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Archive for June, 2012

CAPÍTULO 15
RISE 

“One step at a time

leads a man to his simplest ambitions.”

Moscou, Rússia – Ano de 1941

  

Tudo naquela cidade era novo para ele. Ainda mais os bares. Ele queria aproveitar aquele pequeno momento de calmaria que lhe fora concedido, e sentiu que poderia, enfim, andar pela cidade e beber até sentir-se alto. Pela primeira vez havia sido colocado em um quarto de hotel decente, e não nos rústicos acampamentos militares nos quais ele havia dormido desde a mais tenra idade; o relativo sucesso na mais recente batalha e em outras campanhas pequenas permitiram a ele um posto de Tenente-Coronel. Naquela noite, após voltar de um almoço de oficiais durante o qual não pronunciara mais que meia dúzia de palavras, resolveu que vagaria pela cidade grande e procuraria um lugar agradável para embebedar-se. E foi assim que encontrara aquele recinto; um bar pequeno, espremido entre prédios de comércio, rústico e escuro, construído em madeira velha com o nome pintado numa tábua em tinta desgastada. O degrau na entrada rangeu sob suas botas e a porta soltou um silvo pelas dobradiças quando ele a abriu. Dentro, uma única lâmpada funcionava eficientemente, acima do balcão, e algumas que piscavam fracamente ajudavam a iluminar os cantos mais distantes. Os móveis de madeira era velhos marcados com queimaduras de cigarro, cortes de canivetes e com a umidade dos milhares de copos que nelas já haviam sentado, e apenas três homens davam a graça de sua presença àquele horário. Uma dupla sentava-se ao redor de uma mesa dividindo uma garrafa já quase vazia, e conversavam em voz baixo. No balcão, um homem mal-vestido debruçava-se sobre um copo vazio que apertava entre os dedos. Já estava obviamente bêbado havia muitas doses, mas resistia bravamente ao peso de seu próprio corpo e recusava-se a cair sob efeito do álcool.

Damaran sentou-se na outra ponta do balcão, lançando ao bêbado apenas um olhar de soslaio. Gesticulou para o barman, que ocupava-se em secar os copos e guardá-los dos armários, e logo foi servido de um copo de vodka. Vodka do povo, forte, nada refinada, vagabunda. Mas exatamente do tipo que ele gostava. Nunca foi muito dado à frescuras quando o assunto era comer e beber. O primeiro gole desceu aquecendo-o e os outros mantiveram sua garganta quente, e ao parar para suspirar percebeu que o homem do balcão o estava observando. Desviou os olhos rapidamente e empurrou o copo vazio para o barman, mas já era tarde. O homem sorria para ele por trás do emaranhado acinzentado que era a barba que lhe cobria o rosto, e aproximava-se arrastando as sujas mangas do velho casaco surrado que trajava pelo balcão. O odor de álcool chegou ao nariz do militar junto do de suor e imundice, mas não era isso que o incomodava. Era o desconhecido que vinha fazer contato que, a Damaran, parecia ainda menos que desnecessário.

-Ei. Senhor, o senhor. Gosta de boa vodka, eh? Eu vi o que pediu, é das boas.
Não é, não. Só gosto delas assim. Ele já havia experimentado a ‘boa vodka’, e não achou grande coisa. Damaran tentou fingir que não havia percebido que o velho lhe falava, mas o bar vazio não o ajudava em nada.
-O senhor é jovem, não é? – ele soltou um riso alto, com uma baforada malcheirosa de álcool pela boca. – Tudo bem, comecei a lhe chamar de senhor, vou continuar. Vê, sou um homem educado. Respeitoso. Quantos anos tem?
O soldado evitou responder durante algum tempo, mas viu que a longa pausa não faria com que o bêbado desistisse de incomodá-lo.
-Vinte e quatro… – respondeu, sem olhar para o homem.
-Ora, mas é quase uma criança! – Damaran olhou-o com o cenho apertado. – Não, não quero lhe faltar com respeito. Senhor. De maneira alguma, vejo que já é um homem feito apesar da pouca idade! Trabalha para o governo, senhor? Vejo que está, digamos assim, ricamente limpo. É um fidalgo de Stálin?

Damaran não sabia exatamente o que responder a isso. Também não sabia exatamente o que a palavra ‘fidalgo’ significava. Mas de alguma forma o homem lhe soava insolente. E não estava nem perto de ‘ricamente limpo’. Sabia que cheirava a cidade e a suor, apesar de não chegar nem perto do odor do velho.
-Sou… um soldado. – disse em voz baixa, curta e friamente. Passou os dedos pela borda do copo, voltando a desviar o olhar. O homem abriu-lhe um sorriso.
-Um soldado! Oh, sim, eu era um oficial, sabe. Fui um homem que recebeu boa educação. Ah, aqueles tempos, os tempos do Czar. Pouco antes de você nascer, se tem pouco mais de vinte. Eu era jovem, mas acreditava que iria subir na vida. Consegui um bom emprego, por algum tempo, me lembro bem… – ele gesticulou por mais um copo de vodka para o barman, que o serviu resmungando. A cada palavra, O homem aproximava o rosto do de Damaran conforme criava intimidade, e se afastava rapidamente, rindo em rosnados. – Conheci minha senhora naqueles tempos. Era de uma família boa. Coisinha maravilhosa, ela era. Pena que nosso romance durou pouco. Os tempos mudaram, e agora os jovens estão diferentes… ainda me lembro dela, sinto falta dela, como sinto.

