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Archive for the ‘Capítulos’ Category

CAPÍTULO 17 – FAMILY

CAPÍTULO 17
FAMILY
 

“When he saw that small figure,

he knew that those rounded eyes didn’t belong there.”

Yokohama, Japão – Ano de 1942

  

A inquietação na capital não demorou a chegar em seus ouvidos, graças a empregados curiosos que trocavam cochichos pelos corredores da mansão. Um dia, Kyouya havia dormido até mais tarde que o normal e fora acordado pelas vozes de duas das empregadas que, aparentemente, não haviam reparado que o pequeno patrão ainda não havia deixado seus lençóis. Ficou deitado em seu colchão, aproximando a cabeça da porta de correr de madeira e papel, escondido pela escuridão e em silêncio, para ouvir melhor o que era conversado.
-Foi terrível, lhe digo. Ouvi dizer que o fogo espalhou-se tão rápido…
-Quando foi que entramos nessa confusão toda?
-Não gosto de cidades, nunca gostei. Todas aquelas casas juntas, só uma faísquinha… um fogo, e lá se vai um bairro inteiro.
-A cidade não é longe daqui. Acha que podem nos atacar? Mesmo quase dentro da floresta…?
-Boba, porque iriam atacar esse lugar no meio do mato? É uma guerra, dizem, vão se importar mais com os lugares grandes e com muita gente…
-Nunca mais reclamo de ter que vir até aqui para trabalhar, ao menos deve ser mais seguro. Acha que poderíamos pedir para trazer as crianças?

Guerra? Ele não sabia exatamente o que se passava, ninguém havia lhe dito palavra. Ouvia sobre uma tal guerra, sobre batalhas, aviões, bombas. Sobre soldados do outro lado do mundo, coisas até assustadoras, mas sabia como fofocas de mulheres poderiam ser traiçoeiras. Sua vizinhança sempre fora pacífica, nada acontecia, chegava a ser entediante. A mansão abria seus fundos para a floresta, e tinha que andar uma boa distancia até encontrar alma viva. A maior ameaça que eu poderia temer aqui é meu próprio irmão. Havia se mantido o mais afastado que conseguia desde o dia que o havia visto sobre o corpo mutilado do tio, sorrindo daquela maneira que o havia assombrado por dias, acordado ou em seus sonhos. Tinha medo, medo por si mesmo e pela irmã, quem sentia-se incapaz de proteger. E esse sentimento de inépcia vinha se tornando mais forte a cada dia, chegando a angustiá-lo. Saía de casa menos freqüentemente o possível, tentava manter um olho atento em Manami, sabendo que era o máximo que poderia fazer caso qualquer idéia de fazer-lhe mal subisse à cabeça do irmão.

Por causa disso, não fazia mais a menor idéia do que o irmão poderia estar planejando ou fazendo. Teruo passava cada vez mais tempo fora de casa, e ele, dentro. Kyouya havia ouvido sobre o negócio no qual parte de sua família, o ramo principal, estava envolvida, por menos que soubesse sobre tudo isso. Sabia, no entanto, que era algo perigoso… e que não era difícil de imaginar que o irmão poderia facilmente se envolver com tal. Era esse ramo que seu tio controlava, e agora ele estava morto. Morto por Teruo, meu próprio irmão, por um motivo que Kyouya não conseguia entender por mais que pensasse naquilo. Poder, era a única explicação que poderia imaginar. Desde quando ele estava tão interessado assim em poder? Teruo nunca havia se entendido bem com o ramo principal da família, mas mesmo assim, viviam com um conforto muito acima da maioria das pessoas. Serei eu o único satisfeito com tudo isso?

Mas não era. Na verdade, nem ele estava totalmente satisfeito… mas seus motivos eram outros, e ele não podia reclamar de todo o aconchego no qual vivia. Temia o irmão, sim… mas era uma vida na qual nada lhe faltava.
… Ou talvez, apenas uma coisa.

Levantou-se da cama e ajeitou as vestes, saindo pelo lado da varanda. De pés descalços, caminhou pelo chão de madeira procurando fazer o mínimo de barulho possível. Era leve, portanto não era algo tão difícil; mas há tempos que havia percebido o quão sonora poderia ser sua própria respiração. A passos longos, esgueirou-se até o último quarto que dava para o jardim dos fundos e abriu a porta com cuidado, sentindo-a deslizar lentamente, madeira roçando em madeira.
E lá estava ela, deitada de bruços sobre o colchão, seu pequeno corpo coberto apenas por uma veste de seda branca. Em suas mãos mantinha um pequeno livro de páginas amareladas, cujas letras seus olhos seguiam lentamente, até ela notar a presença do garoto e levantar a cabeça para ele. Sorriu.
-Achei que ia dormir o dia todo. – ela puxou a coberta sobre as costas, levantando o corpo e sentando de frente para ele. – Ia começar a hibernar antes mesmo do inverno chegar de uma vez?
-Não dormi até tão tarde. Estava acordado, mas não quis sair da cama.
-Sei… ficou admirando a madeira do telhado? Com os olhos fechados? – riu ela, ajeitando com os dedos uma fina mexa de cabelo para trás da orelha. Ele não tinha palavras para descrever o quanto gostava de ver aquele sorriso em seu rosto, por mais que o visse todos os dias. Ela sempre conseguia sorrir na pior das situações, e por vezes ele havia imaginado se ela não se forçava a isso para confortá-lo. E esse era um tipo de força que Kyouya desejava ter para poder retribuir a ela.

-É verdade, estava acordado. – disse, apertando o cenho.
-Eu sei, bobo. Estava brincando com você. – ela riu e colocou a mão sobre seus cabelos, bagunçando-os e jogando-os pro rosto. Kyouya apertou os olhos e abaixou a cabeça.
-Fiquei ouvindo as empregadas conversando. Sobre a guerra.
O sorriso de Manami se esvaiu.
-Também ouvi. Não gosto das fofocas. – suspirou ela, puxando a gola da veste. – Está com medo?
-Não sei. É difícil ter medo de fofocas sobre algo que não conseguimos ver.
-E tem medo de chegar a ver, um dia?
Kyouya não respondeu por um momento.
-Não. Se a guerra chegar aqui, podemos ter alguma chance.

Manami respondeu-lhe com uma piscadela. Ela sabia muito bem ao que ele se referia, por mais que nenhum dos dois ousasse dizê-lo em voz alta. Teruo. O irmão ficava cada vez mais obcecado pelos negócios do tio, pelo poder, por ocupar o lugar que ele mesmo havia vagueado em segredo. O tio estava morto. Como herdeira tinha apenas uma filha, agora adolescente. Teruo era o homem mais velho da família em condições de liderar, e era o que ele pretendia fazer. Por mais que alguns homens ainda apoiassem a garota, – corriam rumores dela ser mais habilidosa e astuta do que muitos lideres da família já haviam sido – uma mulher, sozinha, dificilmente ganharia o posto. Kyouya a havia conhecido na única vez que se encontraram. Não conseguia lembrar-se bem de seu rosto, mas lembrava-se dos longos cabelos negros que chegavam-lhe ao quadril. Talvez ela tivesse se tornado bastante bonita. Em vez dessa guerra constante com a família, Teruo poderia apenas tentar ganhar sua mão… mas eram primos, e Teruo aparentemente não possuía qualquer desejo de dividir a liderança com uma mulher de caráter forte o suficiente para reunir o apoio de parte da família.

-Gostaria de ajudá-la. – suspirou ele, falando consigo mesmo.
-Como?
Percebendo que havia se perdido em pensamentos, Kyouya voltou a encarar Manami, e sorriu-lhe.
-Nada… não é nada. – Ele não queria que ela se envolvesse demais nisso tudo, e o que mais desejava era poder tirá-la dali o mais rápido possível. Manami era sua irmãzinha. Não. Era mais do que uma irmã. Ele já sabia há tempos que não eram irmãos de verdade, uma das melhores descobertas que já havia feito, e sentiu-se tão aliviado quando soube… aliviado de não precisar refrear seus próprios sentimentos, aliviado por saber que o que sentia não era errado. Aliviado por saber que, um dia, poderia ser correspondido sem medo, sem nada para ameaçá-los. Ele era apaixonado por ela desde os primeiros anos que ela passou na casa, e ele sabia que ela também sentia algo por ele.
Ela novamente respondeu-lhe com um sorriso, delicado, leve, um sorriso tranqüilizador. No entanto, acabou não surtindo efeito sobre ele, por culpa de apenas um pensamento que vinha atormentá-lo.

Teruo também sabe. Teruo também a deseja.

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CAPÍTULO 16
SCHUSS INS SCHWARZE 

“His wish for power was infinite,

and his reasons were his strenght.”

Białystok, Polônia – Verão de 1941

  

Aquela fora a primeira noite que ele conseguira dormir satisfatoriamente. Alexis demorava a acostumar-se com lugares novos, ainda mais considerando o asco que sentia pelas pessoas que sabia terem ocupado aquela casa até então. Mas tomou as medidas necessárias para deixar o lugar suficientemente limpo para o curto período de tempo que teria de passar lá. Os quartos foram limpos, os banheiros desinfetados e toda a roupa de cama havia sido trocada. Da comida, não sobrava muita dos antigos inquilinos; tudo havia sido alterado para melhor se adaptar ao conforto do oficial. Um motorista e um carro haviam sido colocados ao seu dispor sob seu requerimento, e alguns soldados ainda o acompanhavam no dia-a-dia para sua necessidades – o que não eram muitas. Durante seu tempo livre, não precisava de mais do que um bom livro e água quente para banhar-se. A limpeza pessoal e o exercício intelectual eram as coisas que ele mais apreciava para si mesmo, além do reconhecimento. Detestava sentir-se sujo, e não havia nada que odiasse mais do que ignorância. Desprezava pessoas que se limitavam à mediocridade, que se prendiam a futilidades desnecessárias, que se satisfaziam com respostas prontas sem sequer refletirem um mísero segundo sobre o sentido que aquilo fazia… ou não. Deviam buscar o crescimento pessoal, acreditava ele. Não acomodar-se debaixo de ordens, de dogmas, de ‘porque é assim’ e ‘porque alguém quis’. Havia aprendido que muitas pessoas preferiam viver abaixo de outros, seguindo ordens sem questionar, a se dar ao trabalho de decidir por si mesmas. Precisavam de alguém dizendo o que deviam ou não fazer, o que é certo ou errado, pois pensar por si mesmo aparentemente era demasiado trabalhoso. E isso o irritava. A falta de iniciativa o aborrecia, a complacência com respostas fáceis o enfurecia.

