Feeds:
Posts
Comments

Archive for July, 2012

CAPÍTULO 16
SCHUSS INS SCHWARZE 

“His wish for power was infinite,

and his reasons were his strenght.”

Białystok, Polônia – Verão de 1941

  

Aquela fora a primeira noite que ele conseguira dormir satisfatoriamente. Alexis demorava a acostumar-se com lugares novos, ainda mais considerando o asco que sentia pelas pessoas que sabia terem ocupado aquela casa até então. Mas tomou as medidas necessárias para deixar o lugar suficientemente limpo para o curto período de tempo que teria de passar lá. Os quartos foram limpos, os banheiros desinfetados e toda a roupa de cama havia sido trocada. Da comida, não sobrava muita dos antigos inquilinos; tudo havia sido alterado para melhor se adaptar ao conforto do oficial. Um motorista e um carro haviam sido colocados ao seu dispor sob seu requerimento, e alguns soldados ainda o acompanhavam no dia-a-dia para sua necessidades – o que não eram muitas. Durante seu tempo livre, não precisava de mais do que um bom livro e água quente para banhar-se. A limpeza pessoal e o exercício intelectual eram as coisas que ele mais apreciava para si mesmo, além do reconhecimento. Detestava sentir-se sujo, e não havia nada que odiasse mais do que ignorância. Desprezava pessoas que se limitavam à mediocridade, que se prendiam a futilidades desnecessárias, que se satisfaziam com respostas prontas sem sequer refletirem um mísero segundo sobre o sentido que aquilo fazia… ou não. Deviam buscar o crescimento pessoal, acreditava ele. Não acomodar-se debaixo de ordens, de dogmas, de ‘porque é assim’ e ‘porque alguém quis’. Havia aprendido que muitas pessoas preferiam viver abaixo de outros, seguindo ordens sem questionar, a se dar ao trabalho de decidir por si mesmas. Precisavam de alguém dizendo o que deviam ou não fazer, o que é certo ou errado, pois pensar por si mesmo aparentemente era demasiado trabalhoso. E isso o irritava. A falta de iniciativa o aborrecia, a complacência com respostas fáceis o enfurecia.

Não havia nascido em uma família abastada. Possuíam a mesa sempre servida, mas nunca foram capazes de dar-se a luxos. Alguns dias, a sopa do jantar era mais rala ou o café da manhã, apenas pão; não havia se acostumado a receber presentes grandiosos em seu aniversário, mas sim passá-los com um bolo feito pela mãe e alguma pequena lembrança de família dada pelo pai. Aprendeu a tocar piano e violino com o avô, depois com o pai, sempre usando instrumentos antigos da família e, quando podiam, pagavam um professor vez ou outra. No entanto, treinava sozinho na maior parte do tempo, acompanhado de sua força de vontade e de sua paixão pela música. Ele e a irmã sempre tiveram de dividir um quarto até ele ser capaz de mudar-se para a universidade que freqüentou, onde pode receber uma educação de qualidade e economizar graças ao seu próprio esforço em manter uma bolsa de estudos pelo seu ótimo desempenho. Havia se formado com sucesso em história, outro de seus maiores interesses, e queria seguir a carreira, por, na época, nada agradá-lo mais do que o reconhecimento de sua inteligência; mas o falecimento precoce do pai e a conseqüente despesa por causa da saúde da mãe o obrigaram a empregar-se o mais rápido que conseguira. Fora assim que havia entrado para o partido, para o exército, para aquilo.

Subir não havia sido difícil. Nunca fora um homem que se contentava em ficar em seu lugar. A disposição para melhorar e a ambição já estavam há muito instaladas em seu caráter, e ele não poupava esforços para tal. Faria o que fosse necessário, fosse arriscar a vida ou até… matar. Havia aprendido o grande prazer que muitos viam nisso. O reconhecimento colocava-o acima. O domínio fazia o mesmo, mas também colocava outros para baixo. Era um prazer momentâneo, mas havia se acostumado com a idéia de apreciá-lo, ainda mais que, de certa forma… era uma desculpa para livrar-se pessoalmente daqueles que considerava detestáveis.

No entanto, não estava ainda preparado para morrer. Não por covardia; mas ainda havia uma pessoa, uma única pessoa que lhe importava, que ainda precisava dele. E ele não estava disposto a abandoná-la assim. Iria arriscar-se, sim. Mas iria prender-se à vida com garras e dentes, não importava que tipo de situação desesperadora fosse colocado. Não importava que guerra teria de lutar.

