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Archive for October, 2012

CAPÍTULO 17 – FAMILY

CAPÍTULO 17
FAMILY
 

“When he saw that small figure,

he knew that those rounded eyes didn’t belong there.”

Yokohama, Japão – Ano de 1942

  

A inquietação na capital não demorou a chegar em seus ouvidos, graças a empregados curiosos que trocavam cochichos pelos corredores da mansão. Um dia, Kyouya havia dormido até mais tarde que o normal e fora acordado pelas vozes de duas das empregadas que, aparentemente, não haviam reparado que o pequeno patrão ainda não havia deixado seus lençóis. Ficou deitado em seu colchão, aproximando a cabeça da porta de correr de madeira e papel, escondido pela escuridão e em silêncio, para ouvir melhor o que era conversado.
-Foi terrível, lhe digo. Ouvi dizer que o fogo espalhou-se tão rápido…
-Quando foi que entramos nessa confusão toda?
-Não gosto de cidades, nunca gostei. Todas aquelas casas juntas, só uma faísquinha… um fogo, e lá se vai um bairro inteiro.
-A cidade não é longe daqui. Acha que podem nos atacar? Mesmo quase dentro da floresta…?
-Boba, porque iriam atacar esse lugar no meio do mato? É uma guerra, dizem, vão se importar mais com os lugares grandes e com muita gente…
-Nunca mais reclamo de ter que vir até aqui para trabalhar, ao menos deve ser mais seguro. Acha que poderíamos pedir para trazer as crianças?

Guerra? Ele não sabia exatamente o que se passava, ninguém havia lhe dito palavra. Ouvia sobre uma tal guerra, sobre batalhas, aviões, bombas. Sobre soldados do outro lado do mundo, coisas até assustadoras, mas sabia como fofocas de mulheres poderiam ser traiçoeiras. Sua vizinhança sempre fora pacífica, nada acontecia, chegava a ser entediante. A mansão abria seus fundos para a floresta, e tinha que andar uma boa distancia até encontrar alma viva. A maior ameaça que eu poderia temer aqui é meu próprio irmão. Havia se mantido o mais afastado que conseguia desde o dia que o havia visto sobre o corpo mutilado do tio, sorrindo daquela maneira que o havia assombrado por dias, acordado ou em seus sonhos. Tinha medo, medo por si mesmo e pela irmã, quem sentia-se incapaz de proteger. E esse sentimento de inépcia vinha se tornando mais forte a cada dia, chegando a angustiá-lo. Saía de casa menos freqüentemente o possível, tentava manter um olho atento em Manami, sabendo que era o máximo que poderia fazer caso qualquer idéia de fazer-lhe mal subisse à cabeça do irmão.

Por causa disso, não fazia mais a menor idéia do que o irmão poderia estar planejando ou fazendo. Teruo passava cada vez mais tempo fora de casa, e ele, dentro. Kyouya havia ouvido sobre o negócio no qual parte de sua família, o ramo principal, estava envolvida, por menos que soubesse sobre tudo isso. Sabia, no entanto, que era algo perigoso… e que não era difícil de imaginar que o irmão poderia facilmente se envolver com tal. Era esse ramo que seu tio controlava, e agora ele estava morto. Morto por Teruo, meu próprio irmão, por um motivo que Kyouya não conseguia entender por mais que pensasse naquilo. Poder, era a única explicação que poderia imaginar. Desde quando ele estava tão interessado assim em poder? Teruo nunca havia se entendido bem com o ramo principal da família, mas mesmo assim, viviam com um conforto muito acima da maioria das pessoas. Serei eu o único satisfeito com tudo isso?

Mas não era. Na verdade, nem ele estava totalmente satisfeito… mas seus motivos eram outros, e ele não podia reclamar de todo o aconchego no qual vivia. Temia o irmão, sim… mas era uma vida na qual nada lhe faltava.
… Ou talvez, apenas uma coisa.

Levantou-se da cama e ajeitou as vestes, saindo pelo lado da varanda. De pés descalços, caminhou pelo chão de madeira procurando fazer o mínimo de barulho possível. Era leve, portanto não era algo tão difícil; mas há tempos que havia percebido o quão sonora poderia ser sua própria respiração. A passos longos, esgueirou-se até o último quarto que dava para o jardim dos fundos e abriu a porta com cuidado, sentindo-a deslizar lentamente, madeira roçando em madeira.
E lá estava ela, deitada de bruços sobre o colchão, seu pequeno corpo coberto apenas por uma veste de seda branca. Em suas mãos mantinha um pequeno livro de páginas amareladas, cujas letras seus olhos seguiam lentamente, até ela notar a presença do garoto e levantar a cabeça para ele. Sorriu.
-Achei que ia dormir o dia todo. – ela puxou a coberta sobre as costas, levantando o corpo e sentando de frente para ele. – Ia começar a hibernar antes mesmo do inverno chegar de uma vez?
-Não dormi até tão tarde. Estava acordado, mas não quis sair da cama.
-Sei… ficou admirando a madeira do telhado? Com os olhos fechados? – riu ela, ajeitando com os dedos uma fina mexa de cabelo para trás da orelha. Ele não tinha palavras para descrever o quanto gostava de ver aquele sorriso em seu rosto, por mais que o visse todos os dias. Ela sempre conseguia sorrir na pior das situações, e por vezes ele havia imaginado se ela não se forçava a isso para confortá-lo. E esse era um tipo de força que Kyouya desejava ter para poder retribuir a ela.