Não havia nascido em uma família abastada. Possuíam a mesa sempre servida, mas nunca foram capazes de dar-se a luxos. Alguns dias, a sopa do jantar era mais rala ou o café da manhã, apenas pão; não havia se acostumado a receber presentes grandiosos em seu aniversário, mas sim passá-los com um bolo feito pela mãe e alguma pequena lembrança de família dada pelo pai. Aprendeu a tocar piano e violino com o avô, depois com o pai, sempre usando instrumentos antigos da família e, quando podiam, pagavam um professor vez ou outra. No entanto, treinava sozinho na maior parte do tempo, acompanhado de sua força de vontade e de sua paixão pela música. Ele e a irmã sempre tiveram de dividir um quarto até ele ser capaz de mudar-se para a universidade que freqüentou, onde pode receber uma educação de qualidade e economizar graças ao seu próprio esforço em manter uma bolsa de estudos pelo seu ótimo desempenho. Havia se formado com sucesso em história, outro de seus maiores interesses, e queria seguir a carreira, por, na época, nada agradá-lo mais do que o reconhecimento de sua inteligência; mas o falecimento precoce do pai e a conseqüente despesa por causa da saúde da mãe o obrigaram a empregar-se o mais rápido que conseguira. Fora assim que havia entrado para o partido, para o exército, para aquilo.

Subir não havia sido difícil. Nunca fora um homem que se contentava em ficar em seu lugar. A disposição para melhorar e a ambição já estavam há muito instaladas em seu caráter, e ele não poupava esforços para tal. Faria o que fosse necessário, fosse arriscar a vida ou até… matar. Havia aprendido o grande prazer que muitos viam nisso. O reconhecimento colocava-o acima. O domínio fazia o mesmo, mas também colocava outros para baixo. Era um prazer momentâneo, mas havia se acostumado com a idéia de apreciá-lo, ainda mais que, de certa forma… era uma desculpa para livrar-se pessoalmente daqueles que considerava detestáveis.

No entanto, não estava ainda preparado para morrer. Não por covardia; mas ainda havia uma pessoa, uma única pessoa que lhe importava, que ainda precisava dele. E ele não estava disposto a abandoná-la assim. Iria arriscar-se, sim. Mas iria prender-se à vida com garras e dentes, não importava que tipo de situação desesperadora fosse colocado. Não importava que guerra teria de lutar.

A pequena reunião de oficiais que havia se passado alguns dias antes e para a qual havia sido convocado e levado até aquele lugar tinha o objetivo de informar os soldados sobre os russos com quem dividiam o território, e prepará-los para a entrada na Bielorússia e o avanço a Moscou. [1] O exército do Centro iria comandar o ataque sob comando do Marechal Von Bock [2], e o Wehrmacht se encarregaria de continuar o avanço. Será essa a minha chance de mostrar do que sou feito, pensava Alexis. Ainda mais considerando o que havia ouvido por aí. Os rumores de um novo coronel ainda mais jovem que ele, discreto, de poucas palavras mas com um histórico de vitórias, o incomodavam. Orgulhava-se de ter um posto alto antes dos trinta, e não queria um eslavo qualquer roubando-lhe os louros. Ele lutar pelo outro lado é uma vantagem, dizia a si mesmo. Não preciso de uma desculpa para matá-lo com minhas próprias mãos.

Von Bock era um homem alto e magro, já em seus sessenta anos. Possuía os finos lábios típicos da raça, e a feição severa, com o cenho levemente apertado sobre os olhos claros. Era alguém com quem Alexis sentia-se capaz de simpatizar. Apesar de ligeiramente arrogante e não particularmente brilhante, era um homem com determinação e seriedade. Não se dava a reações exageradas ou eloqüências como alguns outros; assim como Alexis, seu senso de humor era seco e ele limitava-se a apenas sorrir. Estava, de certa forma, aliviado em poder trabalhar com ele e estar longe dos bufões do partido. Havia tido uma oportunidade de falar-lhe a sós antes do desjejum, e, apesar da conversa ter sido rápida, havia lhe deixado com algo sobre o qual ponderar por algum tempo.
-Você é conhecido do nosso Reichsführer, não é? – havia perguntado o Marechal, logo após as introduções. – Além de dentro da hierarquia, digo.
-… Sim. – respondeu Alexis, um pouco surpreso por ele saber sobre isso. – Desde quando era mais novo… – o homem era apenas 15 anos mais velho do que ele, e haviam tido algum contato desde que Alexis era apenas um garoto, e ele, um estudante em Munique. O pai daquele que eles agora chamavam de Reichsführer, o senhor Gebhard Himmler, havia trabalhado na universidade, e esse contato sempre havia influenciado Alexis em todo o seu interesse acadêmico.
-Você é da Bavária?
-Não, senhor. Nasci em Frankfurt. – disse Alexis, respeitosamente. – Mas tive a oportunidade de visitar o lugar algumas vezes.
-Bom. Sei que a universidade por lá é muito boa. – ele abriu um sorriso leve na expressão severa. – Partilha a opinião dele? Sobre eles, quero dizer.

Alexis ficou em silêncio por um momento.
-Imagino que todos partilhemos, senhor.
O homem fitou-o.
-Apenas por compartilhar, ou possui seu próprio motivo…?
Ah, isso. Alexis sabia que havia quem tivesse apoiado a causa apenas por ver vantagens, e não por odiar aqueles povos propriamente ditos. Mas ele não era de aceitar opiniões alheias dessa maneira.
-São arrogantes. – começou ele. – Chamam-se de povo escolhido, mas para quem não acredita em tais bobagens, são apenas sem-terra incapazes com um ego maior do que podem carregar.
-Alguns dizem que eles sofrem por terem descumprido sua ‘missão’. – sorriu o Marechal, cinicamente.
-Sofrem pois nem todo mundo tem paciência para agüentar arrogância não justificada por tempo demais. – E quem acha justificado, parece acreditar que devem sofrer de qualquer forma.
-E quanto aos outros? O que acha deles?
-Se aproveitam de nossos bens sem pagar nada. Enquanto alemães pagam impostos, eles andam em nossas ruas, bebem da nossa água, ocupam nossas cidades e sujam nossas praças. Não contribuem e ainda têm a audácia de roubar. Incomodam, invadem nosso país e não se dão ao menor trabalho de mostrar gratidão… não fazem nada além de perturbar.
Mas isso vale também para os párias que infelizmente já faziam parte daqui, mas matá-los ainda é ilegal. Um passo de cada vez. O Marechal pareceu ponderar por alguns segundos antes da próxima pergunta. Passo a mão pelo queixo e olhou Alexis nos olhos.

-E nós, Alexis? O que acha do ‘nosso’ povo escolhido?
Por um momento, Alexis fitou-o sem dar resposta. Aquilo já havia lhe passado pela cabeça, claro. Mas nunca gostara de chamar a si mesmo de ‘escolhido’. Ninguém o havia escolhido para nada, ninguém havia traçado seu caminho, ninguém. Ele decidia por si mesmo, ele fazia o que achava melhor, ele escolhia seu próprio destino. Ele sabia a responsabilidade que tinha por suas ações e não ia, jamais, tentar aliviá-la colocando a culpa em mais ninguém. Homem ou o que quer que fosse. Isso era para fracos, isso era para pessoas sem coragem de tomar suas próprias decisões e arcar com as conseqüências. Sou soberano sobre mim mesmo e não há quem meta dedo em meu caminho.

-… Não fomos escolhidos por ninguém, senhor. Nós mesmo tomamos a iniciativa. Fomos escolhidos por nós mesmos para lutar por nossa própria causa, e pela de ninguém mais. Ganhando ou perdendo, vai ser por nosso próprio mérito e o de mais ninguém.
O mais velho sorriu novamente.
-A nossa própria causa dos homens, Reinhardt?
-Não há nenhuma outra além da dos homens, senhor.
A resposta parecia tê-lo satisfeito. Alexis sempre preferira prezar pela sinceridade, não era um homem de mentiras e lisonjas. E isso agradava a quem lhe era importante. Quem precisava de bajulações baratas e sorrisos falsos não recebia seu respeito, apenas a cortesia padrão com a qual se trata um superior.
Aquele fora, no entanto, o fim da conversa. Alexis estranhou não receber perguntar do porquê de estarem espalhando a sua faxina para fora, até, do território que era a antiga grande Prússia menos de um século antes. A Rússia, por exemplo, era apenas uma ambição de conquista… e agora, para Alexis, a oportunidade de encontrar um rival.

Além das obrigações como militar, ocupava-se também com rápidas visitas aos locais onde mantinham os indesejáveis. O país não lhe despertava curiosidade para sair em passeios turísticos, e muito menos seria completamente seguro. Por mais dominados que estivessem, os habitantes ainda resistiam. Alguns, e apenas uma minoria, sim. Mas resistiam, aparentemente sem medo de parar num gueto ou sem a menor noção do que lhes aconteceria se, por acaso, ferissem – ou matassem – um oficial. Alexis, algumas vezes, pensava que preferia quando eles realmente lutavam. Significava que não se satisfaziam com a condição de oprimidos, que juntariam forças para conseguir o que queriam. E esse momento seria o momento de ver quem era mais forte.

Os guetos espalhavam-se por todo o país, assim como os campos de trabalho ou extermínio. Ele havia visitado alguns no caminho, trocado algumas palavras com os que ali trabalhavam, visto como as coisas estavam por ali. Em geral, não havia grandes diferenças com os quais já havia visto, e apenas ajudava no ‘serviço’ quando precisava aliviar algum tipo de tensão ou quando a vontade lhe vinha. No entanto, havia já algum tempo que resolvera reservar seu ócio vespertino para apreciar a própria companhia com um livro sobre a cama, prevendo os dias duros e sem conforto que se seguiriam à sua entrada na Rússia. Seus olhos corriam pelas letras, sentenças e linhas, pelas páginas e capítulos. Lia sobre a fraca luz da pequena lâmpada de cabeceira, após assegurar-se de tomar um banho e limpar os dentes antes de deitar-se, e, alguns minutos depois, caíra no sono sobre os lençóis recém lavados e o travesseiro afofado. Sonhara com uma distorcida batalha de terra, fumaça e aço. Sonhara com soldados correndo, atirando, morrendo. Com homens que reuniam seu último pingo de coragem para lutar pelo seu pais.

