Feeds:
Posts
Comments

Archive for February, 2013

CAPÍTULO 19
PARANOIA
 

“He never, never forgot,

to keep his gun close enought even when sleeping”

Hamburgo, Alemanha – Ano de 1950

  

Às vezes, ele sentia como se tudo aquilo não fosse verdade. Mas era um sonho do qual nunca acordava; era a realidade que interrompia os seus sonhos de verdade. Acordou num tranco e viu-se sentado em sua poltrona, em frente à lareira de sua própria sala. O fogo já havia há muito se extinguido, e apenas as cinzas ainda queimavam suas últimas forças. O livro que estivera lendo havia caído de seu colo para o chão, aberto, e o frio que entrava pela fresta da porta do quintal lhe trazia arrepios. Por que diabos essa porta está aberta, em primeiro lugar? Levantou-se e foi até a porta do quintal, fechando-a. Por um momento, pegou-se observando um pequeno arbusto de rosas que existia em seu quintal desde que podia se lembrar. Sabia que não estava ali da primeira vez que entrara na casa, mas, por algum motivo, desde que ele havia surgido Alexis sentia-se incapaz de sequer pensar em tirá-lo dali. Aquelas flores lhe proporcionavam uma tranqüilidade estranha, e eram a visão mais agradável do quintal nos dias quentes nos quais ele resolvia sentar-se a sombra e respirar um pouco do ar fresco. Já era noite, no entanto, e as poucas rosas que sobreviviam ao outono ganhavam na escuridão uma cor muito mais sombria do que nos dias de verão. A escuridão de fora fê-lo pensar no silêncio da casa, e levou algum tempo até lembrar-se de que Vladilena havia voltado para sua própria moradia; estava, finalmente, sozinho como tanto desejou. Mas anda não me lembro quando foi que abri essa maldita porta.

Fechou as cortinas após verificar o quintal já escuro por completo. Seus vizinhos estavam em casa, sabia graças às luzes acesas nas janelas. Não os conhecia bem, mal sabia seus nomes, e nunca considerara esforçar-se para fazer amizades. Não se importava, realmente. Talvez houvesse um tempo em que o fazia, mas não se lembrava. Pegou o livro do chão e foi até a cozinha, ouvindo o silêncio tão costumeiro de sua própria morada quando se encontrava sozinho. Encheu uma chaleira com água e colocou-a sobre o fogão, pegando então a caixa de chá no armário. Sabia que se tomasse café a noite, não conseguiria dormir de maneira alguma. Apoiou o quadril na bancada e arrumou os óculos sobre o nariz, procurando a página na qual havia adormecido. Folheou, passando os olhos pelas palavras, tentando lembrar-se do que havia lido. Andava sentindo dificuldade em concentrar-se, e quando não conseguia se concentrar em sua própria leitura, sabia que algo estava muito errado. Apertou os olhos ao ter certeza de chegar em uma passagem que não havia lido. ‘A raça humana é algo monótono. A maioria das pessoas usa a maior parte do seu tempo trabalhando para viver, e qualquer pequena liberdade que sobra os enche de medo…’ [1]. Suspirou e usou a embalagem do saquinho de chá para marcar a página, deixando o livro sobre a bancada. Onde estava com a cabeça ao pegar esse livro da estante?

Ao ver o vapor subindo pela chaleira, desligou o fogo e serviu-se do chá em uma xícara, introduzindo e retirando o saquinho na água, esperando-a tingir-se. De repente perguntou-se quando fora a última vez que comera, e percebeu que não conseguia lembrar-se. Talvez tivesse sido no café da manhã. Acreditava ter cozinhado o almoço, mas não sabia o que havia sido e se havia comido. Foi até a geladeira e olhou dentro. Não havia muito; um pouco de salada, batatas, um pequeno pedaço de carne que havia sobrado do pouco que cozinhara para si. Ao menos parecia ter almoçado, a não ser que aquilo estivesse ali desde o dia anterior. Talvez devesse pegar aquelas sobras e comer algo antes de dormir, mas seu estômago o impedia de pensar em comida. Sentia cada vez menos fome, e, após algumas tentativas, notou que forçar-se a comer fazia-o sentir ânsia ou causar-lhe até dores de cabeça.

Pegou a xícara de chá e apagou as luzes de sua cozinha, subindo as estreitas escadas até seu quarto, o único da casa. O lugar não era grande. O maior aposento era a sala de estar apenas porque o grande piano de cauda assim exigia. Todo o resto era suficiente para apenas uma pessoa, uma pequena casa de dois andares que lhe dava o luxo de um escritório e até uma saleta ao lado do quarto; e era assim que ele apreciava. Morava sozinho, e cuidava de sua casa sozinho; um lugar grande demais seria apenas um grande inconveniente. Encostou a porta do quarto, deixando a xícara sobre a cômoda ao lado da cama de casal que, por algum motivo, estava em seu quarto até antes de juntar-se a Vladilena. Costumava dormir de apenas um lado, nunca ocupando o meio ou a extensão inteira da cama, mas havia se acostumado a sua largura que acabara se tornando conveniente considerando as poucas visitas que recebia. A primeira imagem que lhe veio a mente, no entanto, não foi a noiva. Pensara em ‘família’ ao sentar-se, e sua mente divagou até sua própria sobrinha. Julia.

