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Archive for January, 2013

CAPÍTULO 18
OBSERVATION
 

“They were killers, he thought.

They were his best chance.”

Moscou, Rússia – Ano de 1950

  

Com ovos e café forte quebravam o jejum no restaurante do hotel, já quando o salão se encontrava praticamente vazio. Mesmo nas raras vezes que Damaran acordava cedo o suficiente para não ter de almoçar logo após sair da cama, Kyouya já estaria acordado havia horas. A ansiedade dificultava-lhe o sono, por mais que ele mesmo não compreendesse o motivo dela ainda estar lá. Imaginou que depois de boas semanas acompanhando o russo nos mais suspeitos lugares já teria se acostumado com tudo, mas não se passava um dia sem que ele descobrisse algo novo… ou alguém.

Damaran concentrava-se mais na comida, que já enchia seu prato pela terceira vez, do que em manter uma conversa. Os dois quase sempre partilhavam refeições silenciosas, o garoto por temer dizer algo estúpido, e o outro, aparentemente, por falta de interesse ou interesse maior na comida. Kyouya não sabia ao certo, mas era raro que Damaran iniciasse qualquer tipo de assunto. Eram coisas pequenas que acabavam por iniciar diálogos igualmente pequenos, e ele mais lhe dirigia a palavra quando queria ensinar-lhe algo ou quando Kyouya perguntava algo sem pensar, apenas por curiosidade. Pensou que fora o desconforto repentino que o incitara àquilo, naquele momento.
-Como foi que perdeu o olho?

O russo parou o garfo no ar e fitou-o longamente com o único olho castanho avermelhado que lhe sobrara. Kyouya encarou-o de volta, notando as feições cansadas e sombrias do outro que assim se mantinham mesmo quando ele sorria, havia reparado. O redor de seus olhos por debaixo da grossa sobrancelha cinzenta tinha um tom escuro e levemente arroxeado, de forma que quem não o conhecesse pudesse imaginar que passava noites e noites em claro. Ele franziu o cenho e soltou um suspiro longo, levando à boca um grande pedaço de salsicha com ovos.
-Que raio de conversa pra um café da manhã é essa? – perguntou ele, mastigando a comida, engolindo e novamente abocanhando o novo pedaço de ovo que trazia do garfo e cortando um naco de pão branco com os dentes.
-Eu… estava curioso.

-Longa história. – Kyouya concluiu que certamente não seria naquele momento que iria ouvi-la. Esforçou-se para procurar um novo tópico que pudesse ajudar a corrigir sua gafe, mas, para o seu alívio, foi interrompido por uma voz grave e aveludada em suas costas.
-Buon giorno, Damaran. Ti sei svegliato questa mattina presto. – riu a voz, depositando uma mão sobre o ombro de Kyouya.

O garoto virou-se, deparando-se com um homem ao menos uma cabeça mais alto que ele, mas aparentemente pouco mais baixo que o russo. Tinha o rosto alongado, de feições sérias e parcialmente coberto por uma franja espessa de cabelos castanho escuros e bagunçados que ele prendia na nuca com uma fita de veludo negro em um rabo-de-cavalo. Grossas sobrancelhas encimavam seus olhos dourados, ligeiramente apertados por seu largo sorriso. Vestia um terno marrom avermelhado, e levava no corpo uma variedade de jóias – de anéis em todos os dedos de ambas as mãos a brincos que cobriam completamente sua orelha esquerda e um broche decorado com pedras vermelhas em seu peito, ambos combinando com o relógio dourado em seu pulso. No entanto, mantinha o pescoço livre de qualquer ornamentação, com exceção de um fino lenço de seda amarrado ao redor da gola de sua camisa. Ele puxava uma cadeira da mesa ao lado para sentar-se do lado de Damaran, fazendo-o de uma forma mais leve que Kyouya imaginou que qualquer um daqueles homens poderia fazer, e cruzou as pernas apoiando as mãos entrelaçadas sobre um joelho.

-Bom dia, Andrea. – respondeu-lhe Damaran com um ligeiro sorriso, aparentemente também aliviado pela interrupção. – Ontem correu pro quarto mais rápido que de costume. – riu ele. Kyouya raramente o vira rir assim quando estava sóbrio.
-Alguns costumes nunca mudam. – riu o outro, com um sotaque forte e o largo sorriso estampado no rosto. Levou uma das mãos sobre o peito, fechando os olhos num suspiro dramático. – E que costume, é tão bom quando a noite é inesquecível assim. Mas você hoje possui uma companhia inesperada. O que é isso, comprou uma criança chinesa? Não sabia que a Zhao tinha entrado no tráfico infantil, muito menos que você teria interesse nisso.

Kyouya sentiu o sangue subir ao seu rosto, numa mistura de constrangimento e ofensa. Damaran, no entanto, começou a rir alto. Arregalando os olhos, Kyouya perguntava-se que estranho efeito que o homem dos anéis estaria causando no russo, que estendia a brincadeira. Ou ele poderia apenas ter arranjado uma maneira de se vingar por ter entrado no assunto de seu olho perdido.
-Como se algum dia eu fosse capaz de fazer uma coisa dessas. Acho que prefiro prostrar-me frente a um canhão antes de sair adotando adolescentes por aí.
O rosto do garoto estava mais vermelho que os tomates no prato.