Pela nossa causa, e pela de ninguém mais.

_________________________

[1] A batalha refere-se à batalha de Białystok, operação estratégica militar alemã do grupo Centro durante a penetração da fronteira soviética na abertura da Operação Barbarossa, que durou de 22 de Junho a 3 de Julho de 1941. O objetivo de cercar as forças do exército vermelho em Minsk foi cumprido, e todas as tentativas soviéticas de contra-ataque, falhas. O Wehmacht foi então capaz de capturar uma grande quantidade de prisioneiros de guerra e avançar para dentro da Rússia de forma que quase era crível que os alemães sairiam vencedores da guerra.

[2] Fedor von Bock (3 de Dezembro de 1880 – 4 de Maio de 1945) foi um Marechal do exército alemão, que doutrinava os soldados para ‘morrer pela patria’. Foi apelidado ‘Der Sterber’ (‘aquele que morre’) e é conhecido pela operação Tufão, uma tentative falha de tomar Moscou no inverno de 1941.

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CAPÍTULO 15
RISE 

“One step at a time

leads a man to his simplest ambitions.”

Moscou, Rússia – Ano de 1941

  

Tudo naquela cidade era novo para ele. Ainda mais os bares. Ele queria aproveitar aquele pequeno momento de calmaria que lhe fora concedido, e sentiu que poderia, enfim, andar pela cidade e beber até sentir-se alto. Pela primeira vez havia sido colocado em um quarto de hotel decente, e não nos rústicos acampamentos militares nos quais ele havia dormido desde a mais tenra idade; o relativo sucesso na mais recente batalha e em outras campanhas pequenas permitiram a ele um posto de Tenente-Coronel. Naquela noite, após voltar de um almoço de oficiais durante o qual não pronunciara mais que meia dúzia de palavras, resolveu que vagaria pela cidade grande e procuraria um lugar agradável para embebedar-se. E foi assim que encontrara aquele recinto; um bar pequeno, espremido entre prédios de comércio, rústico e escuro, construído em madeira velha com o nome pintado numa tábua em tinta desgastada. O degrau na entrada rangeu sob suas botas e a porta soltou um silvo pelas dobradiças quando ele a abriu. Dentro, uma única lâmpada funcionava eficientemente, acima do balcão, e algumas que piscavam fracamente ajudavam a iluminar os cantos mais distantes. Os móveis de madeira era velhos marcados com queimaduras de cigarro, cortes de canivetes e com a umidade dos milhares de copos que nelas já haviam sentado, e apenas três homens davam a graça de sua presença àquele horário. Uma dupla sentava-se ao redor de uma mesa dividindo uma garrafa já quase vazia, e conversavam em voz baixo. No balcão, um homem mal-vestido debruçava-se sobre um copo vazio que apertava entre os dedos. Já estava obviamente bêbado havia muitas doses, mas resistia bravamente ao peso de seu próprio corpo e recusava-se a cair sob efeito do álcool.

Damaran sentou-se na outra ponta do balcão, lançando ao bêbado apenas um olhar de soslaio. Gesticulou para o barman, que ocupava-se em secar os copos e guardá-los dos armários, e logo foi servido de um copo de vodka. Vodka do povo, forte, nada refinada, vagabunda. Mas exatamente do tipo que ele gostava. Nunca foi muito dado à frescuras quando o assunto era comer e beber. O primeiro gole desceu aquecendo-o e os outros mantiveram sua garganta quente, e ao parar para suspirar percebeu que o homem do balcão o estava observando. Desviou os olhos rapidamente e empurrou o copo vazio para o barman, mas já era tarde. O homem sorria para ele por trás do emaranhado acinzentado que era a barba que lhe cobria o rosto, e aproximava-se arrastando as sujas mangas do velho casaco surrado que trajava pelo balcão. O odor de álcool chegou ao nariz do militar junto do de suor e imundice, mas não era isso que o incomodava. Era o desconhecido que vinha fazer contato que, a Damaran, parecia ainda menos que desnecessário.

-Ei. Senhor, o senhor. Gosta de boa vodka, eh? Eu vi o que pediu, é das boas.
Não é, não. Só gosto delas assim. Ele já havia experimentado a ‘boa vodka’, e não achou grande coisa. Damaran tentou fingir que não havia percebido que o velho lhe falava, mas o bar vazio não o ajudava em nada.
-O senhor é jovem, não é? – ele soltou um riso alto, com uma baforada malcheirosa de álcool pela boca. – Tudo bem, comecei a lhe chamar de senhor, vou continuar. Vê, sou um homem educado. Respeitoso. Quantos anos tem?
O soldado evitou responder durante algum tempo, mas viu que a longa pausa não faria com que o bêbado desistisse de incomodá-lo.
-Vinte e quatro… – respondeu, sem olhar para o homem.
-Ora, mas é quase uma criança! – Damaran olhou-o com o cenho apertado. – Não, não quero lhe faltar com respeito. Senhor. De maneira alguma, vejo que já é um homem feito apesar da pouca idade! Trabalha para o governo, senhor? Vejo que está, digamos assim, ricamente limpo. É um fidalgo de Stálin?

Damaran não sabia exatamente o que responder a isso. Também não sabia exatamente o que a palavra ‘fidalgo’ significava. Mas de alguma forma o homem lhe soava insolente. E não estava nem perto de ‘ricamente limpo’. Sabia que cheirava a cidade e a suor, apesar de não chegar nem perto do odor do velho.
-Sou… um soldado. – disse em voz baixa, curta e friamente. Passou os dedos pela borda do copo, voltando a desviar o olhar. O homem abriu-lhe um sorriso.
-Um soldado! Oh, sim, eu era um oficial, sabe. Fui um homem que recebeu boa educação. Ah, aqueles tempos, os tempos do Czar. Pouco antes de você nascer, se tem pouco mais de vinte. Eu era jovem, mas acreditava que iria subir na vida. Consegui um bom emprego, por algum tempo, me lembro bem… – ele gesticulou por mais um copo de vodka para o barman, que o serviu resmungando. A cada palavra, O homem aproximava o rosto do de Damaran conforme criava intimidade, e se afastava rapidamente, rindo em rosnados. – Conheci minha senhora naqueles tempos. Era de uma família boa. Coisinha maravilhosa, ela era. Pena que nosso romance durou pouco. Os tempos mudaram, e agora os jovens estão diferentes… ainda me lembro dela, sinto falta dela, como sinto.

Damaran limitou-se a concordar com a cabeça, ouvindo-o. O militar sentia-se incrivelmente impotente perante àquele estranho discurso. Queria que ele parasse, mas não sabia como pedir isso. E, aos poucos, mais pessoas adentravam o bar conforme a noite caía, aumentando o ruído ao redor dos dois e, conseqüentemente, fazendo com que o velho elevasse a voz. O rosto de Damaran tornava-se cada vez mais vermelho à medida que ele continuava a tagarelar sobre a ex-esposa, sobre uma possível vida de luxo, sobre a universidade que dizia ter freqüentado, enquanto o mais jovem apenas mantinha-se em silêncio.

-Diga-me, tem uma senhora? Uma senhorita, no seu caso? Deve ter, não é possível que nunca tenha ido para a cama com esse porte todo! – riu ele, de forma escandalosa. Os rostos virando-se em sua direção deixavam Damaran profundamente constrangido. – Prefere que tipo? Jovens? Mais experientes? Para uma relação longa, ou…?
-Eu… – gaguejou Damaran, encarando o bêbado com os olhos escancarados. Cada pergunta daquelas fazia-o pedir mais um copo de bebida. Já tinha dormido com uma, duas, três e muitas mais mulheres, garotas, prostitutas, todos os tipos, até… Mas nunca havia anunciado para estranhos da maneira que ele parecia querer que fizesse.
-Esse velho louco pega uma vítima diferente a cada dia! – berrou um dos homens na mesa que havia escutado a conversa desde o início, com a paciência claramente esgotada. – Não precisa ligar pra ele, rapaz. A maioria apenas o ignora. É inofensivo.

Rapaz? Por um momento, Damaran sentiu-se de volta ao seu tempo de garoto no meio dos oficiais. Mas, agora, era um desses oficiais. Não que o homem precisasse saber; mas pensar que não era só um ‘rapaz’ fazia-lhe bem.
-Eles me ignoram! – choramingou o bêbado, levantando as mãos sobre a cabeça. – Vê, meu bom amigo? O mundo está cheio de pessoas cruéis! Mas você, eu sei, você é um bom homem, tenho certeza. Que acha de dividirmos uma garrafa? Sei que gostaria, vi o que bebeu. Tem bom gosto…
-E lá vai ele! – soltou o outro homem na mesa, com uma gargalhada de escárnio. Mais homens ao redor riram com ele. – Vê o que ele faz? Vai sair daqui com uns bons rublos a menos na carteira, rapaz, se continuar a ouvir o tolo.
Damaran abriu a boca e lembrou-se que, provavelmente, não poderia tratar aqueles homens como tratava os de seu batalhão. E percebeu pela centésima vez como tinha pouco jeito para tratar com pessoas de fora do exército. Costumava trocar palavras com soldados, com superiores, e com mulheres que serviam para satisfazê-los. Mas nunca com muito tato. O velho apenas usou o seu silêncio para pedir a garrafa de vodka, e apontar o dedo para a mesa dos dois.

-Vocês invejam dois bons homens educados conversando! Ah, Deus, a ignorância do populacho! A falta de respeito!
-Cuidado com a língua, velho. O cão sarnento da vaca gorda da minha senhoria é mais educado que você! – riu o homem, batendo o copo na mesa. – Ei, soldado, prepare-se! Essa garrafa vai sair do seu bolso!
-Veja como ele fala! Não o escute, meu bom senhor. Veja, aqui, beba. Beba pelo seu sucesso, eu irei pagar por esta!
-Não tem um tostão nos bolsos, seu velho senil.
-Como sabe disso se não vê dentro de meus bolsos, homem?
-A vizinhança toda sabe. É mais famoso do que imagina, oficial!
O bar explodiu em risos. Aqueles que já riam, passaram a rir em voz alta, e aqueles que apenas escutavam desinteressados acompanharam em coro. Damaran começava a sentir-se ainda mais desconfortável, mas não sabia dizer se era por estar naquela situação ou se apiedava-se pelo pobre velho, que agora virava motivo de chacota. A única reação na qual conseguiu pensar foi de levantar-se, e fora uma idéia terrível. Agora, olhavam para ele tanto quanto olhavam para o velho.

