kyouya sentiu o sangue subir ao seu rosto, numa mistura de constrangimento e ofensa. Damaran, no entanto, começou a rir alto. Arregalando os olhos, Kyouya perguntava-se que estranho efeito que o homem dos anéis estaria causando no russo, que estendia a brincadeira. Ou ele poderia apenas ter arranjado uma maneira de se vingar por ter entrado no assunto de seu olho perdido.
-Como se algum dia eu fosse capaz de fazer uma coisa dessas. Acho que prefiro prostrar-me frente a um canhão antes de sair adotando adolescentes por aí.
O rosto do garoto estava mais vermelho que os tomates no prato.

-Pena. Seria interessante vê-lo lidar com crianças. – Andrea aproveitou a deixa para roubar uma das torradas de Kyouya, levando-a à boca. Sorriu, abanando a mão. – Sem ressentimentos, garoto. É apenas uma brincadeira, uma brincadeira. Não é todo dia que o Capo almoça com uma companhia que eu não conheço. Sinto-me traído.
-Desse jeito parece uma amante, pare com isso. É assustador. – ria o russo, levantando uma das sobrancelhas.
-É assim que se sente a meu respeito? Terei que quebrar seu coração, Capo. Não posso corresponder-lhe, não é de meu feitio. Melhor ficarmos apenas como amigos, ou terei de fugir de você.
-Amigos. – sorriu Damaran, rindo pelo nariz ao ver a expressão amedrontada no rosto de Kyouya. – E o garoto acreditou. Viu o que fez?
-Em minha defesa, digo que passo todas as noite com mulheres e tenho dezenas de testemunhas. E aí está, quando achei que ele não poderia parecer mais perturbado… – Andrea ria em voz alta e batia a mão sobre a perna, atraindo algumas atenções no salão. Ele estendeu a mão ao garoto. – Perdão, perdão. Acabei empolgando-me mais do que deveria. Andrea Cavalcanti, amigo e algo-como-um-secretário do Capo, Damaran, como quer que o esteja chamando. Venho da Sicília. E você, garoto, quem seria?

Kyouya encarou-o por alguns segundos, ligeiramente irritado por ter sido feito parcialmente motivo de chacota. Apertou a mão do italiano, mantendo o corpo reto, excessivamente formal devido ao nervosismo.
-Iwasaki. Kyouya… Iwasaki. Sou de Yokohama, no Japão… e tenho vinte e dois anos, não sou um garoto.
-Ma dai, vinte e dois. Esse aprendeu a mentir bem.
Damaran apenas ria.

-Não é mentira, não sou um garoto. – Kyouya apertava o cenho. Aparentemente, ninguém iria levá-lo a sério no primeiro contato, jamais. Andrea encarou-o por um tempo e passou os dedos pelo queixo, pensativo.
-Pensando bem, esses asiáticos parecem mesmo mais jovens do que realmente são. As mulheres tem um rostinho de criança, mas sabem bem o que fazem. – ele sorriu para Kyouya. – Mi dispiace, não era minha intenção ofendê-lo. Se está fazendo companhia ao Capo, deve ter sua importância?
Damaran respondeu-lhe com um encolher de ombros.
-Não. Só achei que um mudança de rotina seria interessante.

Kyouya fitou-o de boca aberta, incapaz de argumentar. Andrea voltava a rir.
-E como foi que se encontraram? Está longe de casa, rapaz. Posso chamá-lo de rapaz? É melhor que garoto, mas não sei dizer se já é um homem…
O garoto estufou o peito, com o rosto vermelho.
-Sou sobrinho do antigo chefe da família Inagawa, e irmão do novo. É a família que se tornará uma das maiores famílias Yakuza no meu país. Não sou uma mudança de rotina.
Andrea fitou-o por um momento e sorriu.
-Ahá. O rapaz sabe falar quando quer, muito bom. Então posso concluir que está num ambiente com o qual está acostumado?
-Algo do tipo…
-Mas mesmo assim pareceu perturbado ao saber de minhas “atividades”?
-Não estava perturbado…
-Não? Estava com inveja?
-Não!
-Você é virgem, garoto? Rapaz.

Kyouya calou-se. A expressão de Andrea foi de surpresa a pena, e ao riso, novamente. Fora Damaran quem respondeu em seu lugar.
-Manda em alguma coisa dentro da sua família? – perguntou ele, em tom severo. Kyouya sentia sua coragem esvair-se.
-Não… mas… não sou só um garoto…
-E eu não sou de família proeminente nenhuma, mas você sabe bem o que eu conquistei e o que tenho. Orgulhe-se do que conseguiu por si mesmo, não do que seus parentes fizeram ou deixaram de fazer. – Damaran serviu-se de café e bebeu o conteúdo da xícara em apenas um gole. Kyouya sentia-se, agora, mais constrangido do que irritado. Andrea interferiu.