Há quanto tempo ela não a visitava? Deve estar com seus oito anos, ou seriam mais? Lembrava-se dela claramente quando era um bebê de colo, quando havia acabado de aprender a andar, quando ele ainda visitava sua irmã em sua cidade natal. Parece que foi há dezenas de anos. As visitas de ambos os lados haviam ficado cada vez mais raras, provavelmente devido a sua posição, a sua situação delicada. Perguntou-se se estaria sentindo falta dela, da família… de sua própria mãe. Ela também estava no mesmo lugar, ali, desde que ele nascera, na casa que ele crescera. Ou, ao menos, era o que gostaria de acreditar. A casa ainda estava lá… mas pelas notícias que recebia, a mãe passava mais tempo em um quarto de hospital do que na própria casa. Pensar naquele lugar vazio, abandonado, lhe dava um aperto no peito que ele nunca havia conseguido racionalizar. Talvez seja hora de uma visita, e dessa vez, uma visita decente. Longa. Mas a vontade lhe faltava. Ou seria a coragem?

Lembrou-se de seu chá que esfriava sobre a cômoda e pegou a xícara envolvendo-a em ambas as mãos, aquecendo-se. Bebeu, deixou-a de volta, levantou-se e foi direto ao banheiro. Despiu-se e abriu o chuveiro, agradecido pela água aquecida que descia pelo chuveiro que batia em seus ombros e descia pelo seu corpo. Deixou-a molhar seus cabelos finos e seu rosto, fechando os olhos, sentindo como se o banho pudesse levar suas preocupações ralo abaixo. Não costumava funcionar, mas a sensação era reconfortante. Lavou-se, lavou os cabelos, o rosto, o corpo, os ombros, o ombro, aquele ombro. O ombro distorcido pela cicatriz, sua grande lembrança de sua maior humilhação, sempre ao seu lado, acompanhando-o. Suspirou em frustração, e enrolou-se na toalha após enxaguar-se e desligar o chuveiro. Aproveitou o vapor para se secar e foi até o quarto, vestiu-se e engoliu um de seus remédios que lhe proporcionavam um sono mais agradável. Deitou-se de seu lado da cama, virando-se de costas para o outro, e adormeceu.

A manhã seguinte acordou-o com um raio de sol em seu rosto através das cortinas. Havia dormido de costas para a janela… e acordado de frente para ela. O travesseiro do lado estava em seus braços, o cobertor emaranhado em volta de seu corpo. Não era a primeira vez que aquilo acontecia, por mais que não costumasse se mover durante o sono. Puxou o travesseiro sobre o rosto, faltando-lhe forças para levantar, e passou alguns minutos em silêncio e imóvel. Não queria de saber que horas eram, normalmente levantava-se cedo, mas a solidão lhe dava um sabor de liberdade. Conseguiu cochilar por mais alguns minutos, e foi acordado novamente com o som da campainha.

O pensamento de deixar quem quer que fosse esperando do lado de fora lhe fora tão tentador que só considerou levantar-se quando a campainha ficou mais insistente. Praguejando, levantou-se da cama e foi até o banheiro para lavar-se, irritando-se mais a cada toque. Desceu as escadas ainda em roupas de dormir e abriu a porta com uma expressão incomodada. O homem na porta lhe sorria por trás dos óculos, gesto que Alexis não retribuiu.
-Por um momento achei que tinha morrido. – disse o homem de óculos. Tinha quase a mesma altura de Alexis, e os cabelos louro areia penteados para trás com apenas alguns fios caindo-lhe sobre o rosto como franja. Trazia um jaleco branco e uma sacola de pães num braço, e um pouco de café no outro.
-Por um momento quase quis morrer. – respondeu Alexis num quase rosnado. – O que foi?

-Bom dia pra você também.
Alexis soltou um resmungo.
-Seu humor está agradável como sempre, Alexis. – disse o outro, tomando a liberdade de entrar na casa e levar a comida até a cozinha. – Imagino que a saúde esteja como sempre também, então.
-Está. Não precisava ter vindo…
-… Por mais que eu saiba que o seu ‘como sempre’ é o que a maioria das pessoas consideraria como péssimo? – Alexis não respondeu. – Você comeu ontem?
-Não sei.
-Não sabe? – o homem de óculos levantou uma sobrancelha.
-Não me lembro. Acho que sim.
-Não lem… acha que sim?
-Fiz chá antes de ir pra cama.
-Claro.
-E tomei o remédio também.
-‘O’ remédio? Qual deles?
-O de sempre.
-Deveria ter mais de um ‘de sempre’, Alexis.