A pequena reunião de oficiais que havia se passado alguns dias antes e para a qual havia sido convocado e levado até aquele lugar tinha o objetivo de informar os soldados sobre os russos com quem dividiam o território, e prepará-los para a entrada na Bielorússia e o avanço a Moscou. [1] O exército do Centro iria comandar o ataque sob comando do Marechal Von Bock [2], e o Wehrmacht se encarregaria de continuar o avanço. Será essa a minha chance de mostrar do que sou feito, pensava Alexis. Ainda mais considerando o que havia ouvido por aí. Os rumores de um novo coronel ainda mais jovem que ele, discreto, de poucas palavras mas com um histórico de vitórias, o incomodavam. Orgulhava-se de ter um posto alto antes dos trinta, e não queria um eslavo qualquer roubando-lhe os louros. Ele lutar pelo outro lado é uma vantagem, dizia a si mesmo. Não preciso de uma desculpa para matá-lo com minhas próprias mãos.

Von Bock era um homem alto e magro, já em seus sessenta anos. Possuía os finos lábios típicos da raça, e a feição severa, com o cenho levemente apertado sobre os olhos claros. Era alguém com quem Alexis sentia-se capaz de simpatizar. Apesar de ligeiramente arrogante e não particularmente brilhante, era um homem com determinação e seriedade. Não se dava a reações exageradas ou eloqüências como alguns outros; assim como Alexis, seu senso de humor era seco e ele limitava-se a apenas sorrir. Estava, de certa forma, aliviado em poder trabalhar com ele e estar longe dos bufões do partido. Havia tido uma oportunidade de falar-lhe a sós antes do desjejum, e, apesar da conversa ter sido rápida, havia lhe deixado com algo sobre o qual ponderar por algum tempo.
-Você é conhecido do nosso Reichsführer, não é? – havia perguntado o Marechal, logo após as introduções. – Além de dentro da hierarquia, digo.
-… Sim. – respondeu Alexis, um pouco surpreso por ele saber sobre isso. – Desde quando era mais novo… – o homem era apenas 15 anos mais velho do que ele, e haviam tido algum contato desde que Alexis era apenas um garoto, e ele, um estudante em Munique. O pai daquele que eles agora chamavam de Reichsführer, o senhor Gebhard Himmler, havia trabalhado na universidade, e esse contato sempre havia influenciado Alexis em todo o seu interesse acadêmico.
-Você é da Bavária?
-Não, senhor. Nasci em Frankfurt. – disse Alexis, respeitosamente. – Mas tive a oportunidade de visitar o lugar algumas vezes.
-Bom. Sei que a universidade por lá é muito boa. – ele abriu um sorriso leve na expressão severa. – Partilha a opinião dele? Sobre eles, quero dizer.

Alexis ficou em silêncio por um momento.
-Imagino que todos partilhemos, senhor.
O homem fitou-o.
-Apenas por compartilhar, ou possui seu próprio motivo…?
Ah, isso. Alexis sabia que havia quem tivesse apoiado a causa apenas por ver vantagens, e não por odiar aqueles povos propriamente ditos. Mas ele não era de aceitar opiniões alheias dessa maneira.
-São arrogantes. – começou ele. – Chamam-se de povo escolhido, mas para quem não acredita em tais bobagens, são apenas sem-terra incapazes com um ego maior do que podem carregar.
-Alguns dizem que eles sofrem por terem descumprido sua ‘missão’. – sorriu o Marechal, cinicamente.
-Sofrem pois nem todo mundo tem paciência para agüentar arrogância não justificada por tempo demais. – E quem acha justificado, parece acreditar que devem sofrer de qualquer forma.
-E quanto aos outros? O que acha deles?
-Se aproveitam de nossos bens sem pagar nada. Enquanto alemães pagam impostos, eles andam em nossas ruas, bebem da nossa água, ocupam nossas cidades e sujam nossas praças. Não contribuem e ainda têm a audácia de roubar. Incomodam, invadem nosso país e não se dão ao menor trabalho de mostrar gratidão… não fazem nada além de perturbar.
Mas isso vale também para os párias que infelizmente já faziam parte daqui, mas matá-los ainda é ilegal. Um passo de cada vez. O Marechal pareceu ponderar por alguns segundos antes da próxima pergunta. Passo a mão pelo queixo e olhou Alexis nos olhos.