-Viu, velho? Ele levanta-se para partir! Quantos mais vai ter de aborrecer até deixar de enganar os viajantes?
-Ah! Senhor, o senhor não levanta-se para sair, não é mesmo? Não se enfurece ao ver como esses trastes tratam um homem de bem?
-Diga-me onde está o tal homem de bem, e hei de tratá-lo com respeito! – o riso continuava pelo salão, e mais gente se juntava aos insultos e às brincadeiras. O rosto de Damaran estava num tom de vermelho escuro pela vergonha, e o velho pegava a garrafa que havia lhe dado e bebia direto do gargalo.

-Bruto! – praguejou ele, limpando a boca com a manga suja do casaco. – Vilão ignorante, terrulento, vil! São todos filhos de uma puta imunda, todos que riem! Riem de um homem de bem, ah! – argumento algum além de insultos lhe haviam restado, para sua infelicidade. Por um breve momento, fez-se um silêncio seguido pelo arrastar de cadeiras dos homens menos pacientes, que começavam a xingar e avançar contra o velho, puxando-o pela gola. E em pouco tempo, não era uma briga que envolvia apenas aqueles dois lados, mas quase todos no bar brigavam entre si. Uma garrafa arremessada erroneamente fez um homem desmaiar e seus companheiros irem para cima do agressor; uma pancada não intencional com o cotovelo deixou o nariz de outro sangrando e seu dono enfurecido; e rapidamente o caos instalou-se dentro do bar. Damaran viu-se em meio a ele, entre a multidão, o velho que tentava escapar para trás do balcão e um barman em desespero por seu estabelecimento. Os homens que primeiro se levantaram puxavam o velho pelo casaco, rasgando-o ainda mais e empurrando Damaran para o lado. O barman tentava expulsá-lo para defender seus copos e garrafas, já ameaçados o suficiente pelos objetos que voavam sobre as cabeças, e ele defendia-se a chutes e tabefes que raramente funcionavam.

Sem pensar muito, Damaran enfiou-se em meio a multidão achando que o melhor a se fazer seria sair daquele lugar o mais rápido que pudesse. Protegeu-se com os braços e abriu caminho na base dos punhos e dos cotovelos, sem se importar com quem quer que estivesse ferindo no caminho. Um homem segurando uma garrafa quebrada quase o acertou, mas o soldado fora mais rápido. Deixou que a garrafa apenas raspasse por sua manga e puxou o braço de seu agressor, levando-o ao chão e lá deixando-o, sem olhar para trás. No entanto, os gritos do velho obrigaram-no a virar o rosto.
-Senhor! – berrava ele, sem esperanças de sair da situação que se encontrava. – Senhor, ajude-me! Por obséquio, eu…! – um punho atingiu-o no rosto, e os gritos pararam. Naquele momento Damaran sabia que o velho estava, pelo menos, inconsciente. Mas isso não fez com que os homens que o espancavam parassem.

Continuam espancando-o mesmo sem que ele possa reagir. Não gostava daquilo. Sabia como era sentir-se impotente, sem forças, e sem que ninguém tivesse piedade por ele… abriu caminho pelo meio do bar, novamente, desta vez mais atacando do que apenas se defendendo. Era alto e largo, tinha força nos grossos braços. Sabia brigar e tinha tamanho para tal. Conseguiu levar dois ou três homens ao chão, deixar narizes sangrando e dedos quebrados até conseguir chegar novamente até o balcão. Agarrou dois pelo cangote dos casacos, arremessando-os para trás com toda a força que conseguira reunir. Para o terceiro, bastou fechar o punho e levantá-lo para que ele soltasse o pobre velho inconsciente, amedrontado, e esgueirar-se para um canto do bar. Damaran colocou o velho no ombro, prendendo a respiração por causa do cheiro, e rodeou a briga pela parede do bar. Ainda teve de acertar um ou dois, mas conseguiu chegar até a porta e sair de uma vez por todas.

Quando se deu conta do absurdo que fizera para salvar um desconhecido, um velho malcheiroso que agora deitava em seu ombro, os pêlos de sua nuca eriçaram-se e seus dedos se retorceram. O cheiro do bêbado ficara ainda mais forte quando ele encontrava-se assim tão próximo, e o contato físico daquele homem o deixava desconfortável. O que deveria fazer agora?
Não podia deixá-lo na sarjeta, começava a fazer frio. Mas não sabia onde ele morava, nem quem eram seus amigos, nada. Achou melhor largá-lo em frente a algum hospital, e arrastou-o durante algumas centenas de metros pela rua, na escuridão. O fedor o deixava nauseado. Deu graças quando avistou o hospital e arrastou-o para a porta, ali deixando-o. O velho não soltou nada alem de um silvo. Ao menos, estava vivo. Bateu no vidro da entrada e chamou a atenção de uma enfermeira. Contou-lhe o que havia acontecido, deixou um pouco de dinheiro para seus cuidados e seguiu seu caminho. O que quer que aconteça agora, não é mais problema meu. Fiz o que pude.

No final, mal tinha bebido uma garrafa inteira. Suas roupas fediam, seu humor para passar a noite bebendo havia se esvaecido. Pensou que seria melhor simplesmente voltar para casa, para o seu quarto que lhe tinham reservado. Seria bom passar o resto da noite descansando, ou…
Ele olhou pro lado, e seus olhos encontraram os de uma mulher morena, com os cabelos arrumados em grossos cachos e a boca delineada em batom vermelho escuro. Ela sorriu para ele, aproximando-se jogando o quadril de um lado para o outro conforme andava, e tocou com os dedos brancos sobre seu braço. Ela exalava um suave aroma floral, e parecia limpa e educada. Uma dessas costumava sair caro… mas aquela noite, ao menos aquela noite de folga tinha que valer à pena. Ele sorriu para ela, segurou em sua mão… e a levou para dentro de seu quarto, para cima de sua cama, por entre seus lençóis.

A noite seria, ao menos, minimamente memorável. Satisfatória. Algo que o deixasse com o humor bom o suficiente para, na manhã seguinte, receber um comunicado para que preparasse seu batalhão para partir para a Polônia.

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CAPÍTULO 14
CONSCIENCE 

“A mind that never rests

resides in a man that never forgets.”

Hamburgo, Alemanha – Ano de 1950

  

Alexis acordara naquela manhã como se não tivesse dormido em absoluto. Sua cabeça pulsava, seu corpo doía e ele sentia os olhos arderem. Esfregou-os e olhou para as cortinas, apertando a vista para o feixe de luz que entrava por entre elas. Já havia amanhecido, mas ele não sabia que horas eram. Suspirou e virou-se para o outro lado, observando o sono da bailarina que, sem mover-se, suspirava baixo sob as cobertas. Ele encarou-a por um momento, sem mudar sua expressão de absoluta indiferença. Ela ficava mais bela sem toda a maquiagem que usava, pensava ele. Já havia dito isso a ela, mas lembrava-se apenas dela sorrir e voltar a arrumar-se. Sem nada dizer, ele apenas havia suspirado e saído do quarto sem dizer mais nenhuma palavra. Já se fora o tempo no qual ele possuía paciência de argumentar com quem não estivesse disposto a ouvi-lo.

Passou as mãos pelo rosto, erguendo o corpo, ainda com sono mas se sentindo incapaz de dormir por mais tempo agora que o sol já iluminava parte do quarto. Esfregou as têmporas respirando fundo e levantou-se, deu a volta na cama e entrou no banheiro do quarto. Lavou o rosto com água gelada, sentindo um alívio indescritível – a primavera havia trazido um calor que o agoniava apenas de imaginar como seria dali a alguns meses. Deixou a água correr por um momento, mantendo as mãos em concha sob a torneira e encostando a face sobre elas. Tateou pelo sabonete e esfregou as mãos, lavando-se, e secou-se com a pequena toalha branca pendurada ao lado. Olhou o reflexo de seu rosto no espelho e parou por um breve momento.

Passou os dedos pelo rosto, pelos lados de seus olhos, procurando por falhas que não queria realmente encontrar. Puxou a pele levemente, observando se haveria alguma grande diferença, e suspirou achando melhor parar antes de frustrar-se ainda mais. Não estava tão velho, convencia-se. Não havia nem chegado aos quarenta, por quantas experiências ruins precisaria passar para se preocupar com a idade e a aparência àquela altura? Não, pensou consigo mesmo. Não há nada de errado. Sua vaidade não permitia que ele aceitasse a possibilidade de estar envelhecendo tão rápido. Ainda estava em boa forma; talvez não a melhor, mas, ao menos, satisfatória. Mas seria ‘satisfatório’ o suficiente?

-Olha só… normalmente quando eu acordo, você já está na cozinha com tudo pronto. Não é que hoje te peguei procurando por rugas? – riu a voz atrás dele, jocosa. Alexis virou-se.
-Acordou mais cedo que o normal. Queria mesmo me ver fazendo isso?
-Queria. – respondeu Vladilena, sorrindo. Ela foi até ele e deu-lhe um leve afago nas costas. – Você fala da minha maquiagem, mas anda morrendo de preocupação com a idade… não fica assim. Você fica mais bonito com a idade. – riu ela, despindo-se e entrando no chuveiro. Ele a encarou por um breve momento e suspirou, escovou os dentes e desceu para a cozinha sem mais uma palavra sequer.

Entrou e abriu o armário procurando por algo que pudesse transformar em um café da manhã decente. No entanto, encontrou-o praticamente vazio; havia algum tempo que não fazia compras e a viagem acabou atrasando-o. Amaldiçoou o próprio trabalho e subiu de volta, pegou um pouco de dinheiro, sua arma no coldre e um casaco para escondê-la não obstante o calor que começava a fazer, e saiu de casa após deixar um bilhete na mesa da cozinha. Iria num dos poucos mercados que ainda sobraram da guerra e havia conseguido se restabelecer satisfatoriamente, e, com um pouco de sorte, ainda conseguiria encontrar produtos em condições razoáveis. Ia quase sempre a pé, pois isso o ajudava a pensar. O ar da cidade durante uma caminhada, apesar desta não estar em sua melhor aparência, era mais agradável que dentro de um veículo qualquer e fazia-o sentir-se melhor – e a proximidade com o mar ajudava. Não sentia obrigação moral nenhuma de ser simpático com estranhos, portanto, era só ignorá-los e refletir sobre o que fosse que ele sentisse necessidade de fazê-lo.