Respondeu com um rosnado. No fundo sabia que deveria nutrir certa gratidão pela preocupação do amigo, que atuava ainda como seu próprio médico particular. Era, talvez, o único que Alexis poderia chamar de amigo, se é que ele também se via como tal. Se ele ainda se dá ao trabalho de vir, devo assumir que sim.
-Você não devia estar trabalhando, Erich?
-Na verdade estou desperdiçando minha folga com você. – sorriu por trás dos óculos, entregando-lhe um dos pães que havia trazido. – Coma.
-Ora, obrigado pela consideração. – Alexis apenas fitou o pão, sem dignar-se a pegá-lo. – Não tenho fome.
-Você nunca tem fome. Por isso anda cada vez mais parecido com um cadáver. Coma, que não quero te ver parar lá no hospital por inanição.

Com um resmungo, Alexis pegou o pão e mordeu-o sem vontade, enquanto Erich o observava atentamente. Mastigava devagar, com uma sensação estranha no estômago, forçando-se a colocar a comida para dentro. Talvez ele tivesse mesmo razão. Não seria bom se acabasse magro demais e parecesse ainda mais velho do que se sentia, com sua vaidade ferida. Como se não bastasse aquele horror em meu ombro. Se fosse obrigado a comer um pouco mais para manter-se em forma, como costumava fazer quando era mais jovem…

Erich pegou duas xícaras no armário e encheu-as de café, adicionando a ambas um pouco de leite fresco, e entregando uma delas a Alexis. Este, por sua vez, aceitou-a sem reclamações e bebeu. O gosto pareceu-lhe estranho, mas nada disse; estava tão acostumado a beber o café que fazia para si mesmo, que café comprado lhe parecia estranhamente artificial. Ao menos serviria para ajudar com o pão, o qual sentia cada vez mais incômodo em colocar para dentro. Puxou um dos bancos de madeira e sentou-se, engolindo o último pedaço, enquanto Erich ocupava-se com sua própria refeição. Alexis mantinha-se em silêncio, observando o vazio.
-O que tem feito? – perguntou Erich.
-Nada. – respondeu Alexis, incomodado. – Realmente, nada.
-Ainda anda trabalhando… com aquilo?
Como os ideais mudam. Ao menos, não os de Erich. Desde que o havia conhecido, ele sempre fora contra aquilo.
-Tem algo mais com que eu possa trabalhar?
-Se você ao menos tentasse…
-Tentasse não acabar preso, Erich?

O amigo olhou-o incomodado. Alexis sabia o que ele estava pensando, sabia que ele se perguntava para onde havia ido toda a força de vontade que ele já teve, quando era mais jovem, quando não se deixou vencer mesmo ao beirar o desespero. Aqueles foram bons tempos. Alexis pigarreou.
-Se eu pudesse… – murmurou para si mesmo, e soltou um suspiro longo. Virou o olhar para o lado, no lugar vazio da mesa. Ali sempre haviam dois lugares. Sempre, desde antes de Vladilena freqüentar sua casa…
-Se você pudesse, já teria feito?
Alexis ergueu o olhar para Erich. Sem responder, levantou-se e levou a xícara até a pia, enxaguando-a lentamente. Se eu pudesse, já teria matado todos que ajudaram a minha vida a se tornar esse inferno. Se pudesse. O que poderia fazer?

Erich encarou-o por um momento e levou a própria xícara vazia até a pia.
-Se tem vontade, deveria pensar em algum jeito…
-Conhece algum jeito?
-Eu nunca trabalhei com o que você trabalhou, Alexis.
Então deve ser por isso que não faz a menor idéia do quão difícil isso poderia ser. Segurou a própria língua, encarando-o. O único amigo que possuía.
-Sei que não. – respondeu, amuado.
Erich ficara por mais alguns minutos antes de retirar-se de volta a sua casa. Tem uma família, tem mais conhecidos com quem conversar. Não que estivesse inclinado a longas conversas. Alexis despediu-se taciturno, e tentara voltar a sua leitura após já ter sido tirado da cama e sentir-se incapaz de voltar a dormir. A tarde poderia ter passado tranqüila. Mas não demorara mais de algumas horas até que a campainha tocasse novamente.
E Alexis sabia quem estaria lá. E sabia que seu dia estaria arruinado.

_________________________

[1] Passagem de ‘Os Sofrimentos do Jovem Werther’, de Johann Wolfgang von Goethe. – Ich habe allerlei Bekanntschaft gemacht, Gesellschaft habe ich noch keine gefunden. Ich weiß nicht, was ich Anzügliches für die Menschen haben muß; es mögen mich ihrer so viele und hängen sich an mich, und da tut mir’s weh, wenn unser Weg nur eine kleine Strecke miteinander geht. Wenn du fragst, wie die Leute hier sind, muß ich dir sagen: wie überall! Es ist ein einförmiges Ding um das Menschengeschlecht. Die meisten verarbeiten den größten Teil der Zeit, um zu leben, und das bißchen, das ihnen von Freiheit übrig bleibt, ängstigt sie so, daß sie alle Mittel aufsuchen, um es los zu werden. O Bestimmung des Menschen!

Read Full Post »