-E nós, Alexis? O que acha do ‘nosso’ povo escolhido?
Por um momento, Alexis fitou-o sem dar resposta. Aquilo já havia lhe passado pela cabeça, claro. Mas nunca gostara de chamar a si mesmo de ‘escolhido’. Ninguém o havia escolhido para nada, ninguém havia traçado seu caminho, ninguém. Ele decidia por si mesmo, ele fazia o que achava melhor, ele escolhia seu próprio destino. Ele sabia a responsabilidade que tinha por suas ações e não ia, jamais, tentar aliviá-la colocando a culpa em mais ninguém. Homem ou o que quer que fosse. Isso era para fracos, isso era para pessoas sem coragem de tomar suas próprias decisões e arcar com as conseqüências. Sou soberano sobre mim mesmo e não há quem meta dedo em meu caminho.

-… Não fomos escolhidos por ninguém, senhor. Nós mesmo tomamos a iniciativa. Fomos escolhidos por nós mesmos para lutar por nossa própria causa, e pela de ninguém mais. Ganhando ou perdendo, vai ser por nosso próprio mérito e o de mais ninguém.
O mais velho sorriu novamente.
-A nossa própria causa dos homens, Reinhardt?
-Não há nenhuma outra além da dos homens, senhor.
A resposta parecia tê-lo satisfeito. Alexis sempre preferira prezar pela sinceridade, não era um homem de mentiras e lisonjas. E isso agradava a quem lhe era importante. Quem precisava de bajulações baratas e sorrisos falsos não recebia seu respeito, apenas a cortesia padrão com a qual se trata um superior.
Aquele fora, no entanto, o fim da conversa. Alexis estranhou não receber perguntar do porquê de estarem espalhando a sua faxina para fora, até, do território que era a antiga grande Prússia menos de um século antes. A Rússia, por exemplo, era apenas uma ambição de conquista… e agora, para Alexis, a oportunidade de encontrar um rival.

Além das obrigações como militar, ocupava-se também com rápidas visitas aos locais onde mantinham os indesejáveis. O país não lhe despertava curiosidade para sair em passeios turísticos, e muito menos seria completamente seguro. Por mais dominados que estivessem, os habitantes ainda resistiam. Alguns, e apenas uma minoria, sim. Mas resistiam, aparentemente sem medo de parar num gueto ou sem a menor noção do que lhes aconteceria se, por acaso, ferissem – ou matassem – um oficial. Alexis, algumas vezes, pensava que preferia quando eles realmente lutavam. Significava que não se satisfaziam com a condição de oprimidos, que juntariam forças para conseguir o que queriam. E esse momento seria o momento de ver quem era mais forte.

Os guetos espalhavam-se por todo o país, assim como os campos de trabalho ou extermínio. Ele havia visitado alguns no caminho, trocado algumas palavras com os que ali trabalhavam, visto como as coisas estavam por ali. Em geral, não havia grandes diferenças com os quais já havia visto, e apenas ajudava no ‘serviço’ quando precisava aliviar algum tipo de tensão ou quando a vontade lhe vinha. No entanto, havia já algum tempo que resolvera reservar seu ócio vespertino para apreciar a própria companhia com um livro sobre a cama, prevendo os dias duros e sem conforto que se seguiriam à sua entrada na Rússia. Seus olhos corriam pelas letras, sentenças e linhas, pelas páginas e capítulos. Lia sobre a fraca luz da pequena lâmpada de cabeceira, após assegurar-se de tomar um banho e limpar os dentes antes de deitar-se, e, alguns minutos depois, caíra no sono sobre os lençóis recém lavados e o travesseiro afofado. Sonhara com uma distorcida batalha de terra, fumaça e aço. Sonhara com soldados correndo, atirando, morrendo. Com homens que reuniam seu último pingo de coragem para lutar pelo seu pais.

Pela nossa causa, e pela de ninguém mais.

_________________________

[1] A batalha refere-se à batalha de Białystok, operação estratégica militar alemã do grupo Centro durante a penetração da fronteira soviética na abertura da Operação Barbarossa, que durou de 22 de Junho a 3 de Julho de 1941. O objetivo de cercar as forças do exército vermelho em Minsk foi cumprido, e todas as tentativas soviéticas de contra-ataque, falhas. O Wehmacht foi então capaz de capturar uma grande quantidade de prisioneiros de guerra e avançar para dentro da Rússia de forma que quase era crível que os alemães sairiam vencedores da guerra.

[2] Fedor von Bock (3 de Dezembro de 1880 – 4 de Maio de 1945) foi um Marechal do exército alemão, que doutrinava os soldados para ‘morrer pela patria’. Foi apelidado ‘Der Sterber’ (‘aquele que morre’) e é conhecido pela operação Tufão, uma tentative falha de tomar Moscou no inverno de 1941.

Read Full Post »