Virou a esquina da rua onde morava e caminhou por apenas mais alguns minutos até o mercado. Sem demorar-se, colocou o que interessava em uma cesta, com a sorte de ter encontrado alguns pães frescos e as prateleiras ainda razoavelmente cheias, pagou tudo no caixa sem muita conversa e retomou o caminha de volta à casa. Comprara apenas o que poderia carregar, para não se aborrecer durante a caminhada. Outro dia compraria mais, quando tivesse certeza que passaria um bom tempo sem sair de casa. Mas, no momento, sentia que essa paz ainda estava longe de vir. E estará longe durante, pelo menos, alguns bons meses.

-Morangos, senhor?
Aquilo o havia pego de surpresa.
-Não. Obrigado. – Alexis levou a mão ao peito, aliviado por não ter dado um salto na frente da garota. Nem sequer olhou-a nos olhos.
-É barato, senhor… um presente para a senhora sua esposa?
A pergunta forçou-o a encará-la, incrédulo. Processava mentalmente se deveria levar aquilo como sarcasmo, como zombaria, ou como a pergunta inocente de uma jovem vendedora de morangos que nada sabia.
-Estou com pressa. – rosnou ele, retomando seu caminho. Esperava que a garota não fosse tão insistente quanto ele era teimoso.
-Uma boa tarde para o senhor… – ela se limitou a responder, com a voz baixa, sem ousar segui-lo.

Alexis esperava tanto que ela fosse insistir mais, que chegou a surpreender-se com aquilo. Ao olhar sobre o ombro, viu que a garota procurava seu próximo cliente em potencial, deixando-o em paz após a dura recusa que recebera. Talvez dura demais. Havia se tornado ainda mais frio com o passar dos anos, e não se importava. Não estava disposto a se esforçar para ser gentil, e nem tinha mais paciência para tal. Tratar com pessoas nunca havia sido sua especialidade, de qualquer forma, e que lhe importava como uma vendedora de morangos se sentia? Se ela for inteligente o suficiente, também não se importaria. Deve receber grosserias no mínimo diariamente.

Mas talvez… não sabia se deveria ou não agradar Vladilena com os morangos. Ela iria gostar. Certamente iria, mas… por algum motivo estranho, não sabia se deveria mimá-la mais. Ela era mimada, e gostava disso, no entanto ele nunca fora o tipo de homem que traz presentes a cada saída. Só… e se fosse apenas essa vez…?

Ele olhou sobre o ombro mais uma vez, vendo a garota mais ao longe. Com um suspiro longo, deu meia-volta e foi até ela a passos rápidos, pegando algumas moedas no bolso. Sem abrir a boca, entregou-lhe as moedas e pegou um pequeno cesto dos morangos que ela levava, ajeitando-o no braço sobre a sacola do mercado. Agradeceu num resmungo e virou-se, retomando seu caminho, sem importar-se que a garota estendia-lhe a mão por ele ter-lhe dado moedas a mais. Deixou-a encarando suas costas por alguns segundos, sem ver o ligeiro sorriso que ela lhe dirigia, e, apenas por um breve momento, imaginou se isso teria mesmo sido o melhor a se fazer. E resmungou sozinho que se ele mesmo havia decidido que era melhor assim, então era, e ponto.

Passou o resto do caminho tentando pensar em outra coisa, sem grande sucesso, e subiu os degraus até a porta. Tentando equilibrar as sacolas e a cesta de morangos, pegou a chave desajeitadamente no bolso da calça e entrou. Foi direto para a cozinha, onde Vladilena o aguardava frente à uma xícara morna de café com leite, e deixou as compras sobre a bancada da pia.
-Comprou morangos?
Ele não respondeu e apenas passou a cesta para ela, deslizando-a sobre a bancada.
-Comprou pra mim? – ela voltou a perguntar com aquele sorriso infantil no rosto, apoiando o queixo sobre as mãos. Alexis olhou-a com o canto dos olhos e suspirou, balançando a cabeça afirmativamente.
-Achei que fosse gostar. – ele disse friamente. E ela sabia que ele dificilmente lhe daria resposta mais carinhosa que aquela.
-Gosto. Muito. Obrigada.
Ele confirmou com a cabeça e abriu os armários, guardando tudo que havia acabado de comprar exceto por um par de ovos, grãos de café e um saco de pão, enquanto ela saboreava lentamente um dos morangos apertando-o entre os lábios. Ela riu quando sentiu o sulco escorrendo por seu queixo, e limpou-o com a mão, lambendo os dedos.

-Não quer? – ofereceu-lhe um dos morangos.
-Não. Obrigado.
-Estão bem doces.
-Pode comer todos.

Vladilena riu pelo nariz, encolheu os ombros e voltou a entreter-se com as frutas. Ela sabia muito bem que a ele não agradavam tanto assim coisas doces demais. Não que não gostava, exatamente, mas ele lhe havia dito uma vez, após muito esforço, que não sentia vontade de comer qualquer coisa açucarada. Apenas comia quando lhe era dado, e só. Talvez ele prefira algo amargo como ele mesmo, pensava a mulher, rindo-se internamente. Alexis a fascinava sempre que tentava analisá-lo, e relacionar as coisas ao seu ego fazia a brincadeira ainda mais divertida. Amargo, salgado, azedo como ele mesmo. Ele realmente só gosta de si mesmo. E isso não a magoava. As pessoas obviamente amargas eram melhores do que as doces demais. Pessoas doces não eram como açúcar. Este sempre seria doce, mas as pessoas normalmente só o eram por fora. Talvez como aqueles morangos, ponderou. Morangos sempre pareciam doces, mas, muitas vezes, eram azedos.

E o homem mais azedo que havia conhecido lhe trazia doces morangos.

Alexis entregou-lhe um prato com ovos mexidos e pão amanteigado, junto de uma xícara de leite. Ela sorriu para ele ao ver a comida, e observou-o deixar a louça toda na pia antes de sentar para comer com ela. Sua refeição resumia-se a uma xícara de café concentrado.

-Não vai comer de novo?
-Não tenho fome.
-Vai ganhar uma dor de estômago depois. – riu ela.
-Não me importo. – o que era uma dor de estômago perto dos problemas que inundavam sua mente e não ajudavam em nada a melhorar seu humor?

Vladilena encolheu os ombros, pois a partir do momento em que lhe havia avisado, não considerava mais ser problema seu, e começou a comer devagar. Vez em quando dirigia uma olhadela a Alexis, que quase nunca a percebia. Estava ocupado demais olhando pela janela, como se divagasse. Mas ambos sabiam bem o que se passava naquela cabeça sob aqueles finos cabelos louros. Preocupação. Insatisfação. Todas as possibilidades que queria realizar, mas não podia, não tinha meios… ainda.
Pois não iria parar de pensar naquilo até achar uma solução que o satisfizesse.

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CAPÍTULO 13
TRUST 

“He would have to prove himself worthy,

in order to finally get to know that man.”

Moscou, Rússia – Ano de 1950

  

Damaran chamou-o com um gesto de mão, e ele não tinha muita opção fora obedecer. Era a primeira vez que o convidava a sair junto dele, que o deixava seguí-lo para fora do hotel desde que havia aceitado-o como aprendiz alguns dias atrás. Dias durante os quais trocaram poucas palavras, e encontraram-se para uma refeição silenciosa duas ou três vezes. E algo que o garoto pôde notar fora que o russo sempre desaparecia para algum lugar após o jantar, e nunca acordava a tempo para o café da manhã que era servido deveras prematuramente naquele hotel. Na verdade, só conseguia vê-lo durante o almoço, ou mais tardiamente. E, agora, havia finalmente descoberto o motivo.

Prostrava-se frente a uma casa de madeira, velha, relativamente mal cuidada, mas incrivelmente iluminada em vermelho e amarelo. De dentro ouvia risos, gritos… e gemidos. Por mais que houvesse música em algum lugar do salão, as janelas abertas dos quartos no segundo andar delatavam sem pejo o que se passava ali. E, por mais inexperiente que fosse, era até próximo do que Kyouya havia imaginado quando deixaram o hotel. Mas ainda era a primeira vez que ele chegava tão perto de um prostíbulo, e o constrangimento estava estampado em seu rosto. Damaran, que o esperava com um pé através da porta, observou-o até cair no riso.
-Que cara é essa, garoto? Ninguém te contou o que acontece por aqui a noite? – riu ele, com uma mão no bolso e outra segurando aquele grosso charuto fedorento de que ele tanto gostava. – Vem, não me faz perder o meu tempo. Quem sabe não aprende mais do que eu imaginei que fosse aprender.

Kyouya olhou para o russo em um quase desespero, franzindo as sobrancelhas enquanto ele entrava e vendo-se sozinho, observado. Reuniu sua coragem e segurou o ar, e seguiu-o para dentro apenas para quase engasgar-se com o cheiro forte de álcool e nicotina. Apertou os olhos para enxergar, dentre as luzes, a névoa e o movimento, os homens fumando e embebedando-se enquanto mulheres semi-nuas dançavam, beijavam, sentavam em seus colos dando-lhe de beber… e flertavam para depois levá-los aos quartos. Damaran encontrava-se já próximo ao balcão do bar, com o charuto entre os dentes e rublos em mãos. Cumprimentou alguns poucos que lá se encontravam, que pareciam não apenas participar da baderna mas também, de alguma forma, administrar o que acontecia ali, e gesticulou por um copo de vodka. O garoto espremeu-se por entre as pessoas, receoso de tocar em qualquer um e acabar metendo-se em problemas e sentindo-se levemente enjoado pelo forte cheiro, para conseguir alcançar o balcão e colocar-se ao lado de Damaran – que parecia, no momento, a opção mais segura. O russo sorriu para ele com o copo em mãos, a bebida já na metade.