-Vamos, Capo, não precisa tratar o garoto tão duramente. Era só uma brincadeira. Ele parece estar se esforçando se viajou meio mundo até nós, não é, rapaz? – sorriu ele, colocando a mão sobre o ombro de Kyouya. O garoto sabia que seu rosto ficava vermelho.
-Não fui duro. Apenas disse a verdade. – Damaran rasgava um pão com os dentes. – Se ele veio até aqui sozinho, é porque não está contando com a família.
Exatamente. Kyouya sentia-se envergonhado pelo fato de não ter pensado nisso antes do russo, quando colocou os pés no primeiro navio que o levava até lá. Mantendo a mão sobre seu ombro, Andrea parecia ter notado seu constrangimento.
-Vamos, rapaz, o Capo não te deu bronca. Na verdade, é um bom conselho, sabe? – ele deu-lhe um leve tapinha nas costas. – Sempre é melhor conseguir as coisas com o seu esforço. E Damaran é muito bom em ajudar nisso. Vai conseguir. Te vejo hoje a noite, Capo. – E com um aceno, o italiano afastou-se, mantendo a outra mão no bolso. Kyouya manteve-se em silêncio, e fitou o russo.
-Eu… não lembro de tê-lo visto em nenhum dos encontros.

Damaran sorriu de leve, e soltou um riso baixo. Passou a mão pelo rosto e retomou a compostura, em tom menos severo.
-Depois de menos de uma hora de festa, ele sempre vai direto para o quarto com uma mulher. Ou mais de uma. Depende do dia.
-É um colega de negócios?
-Um amigo. – respondeu Damaran. – A única pessoa em quem eu confio. Pode aprender com ele.

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Algumas novidades!

Oi, pessoal! 

Faz tempo que o blog não ganha uma atualização, né? É culpa minha mesmo, mal vi os meses passarem e acabei me ocupando com outras coisas, além de ter dado uma travadinha no capítulo seguinte por vários motivos… que incluem a criação de váaaarios capítulos que devem vir só bem mais pra frente, assim como pequenas histórias extras que não necessariamente vão se encaixar no plot principal. ><‘ Pois é, acabei renegando a linearidade da história (que já não é escrita linearmente XD) pra epifanias e inspirações repentinas que me vieram, mas tenho que dizer que vai ser pro melhor. :3 

E foi exatamente por causa desses textos… que resolvi abrir um novo blog, o GR-Vergangenheit! O nome vem da palavra ‘passado’ em alemão e é bem auto-explicativo: ele vai consistir de histórias passadas, beeem passadas de cada personagem, além de cenas que não entram na história principal e até mesmo textos que focam mais em personagens secundários que temi não poder retratar como eles, na minha cabeça, mereciam. ;3;’ Acho que isso vai deixar a publicação mais frequente e me deixar mais animada pelo fato desses textos ficarem só no meu computador forever and ever. 😄  

Ando meio parada, mas quero muito dar um pontapé pro projeto de GR ir pra frente um pouco mais rápido. O último ano de faculdade vai dificultar grandes avanços, mas quero me esforçar, pelo menos, em nome do apego crescente pelos personagens. Quem sabe o que pode surgir até o final do ano? :3

 

Muito obrigada de coração a quem acessa o blog e até a próxima!

~Anna

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Começando!

Olá! ^^/

Bem-vindos ao Gunpowder Requiem!

Criei esse blog para poder hospedar os capítulos e informações de um roteiro original meu, de mesmo nome do blog. Os personagens desta história cresceram cada vez mais em mim, e, em vez de postar sobre eles apenas em fóruns de BJDs (Ball-Jointed-Doll, bonecos customizáveis nos quais encarno os personagens de GR), resolvi fazer um espacinho especial pra eles, não só com os capítulos em si, mas também com fotos, ilustrações, entre outras coisas. ^^

Essa que vos escreve pode ser conhecida como Abel (em fóruns de BJD), ou Anna. Sou estudante de História da Arte na universidade de Brown nos Estados Unidos, com cursos extras de história alemã do século XX e línguas. Nasci e cresci no Brasil, onde minha família e vários amigos ainda estão, e só venho pros EUA a estudo. Sou completamente fascinada em BJDs e outras bonecas, desenho, fotografia, história, línguas e brinquedos, e viciada em chocolate e comida japonesa. Também gosto muito de livros, música, mangás e HQs, e viagens.

Gunpowder Requiem é um roteiro que criei, inicialmente, em cima de certos moldes de BJD. Aos poucos, os personagens foram tomando vida e se desenvolvendo sozinhos, antes ou depois de conseguí-los em forma de resina… e agora, tenho grande carinho por eles e por esta história. Não é nada absurdamente sofisticado, mas tem um apelo emocional pra mim. 😛

A história de Gunpowder se passa na Europa de 1950, logo após a Segunda Guerra Mundial. Os personagens principais são figuras que, ao mesmo tempo que são diferentes, também possuem características em comum, e cada um deles se tornou um desafio pra que eu pudesse desenvolvê-los do melhor jeito que eu fosse capaz. Damaran é um ex-general do exército soviético, que entrou para a máfia logo após o final da guerra, pouco tempo depois de perder o olho direito; Alexis é um ex-oficial nazista que precisa retomar sua vida, ao mesmo tempo em que precisa fazer de tudo para não ser pego a julgamento; Vladilena é uma bailarina russa que acaba se envolvendo com Damaran e Alexis, e possui uma moral curiosa; e, finalmente, Kyouya é um garoto vindo de uma família de Yakuzas com um objetivo obscuro que o leva a encontrar tais figuras. Ao mesmo tempo que os personagens são fictícios, procuro ao máximo me prender aos fatos históricos… mas como não tenho acesso a todos os fatos, por mais que eu evite, peço desculpas por qualquer erro histórico (principalmente com relação às máfias, cuja informação é muito limitada). ^^

Bom… essa foi a introdução pro blog. Espero que gostem e muito obrigada pela visita!

Anna G.

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