-Pena. Seria interessante vê-lo lidar com crianças. – Andrea aproveitou a deixa para roubar uma das torradas de Kyouya, levando-a à boca. Sorriu, abanando a mão. – Sem ressentimentos, garoto. É apenas uma brincadeira, uma brincadeira. Não é todo dia que o Capo almoça com uma companhia que eu não conheço. Sinto-me traído.
-Desse jeito parece uma amante, pare com isso. É assustador. – ria o russo, levantando uma das sobrancelhas.
-É assim que se sente a meu respeito? Terei que quebrar seu coração, Capo. Não posso corresponder-lhe, não é de meu feitio. Melhor ficarmos apenas como amigos, ou terei de fugir de você.
-Amigos. – sorriu Damaran, rindo pelo nariz ao ver a expressão amedrontada no rosto de Kyouya. – E o garoto acreditou. Viu o que fez?
-Em minha defesa, digo que passo todas as noite com mulheres e tenho dezenas de testemunhas. E aí está, quando achei que ele não poderia parecer mais perturbado… – Andrea ria em voz alta e batia a mão sobre a perna, atraindo algumas atenções no salão. Ele estendeu a mão ao garoto. – Perdão, perdão. Acabei empolgando-me mais do que deveria. Andrea Cavalcanti, amigo e algo-como-um-secretário do Capo, Damaran, como quer que o esteja chamando. Venho da Sicília. E você, garoto, quem seria?

Kyouya encarou-o por alguns segundos, ligeiramente irritado por ter sido feito parcialmente motivo de chacota. Apertou a mão do italiano, mantendo o corpo reto, excessivamente formal devido ao nervosismo.
-Iwasaki. Kyouya… Iwasaki. Sou de Yokohama, no Japão… e tenho vinte e dois anos, não sou um garoto.
-Ma dai, vinte e dois. Esse aprendeu a mentir bem.
Damaran apenas ria.

-Não é mentira, não sou um garoto. – Kyouya apertava o cenho. Aparentemente, ninguém iria levá-lo a sério no primeiro contato, jamais. Andrea encarou-o por um tempo e passou os dedos pelo queixo, pensativo.
-Pensando bem, esses asiáticos parecem mesmo mais jovens do que realmente são. As mulheres tem um rostinho de criança, mas sabem bem o que fazem. – ele sorriu para Kyouya. – Mi dispiace, não era minha intenção ofendê-lo. Se está fazendo companhia ao Capo, deve ter sua importância?
Damaran respondeu-lhe com um encolher de ombros.
-Não. Só achei que um mudança de rotina seria interessante.

Kyouya fitou-o de boca aberta, incapaz de argumentar. Andrea voltava a rir.
-E como foi que se encontraram? Está longe de casa, rapaz. Posso chamá-lo de rapaz? É melhor que garoto, mas não sei dizer se já é um homem…
O garoto estufou o peito, com o rosto vermelho.
-Sou sobrinho do antigo chefe da família Inagawa, e irmão do novo. É a família que se tornará uma das maiores famílias Yakuza no meu país. Não sou uma mudança de rotina.
Andrea fitou-o por um momento e sorriu.
-Ahá. O rapaz sabe falar quando quer, muito bom. Então posso concluir que está num ambiente com o qual está acostumado?
-Algo do tipo…
-Mas mesmo assim pareceu perturbado ao saber de minhas “atividades”?
-Não estava perturbado…
-Não? Estava com inveja?
-Não!
-Você é virgem, garoto? Rapaz.

Kyouya calou-se. A expressão de Andrea foi de surpresa a pena, e ao riso, novamente. Fora Damaran quem respondeu em seu lugar.
-Manda em alguma coisa dentro da sua família? – perguntou ele, em tom severo. Kyouya sentia sua coragem esvair-se.
-Não… mas… não sou só um garoto…
-E eu não sou de família proeminente nenhuma, mas você sabe bem o que eu conquistei e o que tenho. Orgulhe-se do que conseguiu por si mesmo, não do que seus parentes fizeram ou deixaram de fazer. – Damaran serviu-se de café e bebeu o conteúdo da xícara em apenas um gole. Kyouya sentia-se, agora, mais constrangido do que irritado. Andrea interferiu.

-Vamos, Capo, não precisa tratar o garoto tão duramente. Era só uma brincadeira. Ele parece estar se esforçando se viajou meio mundo até nós, não é, rapaz? – sorriu ele, colocando a mão sobre o ombro de Kyouya. O garoto sabia que seu rosto ficava vermelho.
-Não fui duro. Apenas disse a verdade. – Damaran rasgava um pão com os dentes. – Se ele veio até aqui sozinho, é porque não está contando com a família.
Exatamente. Kyouya sentia-se envergonhado pelo fato de não ter pensado nisso antes do russo, quando colocou os pés no primeiro navio que o levava até lá. Mantendo a mão sobre seu ombro, Andrea parecia ter notado seu constrangimento.
-Vamos, rapaz, o Capo não te deu bronca. Na verdade, é um bom conselho, sabe? – ele deu-lhe um leve tapinha nas costas. – Sempre é melhor conseguir as coisas com o seu esforço. E Damaran é muito bom em ajudar nisso. Vai conseguir. Te vejo hoje a noite, Capo. – E com um aceno, o italiano afastou-se, mantendo a outra mão no bolso. Kyouya manteve-se em silêncio, e fitou o russo.
-Eu… não lembro de tê-lo visto em nenhum dos encontros.

Damaran sorriu de leve, e soltou um riso baixo. Passou a mão pelo rosto e retomou a compostura, em tom menos severo.
-Depois de menos de uma hora de festa, ele sempre vai direto para o quarto com uma mulher. Ou mais de uma. Depende do dia.
-É um colega de negócios?
-Um amigo. – respondeu Damaran. – A única pessoa em quem eu confio. Pode aprender com ele.

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