-Você parece nervoso. – riu ele.
-Eu… como? É que eu estou nervoso… – respondeu o garoto, levemente irritado. O russo sorriu, voltando a beber de seu copo, virando até a última gota.
-Não precisa ficar bravo, como eu ia saber que nunca tinha vindo num lugar desses? Não me disse que já tem mais de vinte anos?
-Eu… tenho, mas ainda assim, nunca vim. – Kyouya levou a mão à nuca, encabulando-se. – O que isso tem a ver com o que eu te pedi…?
-Se quer ser meu aprendiz, tem que agüentar pelo menos isso. Ao menos três vezes por semana. É sério que nunca veio? O que há de errado com você?
“O que há de errado com vocês todos”, respondeu Kyouya apenas mentalmente. Ele já tinha o rosto todo vermelho, mas continuava fitando o russo nos olhos com uma expressão de completa absurdidade. A falta de resposta fez Damaran rir novamente.
-Esse lugar… – começou ele, batendo o salto da bota contra o chão de madeira. – É meu. Essas mulheres que você está vendo, aqui, são minhas. O dinheiro que recebem aqui vai em parte pra mim, em parte pra quem cuida daqui… e em parte para a manutenção. Ou bebida… como preferir chamar. E aqueles homens… – ele apontou para um grupo que, apesar de todos terem copos ou garrafas em mãos e um ou outro terem uma mulher ao lado, mantinham-se mais atentos que os outros. – São os que cuidam das mulheres daqui. Pra elas não saírem, não roubarem… ou pra evitar que qualquer palhaço acabe fazendo alguma coisa que não devia com elas.

Kyouya olhou-os durante algum tempo e balançou a cabeça positivamente, engolindo em seco. Queria saber o que exatamente ele queria dizer com ‘alguma coisa que não devia’, mas não ousou pronunciar-se; apenas imaginou que era alguma coisa que pudesse prejudicar os negócios. Damaran sorriu para ele, já acabando o segundo copo de vodka e pedindo mais um, e gesticulou para alguém ao longe.
Um homem baixo, em seus vinte e poucos anos, mantinha-se quieto e observador até ser chamado pelo russo. Levantou-se e se aproximou, respeitosamente, sem interromper nada ao redor. Tinha os cabelos ruivos bagunçados, o rosto magro e olhos verde-oliva que demonstravam, mesmo naquele lugar, uma calma inabalável. Vestia-se humildemente com um colete surrado e uma camisa com as mangas dobradas, mostrando as tatuagens em seu braços esquerdo. Uma serpente enrolada em uma espada, e os pequenos símbolos nas mãos e nos dedos. Tatuagens de prisão. Kyouya olhou-o durante algum tempo, enquanto ele cumprimentava Damaran respeitosamente, e logo reparou que estava sendo encarado de volta.

-Bóris… – Damaran gesticulou para o homem, apontando Kyouya. – Esse é o garoto de quem te falei. Tem como dar uma volta com ele e explicar mais ou menos como as coisas funcionam por aqui?
-Sem problema algum… – respondeu o outro, olhando o garoto de cima a baixo e levantando uma sobrancelha. – … Lá em cima, também?
-Lá em cima, sim… ele tem idade o suficiente. Só vai precisar de experiência no tranco… – riu Damaran, dando um tapinha leve nas costas de Kyouya. – Depois pode trazer ele pra mim de volta, que ele vai aprender a beber direito também.
-Sim, senhor… – respondeu o ruivo, ainda hesitante e achando difícil acreditar que o garoto era mais do que uma criança. Ele gesticulou para Kyouya e colocou as mãos nos bolsos, caminhando por entre as mesas e pessoas, indo para os fundos do lugar. Kyouya o seguiu após olhar para Damaran uma última vez, que apenas sorriu e levantou o copo em um gesto de ‘boa sorte’.

Por detrás do bar, as coisas acalmavam-se um pouco e os risos eram abafados pela grossa porta da madeira que separava os ambientes. Lá atrás, havia uma pequena cozinha – que necessitava de uma faxina – onde duas mulheres fumavam seus cigarros perto da janela e esperavam qualquer coisa dentro de uma panela batida ficar pronta para poderem comer entre suas aventuras sexuais com estranhos; ao lado, um homem saia de um banheiro de tamanho razoável, mas que parecia enxotado de produtos de limpeza que Kyouya duvidava serem usados muito freqüentemente; um almoxarifado ao lado guardava todo tipo de objeto que poderia vir a ser usado, e, finalmente, havia o local onde as bebidas eram guardadas. Por um momento lhe pareceu ser o mais limpo aposento desde que havia entrado naquele lugar; mas fora apenas impressão. Apesar da euforia que se passava no salão, era um lugar razoavelmente apresentável, e o bar fazia jus à fama que Damaran parecia ter. As garrafas estavam arrumadas na estante, e os copos enfileirados nos armários, sem manchas visíveis no vidro. O balcão estava limpo e os bancos em boas condições, aparentemente perfeitos… para se fazer negócios enquando apreciavam uma bebida.

Bóris explicava-lhe algumas coisas com a voz baixa, quase nunca fazendo contato visual; mas Kyouya não se importava. Achava que era melhor desse jeito, também, por estar realmente desconfortável na situação em que se via. Ainda achava difícil entender o porquê de estar ali, e começava a desconfiar que Damaran estava brincando com ele e só queria ver qual seria a sua reação. E se isso realmente fosse verdade, estava perdendo seu tempo de uma maneira bastante constrangedora. Constrangedora… mas, ao menos, relativamente fácil de entender. Era um prostíbulo, forçava-se a lembrar a cada minuto; a hierarquia era simples, o funcionamento, uma vez explicado, também. Os homens tinham que controlar as mulheres, o dinheiro que entrava era dividido entre eles, elas, a bebida… e o cabeça. Resumindo tudo, era assim que funcionava… superficialmente.
Subiram ao segundo andar, e os gemidos vindo dos pequenos quartos ao redor do corredor estreito pelo qual Boris seguia deixavam o garoto profundamente incomodado. As portas estavam fechadas, mas ainda assim ele sentia-se invadindo a privacidade de alguém. Uma privacidade estranha, de cuja as mulheres não pareciam fazer questão, e nem os homens que não tivessem nada a esconder. Era quase como se as coisas estivessem se invertendo, e aquele ambiente se tornasse o invasor para Kyouya… uma sensação deveras estranha. Naquele momento, Boris falou ainda menos do que antes. Ele não parecia se incomodar, já deveria estar acostumado. Mas a impressão era de que ele não tinha nada a falar sobre tudo aquilo, que nada precisava ser dito. E realmente, dispensava explicações. Era simplesmente sexo, dinheiro, um romance falso de uma noite e que poderia se estender e trazer outras conseqüências… mas para Damaran, era um negócio. Sexo por dinheiro. Simples.

Após apenas alguns poucos minutos, Boris dirigiu-se novamente para a escada de madeira que rangia a cada passo e desceu. Kyouya o seguiu, atento, ainda tomando cuidado para não esbarrar em lugar algum. Tinha aquela sensação de que não devia tocar em nada para manter sua integridade. No entanto, quando Kyouya virou-se para o bar, pensando que finalmente poderiam voltar para o hotel, encontrou Damaran quase deitado sobre uma poltrona mais ao fundo, com o casaco ao lado e a camisa aberta… e com uma mulher de cabelos castanhos em seu colo, que vezes lhe dava de beber direto do gargalo de uma garrafa e vezes beijava-o devagar. Ele correspondia e sorria pra ela, e ela dava-lhe de beber novamente quando ele levava a mão à sua cintura e a apalpava. E a cena se repetia algumas vezes enquanto Kyouya prostrava-se no lugar, ainda tentando entender o que se passava ali.

Foi apenas quando a vodka da garrafa acabou que Damaran finalmente deu-se conta da presença do garoto. Sorriu apoiando-se nos braços da poltrona, ergueu o corpo devagar e sussurrou para a mulher em seu colo, que olhou para Kyouya e riu com a mão sobre a boca. O russo levantou-se com ela lentamente, sendo amparado pela poltrona, e o garoto teve certeza de que ele já estava bêbado. Suspirou.

-Se divertiu…? – riu ele, com bem menos compostura do que tinha quando entraram. Mantinha o casaco sobre o braço, e fechava a camisa com alguma dificuldade. Kyouya franziu-lhe o cenho.
-Não, mas vi que o senhor aproveitou bastante…
-Não precisa me chamar de senhor… – riu Damaran, apoiando o braço sobre os ombros do garoto. – Que cara é essa? Ficou nervoso?
Kyouya desacreditava que ele realmente estava lhe perguntando aquilo.
-Estou. E não sei bem o que era pra eu ter aprendido com isso tudo.
Damaran sorriu maliciosamente, apoiando os braços no bar.
-Depois você vai entender… agora, que tal uma bebida?

O garoto olhou-o durante alguns segundos e suspirou. Começou a achar que não havia muito sentindo em discutir com aquele homem que, já não lhe dando atenção sóbrio, jamais ia levá-lo a sério depois de litros de vodka.
-Não quero, obrigado. Por que… me trouxe até aqui? Sinceramente?
O russo sorriu para ele, vestindo o casaco.
-Porque não é qualquer um que eu deixaria me acompanhar depois de quase três garrafas de vodka… – riu Damaran, observando a expressão de surpresa no rosto do garoto que, após hesitar por algum momento, finalmente sentou-se ao seu lado.

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CAPÍTULO 12 – AMBITION

CAPÍTULO 12
AMBITION 

“And there was his brother,

Smirking calmly with blood on his hands.”

Yokohama, Japão – Verão de 1940

  

Ele não sabia ao certo se deveria arrepender-se amargamente de ter seguido o irmão, ou se ter visto tudo poderia ter sido uma descoberta positiva para si mesmo. Mas tinha certeza de que não seria nada bom se fosse descoberto por qualquer um que fosse. Manteve as mãos sobre a boca, segurando a respiração o melhor que podia, mantendo-se encolhido dentro daquele armário com cheiro de bolor. Achava curioso como o ar parecia capaz de emitir um som tão alto nesses momentos. Não ousava mexer um único músculo para fora da sombra nem fazer um único ruído, por mais que quisesse correr para casa. E absolutamente, não tirava os olhos da cena que sua curiosidade lhe trouxe.

Pela pequena fresta entre a porta e a coluna de madeira, Kyouya observava os homens com lâminas em mãos, admirando o resultado do trabalho daquela noite. O chão e as paredes tingiam-se de vermelho escarlate, que tornava-se quase negro na escuridão da noite. O garoto via a forma de um corpo inerte sob as cobertas encharcadas, um corpo que seu irmão rondava como uma hiena faminta e com o sorriso de satisfação mais assustador que ele já havia visto em toda sua vida. Eram poucas as vezes que via uma expressão como essa naquele rosto sempre sereno, com aquele sorriso que transmitia uma calma estranha. Os outros dois que o acompanhavam, diferentemente, colocavam-se um de cada lado, sem nada dizer mas sem sinal algum de arrependimento. Teruo, que parecia ser o líder do grupo, parou o movimento após alguns segundos e começou uma risada baixa, assustadora, cheia de desprezo. Colocou o pé sobre o cadáver ao qual ele mesmo havia desferido o golpe fatal, apertando-o de forma que o sangue quente molhava seus dedos e fazia o estômago do irmão mais novo embrulhar. Não obstante, ele simplesmente não conseguia deixar de olhar aquilo.