-É verdade, estava acordado. – disse, apertando o cenho.
-Eu sei, bobo. Estava brincando com você. – ela riu e colocou a mão sobre seus cabelos, bagunçando-os e jogando-os pro rosto. Kyouya apertou os olhos e abaixou a cabeça.
-Fiquei ouvindo as empregadas conversando. Sobre a guerra.
O sorriso de Manami se esvaiu.
-Também ouvi. Não gosto das fofocas. – suspirou ela, puxando a gola da veste. – Está com medo?
-Não sei. É difícil ter medo de fofocas sobre algo que não conseguimos ver.
-E tem medo de chegar a ver, um dia?
Kyouya não respondeu por um momento.
-Não. Se a guerra chegar aqui, podemos ter alguma chance.

Manami respondeu-lhe com uma piscadela. Ela sabia muito bem ao que ele se referia, por mais que nenhum dos dois ousasse dizê-lo em voz alta. Teruo. O irmão ficava cada vez mais obcecado pelos negócios do tio, pelo poder, por ocupar o lugar que ele mesmo havia vagueado em segredo. O tio estava morto. Como herdeira tinha apenas uma filha, agora adolescente. Teruo era o homem mais velho da família em condições de liderar, e era o que ele pretendia fazer. Por mais que alguns homens ainda apoiassem a garota, – corriam rumores dela ser mais habilidosa e astuta do que muitos lideres da família já haviam sido – uma mulher, sozinha, dificilmente ganharia o posto. Kyouya a havia conhecido na única vez que se encontraram. Não conseguia lembrar-se bem de seu rosto, mas lembrava-se dos longos cabelos negros que chegavam-lhe ao quadril. Talvez ela tivesse se tornado bastante bonita. Em vez dessa guerra constante com a família, Teruo poderia apenas tentar ganhar sua mão… mas eram primos, e Teruo aparentemente não possuía qualquer desejo de dividir a liderança com uma mulher de caráter forte o suficiente para reunir o apoio de parte da família.

-Gostaria de ajudá-la. – suspirou ele, falando consigo mesmo.
-Como?
Percebendo que havia se perdido em pensamentos, Kyouya voltou a encarar Manami, e sorriu-lhe.
-Nada… não é nada. – Ele não queria que ela se envolvesse demais nisso tudo, e o que mais desejava era poder tirá-la dali o mais rápido possível. Manami era sua irmãzinha. Não. Era mais do que uma irmã. Ele já sabia há tempos que não eram irmãos de verdade, uma das melhores descobertas que já havia feito, e sentiu-se tão aliviado quando soube… aliviado de não precisar refrear seus próprios sentimentos, aliviado por saber que o que sentia não era errado. Aliviado por saber que, um dia, poderia ser correspondido sem medo, sem nada para ameaçá-los. Ele era apaixonado por ela desde os primeiros anos que ela passou na casa, e ele sabia que ela também sentia algo por ele.
Ela novamente respondeu-lhe com um sorriso, delicado, leve, um sorriso tranqüilizador. No entanto, acabou não surtindo efeito sobre ele, por culpa de apenas um pensamento que vinha atormentá-lo.

Teruo também sabe. Teruo também a deseja.

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Algumas novidades!

Oi, pessoal! 

Faz tempo que o blog não ganha uma atualização, né? É culpa minha mesmo, mal vi os meses passarem e acabei me ocupando com outras coisas, além de ter dado uma travadinha no capítulo seguinte por vários motivos… que incluem a criação de váaaarios capítulos que devem vir só bem mais pra frente, assim como pequenas histórias extras que não necessariamente vão se encaixar no plot principal. ><‘ Pois é, acabei renegando a linearidade da história (que já não é escrita linearmente XD) pra epifanias e inspirações repentinas que me vieram, mas tenho que dizer que vai ser pro melhor. :3 

E foi exatamente por causa desses textos… que resolvi abrir um novo blog, o GR-Vergangenheit! O nome vem da palavra ‘passado’ em alemão e é bem auto-explicativo: ele vai consistir de histórias passadas, beeem passadas de cada personagem, além de cenas que não entram na história principal e até mesmo textos que focam mais em personagens secundários que temi não poder retratar como eles, na minha cabeça, mereciam. ;3;’ Acho que isso vai deixar a publicação mais frequente e me deixar mais animada pelo fato desses textos ficarem só no meu computador forever and ever. XD  

Ando meio parada, mas quero muito dar um pontapé pro projeto de GR ir pra frente um pouco mais rápido. O último ano de faculdade vai dificultar grandes avanços, mas quero me esforçar, pelo menos, em nome do apego crescente pelos personagens. Quem sabe o que pode surgir até o final do ano? :3

 

Muito obrigada de coração a quem acessa o blog e até a próxima!

~Anna

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