-Ora… ora… – ria ele, empurrando e puxando o corpo com o pé descalço. – Isso foi mais fácil do que eu imaginava. Foi fácil demais, tio. O senhor não devia confiar na sua família, sabia…? Pelo menos, não na parte da família pra qual o senhor nunca deu importância. Eu te disse, não disse? Que eu era mais do que vocês imaginavam que eu podia ser…? – ele estourou numa risada baixa, estreitando os olhos para o morto. Os outros homens ainda mantinham-se quietos, e um apenas levantou a espada para limpar o sangue que escorria pela lâmina.
Kyouya sentiu um arrepio correr pelo seu corpo e abraçou-se, encolhendo os ombros. Nunca tinha sentido tanto medo de sangue de seu próprio sangue, de sua família, como naquele instante. ‘Ele vai me matar’, pensou. ‘Se ele me descobrir, aqui, vai me matar. Eu não posso morrer. Não quero, não agora…’ Ele segurou a respiração e fechou os olhos, finalmente, encolhendo-se e abraçando as pernas. E esperou. Esperou, até que tudo ficasse em silêncio.
-Senhor Teruo. Se nos demorarmos mais, alguém pode aparecer… – disse um dos homens, de repente, em tom grave. Teruo olhou-o sem expressão por alguns segundos, e sorriu.
-Alguém, não é…? Tem razão… tem razão… isso não seria bom. Mas é claro… que eu posso confiar em vocês pra não falarem pra ninguém, não é mesmo? – respondeu ele, sorrindo gentilmente e aproximando-se de cada um dos homens. Ambos se entreolharam.
-Sem dúvida alguma, senhor. – disse o segundo, embainhando a espada.
-Ótimo. Porque se eu algum dia desconfiar… acabam como ele. – apontou o cadáver, alargando o sorriso de forma que seus olhos ficassem ainda mais estreitos. – Entendido?
-Sim, senhor. – exclamaram os dois respeitosamente, corrigindo a postura e mantendo os braços esticados ao lado do corpo. Teruo continuou sorrindo.
-Agora, vamos embora. Que isso fique como uma traição interna… ou um mistério. Vamos, saiam… eu não demoro. Preciso apenas resolver uma última coisa sozinho.

E assim, Teruo ficou sozinho no quarto, observando os dois sumirem de sua vista. De costas para Kyouya, ele apoiou a mão na porta de papel, e suspirou. O mais novo abriu os olhos novamente ao ouvir o silêncio, e voltou, silenciosamente, a observar pela fresta. O irmão ainda estava ali, olhando para o jardim fora do quarto do assassinado.
-Kyouya… – cantarolou ele, sem virar-se. Kyouya sustou-se, sentindo seu corpo gelar de cima a baixo. Não soltou um único som, e apenas arregalou os finos olhos castanhos. Não era possível que tivesse sido descoberto.
Teruo soltou um riso baixo, novamente, ainda olhando para fora do quarto.
-Kyouya… não me diga que não está aí. Pra me deixar falar sozinho assim, como um louco… eu sei que você me seguiu, sabe? Onde está escondido? Eu sabia que cedo ou tarde, você iria me seguir… andava grudado demais, eu percebi isso. Acompanhando cada passo meu pra ver onde eu iria escorregar…? Vamos, Kyouya, saia. Não vou lhe fazer mal, você sabe… irmãozinho. Bom, não parece estar no jardim… – suspirou ele, e virou-se para dentro do quarto.

Kyouya podia jurar que seus olhos haviam se encontrado; mas não conseguiu sair do lugar. Continuou quieto, observando, atento, amedrontado.
-… Hm. Talvez você realmente não esteja aqui, não é…? Saiu correndo depois do primeiro corte? O que, e agora me faz dialogar com o morto. Isso não é certo, sabia? Mas se não está aqui… talvez seja melhor que eu me cale. De qualquer forma… – riu ele – se for me esperar sair, saberei que esteve aqui ao chegar em casa. Não pretende chegar antes de mim, pretende? Para esbaforir-se e inventar qualquer desculpa… bem, paciência. Cedo ou tarde vamos nos encontrar… enquanto isso, posso me divertir com a nossa irmãzinha.

Kyouya inclinou o corpo para trás, horrorizado. Ele não deixava passar um único detalhe, sabia como tirar o que queria de qualquer um… Kyouya sabia que era mais fraco, e nem de longe tão inteligente quanto o irmão mais velho. Abriu a boca para falar, mas sua voz não saia. E não ousava sair. Lhe faltava coragem, ele tinha certeza de que seria morto… mas ele tinha algo a proteger. Apertou os olhos, sem mais poder ver a silhueta do primogênito, e reuniu bravura para, finalmente, empurrar a porta e levantar-se. Apenas para deparar-se com o quarto vazio, o corpo no chão… e o silêncio. Seu irmão já havia deixado o lugar… e se dirigia para casa.
O garoto parou no lugar durante alguns segundos, apenas para sentir o pânico crescer em seu peito. Puxando o ar com força, saiu pela porta em disparada, enfiando-se entre as árvores pelo atalho que conhecia, correndo o mais rápido que se lembrava em toda sua vida. Os galhos enroscavam-se em suas roupas e cortavam seu rosto, e não tinha mais chance alguma de esconder de Teruo que havia visto tudo o que ele havia feito. Mas havia deixado de se importar consigo mesmo no momento em que a irmã fora mencionada. Aquela criatura pequena, magra, que nunca nada havia feito… mas que acabara servindo para Teruo como uma maneira de controlar o irmão mais novo. Pois ele sempre soube que Kyouya nutria por ela um sentimento muito mais forte do que com ele, e isso o mais velho não poderia perdoar. Com a vestimenta em trapos e os pés arranhados, o fôlego acabado e o rosto sangrando, entrou correndo na casa onde estavam hospedados pelos fundos e abriu a porta de madeira e papel com uma força que nunca soube que tinha.

Apenas para deparar-se com a irmã, que o olhava em silêncio, piscando os olhos negros como o ébano. Vestia um kimono de verão branco e leve, e tinha os cabelos grossos presos por uma fita. Ela ajoelhava-se frente a uma mesa baixa, com um pedaço de papel colorido nas mãos e esfregava os pés miúdos um no outro. Kyouya hesitou por um momento, encarando-a, caiu sobre o tatami e apoiou as mãos, finalmente deixando-se respirar.
-E… o Teruo…?
A garota demorou a responder e apenas levantou uma sobrancelha.
-Ele não chegou ainda… o que você foi fazer que chegou assim, todo… todo?
Kyouya não respondeu. Não poderia responder, não agora… agora, tinha que conseguir ajeitar-se antes do irmão chegar. Jogou o corpo pra trás, sentando-se e apoiando as mãos no chão, e suspirou em alívio. Ao menos havia chegado antes e ela estava lá, do lado dele, onde ele poderia ver. Dane-se o que pode acontecer comigo, pensou. Só não queria que o irmão fizesse nada a ela. No entanto, nesse momento, ouviu a porta do lado oposto do quarto se abrindo e, dela, surgindo aquele que menos queria encontrar – e recebendo ambos com o sorriso caloroso de sempre, que faziam seus olhos parecerem ainda menores e que lhe davam a feição de uma raposa.

-Kyouya… Manami… – começou ele, aproximando-se. – O jantar está pronto, nosso tio fez o favor de nos preparar um banquete maravilhoso. Venham antes que esfrie… ah, Kyouya, o que é isso? Está em trapos, melhor se trocar e cuidar desses cortes antes de aparecer em público. Seria uma vergonha para mim e para nossa irmã se resolvesse vir assim… não é, Manami?
-Não. – respondeu ela, firme, franzindo o cenho para o mais velho. – Pra mim, o Kyo não é uma vergonha… mas… melhor cuidar desses machucados, não é…? – prosseguiu ela, baixando o olhar e dirigindo-o a Kyouya, que pode sentir que ela havia entendido bem que algo estava errado. – Eu vou ajudar ele, não ligo se a sopa esfriar. Pode ir, Teruo-nii…
[1]

O sorriso desapareceu do rosto de Teruo por um breve momento, mas ele logo recompôs-se. Chegou mais perto e colocou a mão magra sobre a cabeça da garota, agachando-se e apoiando o outro braço sobre a coxa.
-Certamente, Manami-chan, certamente… como pude dizer uma coisa dessas de nosso querido irmãozinho, não é mesmo? Pois bem… esperarei por vocês na sala de jantar. Tentem não demorar. – Ele rangeu os dentes ao concluir a frase.
O tom de voz de Teruo ao acabar a frase fez com que Manami se arrepia-se, mas ela sempre se recusava a demonstrar. Balançou a cabeça positivamente, devagar, sem mudar a expressão. O mais velho sorriu e levantou-se deixando o recinto dando uma última olhada fria em Kyouya. Os dois no quarto se entreolharam e o silêncio reinou por um momento, após o qual a garota levantou-se e puxou o irmão pela mão.
-Vem… isso deve estar doendo, tá sangrando. Vai infeccionar…
-… É… – respondeu ele, levantando-se e indo com ela. Sentia a pequena mão da garota tremendo levemente, e preferiu calar-se. Depois, quem sabe, poderiam conversar sobre o que Kyouya havia visto… mas, naquele momento, ambos pareciam assustados demais para tal.

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[1] -Nii – Sufixo do japonês usado para referir-se a irmãos mais velhos de maneira respeitosa, ou, neste caso, ainda infantil ou feminina.

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CAPÍTULO 11
DIPLOMACY 

“Too many people around him made him unconfortable,

but he’d do anything to get what he wanted.”

Berlin, Alemanha – Janeiro de 1939

  

Alexis olhava mais para o relógio em seu pulso do que para as faces de qualquer uma das pessoas lá dentro. Após observar o ponteiro mover-se por alguns segundos, ele elegantemente arrumava a manga de sue farda e colocava os braços por trás das costas, olhando sobre a multidão – e caminhava normalmente, em direção à janela. Ousava dar alguns passos na para a saída ou mesmo para a varanda, mas era freqüentemente interrompido e, esboçando um sorriso consciente, cordialmente trocava algumas poucas palavras com aqueles que o abordavam. ‘É bom vê-lo por aqui’, diziam eles. ‘Na minha época, um jovem como você não tinha chances de chegar aonde chegou’ – algo com o qual ele respondia com um aceno de cabeça, um sorriso amarelo e um sarcasmo eminente na voz.
-São novos tempos. – e retirava-se com a desculpa de que precisava ajeitar-se no lavabo. Só para ser novamente interrompido em seu caminho.

Diplomacia em demasia o aborrecia. Em sua casa, passava horas sozinho durante as quais entretia-se com um bom livro, ou praticando em seu piano ou com seu violino. Se o tempo começasse a se tornar longo demais, entediava-se e simplesmente ia cuidar de seu trabalho. E o caminho oposto também ocorria. No entanto, viagens longas e eventos sociais eram trabalhosos demais. Especialmente quando ele, ainda considerado um novato por não ter sido parte de tudo desde o início, era obrigado a conhecer e passar seu tempo introduzindo-se a todos aqueles homens que, no fundo, guardavam um ligeiro desprezo por sua posição e por sua idade. Não era o único jovem a ganhar um posto elevado [1], mas era sem dúvida um dos que possuíam menos idade. De certa forma, amaciava-lhe o ego saber que era invejado; mas toda a falsidade da situação o incomodava. Sempre preferiu elogios sinceros, e podia sentir o sarcasmo que seguia durante ou após as conversas, quando aqueles homens juntavam-se com seus companheiros mais próximos e olhavam-no pelas costas. Mas fosse dentro ou fora, o mundo estava cheio de hipócritas. Ao menos lá dentro, algumas opiniões poderiam ser dadas com sinceridade. Algumas.

Após algum tempo, conseguira aproximar-se da porta, pegar seu casaco e sair. Segurou-o próximo ao pescoço ao vesti-lo, sem abotoar, e desceu os degraus frente a casa onde a pequena celebração se passava. Ao olhar para o lado, via os motoristas jogando bolas de neve uns nos outros, como crianças finalmente livres da vigília de seus pais. Não se importava. Eram apenas motoristas; eles sequer o tinham visto, ou teriam recuperado da rigidez e batido continência no mesmo momento. A passos lentos, afastou-se em direção ao vazio, parando sob uma árvore e apoiando o ombro sobre sua casca gélida. Com um longo suspiro, encheu os pulmões do ar frio que o circulava e, arrepiando-se, puxou a gola de sua farda para cima, protegendo-se. E pensou que, apesar de não apreciar eventos daquele tipo, estava satisfeito. Satisfeito com seu trabalho; havia subido mais rápido que muitos e era respeitado, tinha sua autoridade. Com sua vida; tinha uma casa apenas dele, ajudava sua mãe quando ela precisasse – após a morte do esposo, sua saúde havia piorado – e podia comprar o que quisesse ou precisasse. Sua ambição nunca fora dinheiro; mas, sim, enriquecer seu próprio ego. Queria ser bom no que fazia, queria ser admirado, queria dignidade, mando, prestígio. E queria, ao seu modo, limpar o país – era o que estava ao seu alcance – de todos aqueles que ele considerava não dignos. Tal termo era, no entanto, deveras amplo; alguns do que ele achava não merecedores da vida que tinham estavam, inclusive, dentro daquela casa. Mas ele não era estúpido em absoluto e sabia que, sozinho, dificilmente conseguiria alguma coisa. Então, juntou-se ao grupo no momento certo – alguns, ele poderia eliminar e poderia, ainda, fazer disso um emprego e uma forma de conseguir poderio. E com suas próprias mãos.

Fora interrompido por uma mão sobre seu ombro e uma voz chamando-lhe a atenção. Virou o rosto.
-Cigarro? – disse-lhe o homem que lhe dirigia a palavra, oferecendo-lhe do maço. Alexis hesitou por um momento, e soltou um riso baixo.
-Não, obrigado… Prefiro não abusar.
-Ótimo. Não combina com você. – riu ele, acendendo o que levava entre seus lábios finos e guardando o maço no bolso do casaco. – Como passou o ano-novo?
-Nada de mais… – respondeu Alexis, movendo o ombro. – A Hilde anda mais atarefada com o casamento, de qualquer forma.
-Ela vai se casar? Deuses. Não desejo isso para ninguém. – Ele suspirou. – Parece que até algum tempo atrás, ela não passava de uma criança. – disse, ajeitando os óculos.
-Ainda parece não passar, se conviver algumas horas com ela. – Alexis soltara outro riso, baixo, passando as costas da mão sob o nariz.
-Você também não deveria ter crescido tanto. Acho que isso quer dizer que estou ficando velho… Mas sabe que ainda tem essa mania de esgueirar-se por uma fresta e se isolar dos outros.
-Sei… nunca… fui de conviver com multidões por muito tempo.
-Multidões? Muito tempo? – Riu ele novamente, tragando do cigarro. – Por Deus, Alexis, não tem nem trinta pessoas lá dentro… e mal se passaram duas horas. Tem certeza que isso não veio piorando com o tempo?
-Talvez… acho que amadureci, não concorda? – sorriu Alexis. – O que me intriga mais é se o senhor pode se dar ao luxo de deixar aquele lugar.
-Ach, eu tenho a minha autoridade. O discurso, eles dizem, o discurso… inferno, eles o ouvirão quando for a hora. E fumar aqui fora me pareceu melhor, também. Principalmente quando vi que você estava ausente.
-E o seu favorito?
O homem sorriu e apertou os olhos, passou as mãos pelo ralo bigode em seu buço e bateu sobre o ombro do mais jovem.
-Foi uma ponta de ciúmes que senti nessa pergunta?
-De forma alguma. – Sorriu Alexis, simpático. – Mas ele, sim, pode ficar com algum ciúme.
-Há, não… Não se preocupe com isso. Ele tem os próprios assuntos pra cuidar. Tem tanto nas mãos, que me impressiona que chamem apenas a mim de viciado em trabalho…
-Quem não é, hoje em dia… – suspirou o jovem, ajeitando o quepe sobre a cabeça, e riu. – Boa sorte com o discurso.
-Esse maldito discurso, até você. Venha, que frio dos infernos, nem sei como você agüenta. Beba uma taça de vinho, coma mais alguma coisa e depois pode ir pra casa. Ou hotel. Em que hotel resolveu ficar? – Ele mais uma vez bateu sobre as costas de Alexis e gesticulou para que ele o seguisse.
-O de sempre… perto do portão de Brandemburgo. E obrigado, Reichsführer. Depois do vinho, vou precisar dormir… – sorriu Alexis, seguindo-o.
-Aah. É um bom lugar. E sem títulos, Alexis, não agora. É Heinrich quando podemos deixar de lado as formalidades. – Ele ajeitou o casaco sob o queixo quase inexistente. – Deuses, que frio.

Alexis sorriu novamente e encolheu os ombros, entrando. Ambos os homens tiveram de interromper o diálogo assim que foram abordados por outros; mas Alexis fez como lhe foi permitido, e, meia taça de vinho e um prato de comida depois, desvencilhou-se novamente do bando e dirigiu-se para o carro. Interrompeu a diversão dos motoristas, fazendo com que um, ao levantar-se em continência, levasse uma bola de neve no rosto. Suspirando, apenas olhou para o lado e soltou um riso pelo nariz, sorrindo com um canto dos lábios. Entrou por si mesmo no carro enquanto o pobre jovem que para ele dirigia ajeitava-se e corria para ligar o veículo, e deixou o quepe sobre o colo. O motor rugiu e o carro seguiu seu caminho, com os dois homens em silêncio – os motoristas dificilmente dirigiam palavra a seus chefes, e Alexis claramente não era a pessoa mais comunicativa do mundo. Sem muita delonga, o automóvel frente ao hotel e, com uma saudação, o motorista despediu-se de seu chefe após assegurar-se que ele não precisaria mais de seus serviços. Alexis retribuiu com um leve gesto de cabeça, e entrou para aquecer-se de uma vez, cruzando o saguão como uma flecha e subindo direto para seu quarto.

Sem pensar duas vezes, despiu-se de seu uniforme e entrou direto debaixo da água quase fervendo do chuveiro, suspirando profundamente e deixando-a bater em seu peito e face. Fechou os olhos e passou as mãos pelo rosto, pressionando as têmporas com os polegares. Encolheu os ombros e alongou o corpo, esticando os braços para frente e molhando os finos cabelos louro esbranquiçados, passando os dedos entre os fios, em seguida. Pegou o sabonete e começou a lavar-se, vagarosamente, passando os olhos sobre sua própria pele. Nenhuma imperfeição, pensou ele. Ele poderia conviver com a imperfeição do mundo; mas não com a própria. Vaidade era uma das palavras que melhor o definiam, e que também, de certa forma, o atormentavam. Não gostava de sujar-se, e nunca poderia imaginar manter seu ego em seu nível satisfatório se ganhasse alguma cicatriz. Seu corpo deveria ser perfeito. Corpo e mente, do jeito que ele considerava perfeito. Ele era magro, porém forte; seus ombros eram largos e seu tronco bem definido, e a espessura de seus braços ornavam de maneira perfeitamente proporcional; não era corpulento em demasia, mas tinha músculos que lhe davam um porte elegante em seus vinte e quatro anos.

Cautelosamente esfregou a espuma pelos membros, enxaguando-os apenas colocando-os sob a água, e começou a lavar os cabelos, massageando a cabeça devagar. Após deixar a cabeça sob o chuveiro por alguns minutos, fechou o registro e puxou uma toalha, secando-se no calor do vapor que enchia o banheiro. Saiu, dirigiu-se diretamente para o aquecedor e ligou-o, vestindo frente ao armário. Passou a toalha pelo cabelo e escovou-os com os dedos – não era necessário mais do que isso para colocar os fios em seus lugares – , seguiu para a cama e apoiando-se na cabeceira, pegou o livro que havia deixado na cômoda e abriu na página marcada. Ele ficaria lendo, em silêncio, até entardecer e o sono surgir. E foi o que fez; algumas poucas horas depois, ajeitou-se sob as cobertas e adormeceu rapidamente, em seu sono pacato e silencioso como o de uma criança.
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[1] Entre oficiais do alto escalão com pouca idade, estavam Heinrich Himmler, com 33 anos quando Hitler tornou-se Chanceler; Reinhard Heydrich na época possuia apenas 29, e Walter Schellenberg apenas 23 anos de idade.

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