Damaran limitou-se a concordar com a cabeça, ouvindo-o. O militar sentia-se incrivelmente impotente perante àquele estranho discurso. Queria que ele parasse, mas não sabia como pedir isso. E, aos poucos, mais pessoas adentravam o bar conforme a noite caía, aumentando o ruído ao redor dos dois e, conseqüentemente, fazendo com que o velho elevasse a voz. O rosto de Damaran tornava-se cada vez mais vermelho à medida que ele continuava a tagarelar sobre a ex-esposa, sobre uma possível vida de luxo, sobre a universidade que dizia ter freqüentado, enquanto o mais jovem apenas mantinha-se em silêncio.

-Diga-me, tem uma senhora? Uma senhorita, no seu caso? Deve ter, não é possível que nunca tenha ido para a cama com esse porte todo! – riu ele, de forma escandalosa. Os rostos virando-se em sua direção deixavam Damaran profundamente constrangido. – Prefere que tipo? Jovens? Mais experientes? Para uma relação longa, ou…?
-Eu… – gaguejou Damaran, encarando o bêbado com os olhos escancarados. Cada pergunta daquelas fazia-o pedir mais um copo de bebida. Já tinha dormido com uma, duas, três e muitas mais mulheres, garotas, prostitutas, todos os tipos, até… Mas nunca havia anunciado para estranhos da maneira que ele parecia querer que fizesse.
-Esse velho louco pega uma vítima diferente a cada dia! – berrou um dos homens na mesa que havia escutado a conversa desde o início, com a paciência claramente esgotada. – Não precisa ligar pra ele, rapaz. A maioria apenas o ignora. É inofensivo.

Rapaz? Por um momento, Damaran sentiu-se de volta ao seu tempo de garoto no meio dos oficiais. Mas, agora, era um desses oficiais. Não que o homem precisasse saber; mas pensar que não era só um ‘rapaz’ fazia-lhe bem.
-Eles me ignoram! – choramingou o bêbado, levantando as mãos sobre a cabeça. – Vê, meu bom amigo? O mundo está cheio de pessoas cruéis! Mas você, eu sei, você é um bom homem, tenho certeza. Que acha de dividirmos uma garrafa? Sei que gostaria, vi o que bebeu. Tem bom gosto…
-E lá vai ele! – soltou o outro homem na mesa, com uma gargalhada de escárnio. Mais homens ao redor riram com ele. – Vê o que ele faz? Vai sair daqui com uns bons rublos a menos na carteira, rapaz, se continuar a ouvir o tolo.
Damaran abriu a boca e lembrou-se que, provavelmente, não poderia tratar aqueles homens como tratava os de seu batalhão. E percebeu pela centésima vez como tinha pouco jeito para tratar com pessoas de fora do exército. Costumava trocar palavras com soldados, com superiores, e com mulheres que serviam para satisfazê-los. Mas nunca com muito tato. O velho apenas usou o seu silêncio para pedir a garrafa de vodka, e apontar o dedo para a mesa dos dois.

-Vocês invejam dois bons homens educados conversando! Ah, Deus, a ignorância do populacho! A falta de respeito!
-Cuidado com a língua, velho. O cão sarnento da vaca gorda da minha senhoria é mais educado que você! – riu o homem, batendo o copo na mesa. – Ei, soldado, prepare-se! Essa garrafa vai sair do seu bolso!
-Veja como ele fala! Não o escute, meu bom senhor. Veja, aqui, beba. Beba pelo seu sucesso, eu irei pagar por esta!
-Não tem um tostão nos bolsos, seu velho senil.
-Como sabe disso se não vê dentro de meus bolsos, homem?
-A vizinhança toda sabe. É mais famoso do que imagina, oficial!
O bar explodiu em risos. Aqueles que já riam, passaram a rir em voz alta, e aqueles que apenas escutavam desinteressados acompanharam em coro. Damaran começava a sentir-se ainda mais desconfortável, mas não sabia dizer se era por estar naquela situação ou se apiedava-se pelo pobre velho, que agora virava motivo de chacota. A única reação na qual conseguiu pensar foi de levantar-se, e fora uma idéia terrível. Agora, olhavam para ele tanto quanto olhavam para o velho.

-Viu, velho? Ele levanta-se para partir! Quantos mais vai ter de aborrecer até deixar de enganar os viajantes?
-Ah! Senhor, o senhor não levanta-se para sair, não é mesmo? Não se enfurece ao ver como esses trastes tratam um homem de bem?
-Diga-me onde está o tal homem de bem, e hei de tratá-lo com respeito! – o riso continuava pelo salão, e mais gente se juntava aos insultos e às brincadeiras. O rosto de Damaran estava num tom de vermelho escuro pela vergonha, e o velho pegava a garrafa que havia lhe dado e bebia direto do gargalo.

-Bruto! – praguejou ele, limpando a boca com a manga suja do casaco. – Vilão ignorante, terrulento, vil! São todos filhos de uma puta imunda, todos que riem! Riem de um homem de bem, ah! – argumento algum além de insultos lhe haviam restado, para sua infelicidade. Por um breve momento, fez-se um silêncio seguido pelo arrastar de cadeiras dos homens menos pacientes, que começavam a xingar e avançar contra o velho, puxando-o pela gola. E em pouco tempo, não era uma briga que envolvia apenas aqueles dois lados, mas quase todos no bar brigavam entre si. Uma garrafa arremessada erroneamente fez um homem desmaiar e seus companheiros irem para cima do agressor; uma pancada não intencional com o cotovelo deixou o nariz de outro sangrando e seu dono enfurecido; e rapidamente o caos instalou-se dentro do bar. Damaran viu-se em meio a ele, entre a multidão, o velho que tentava escapar para trás do balcão e um barman em desespero por seu estabelecimento. Os homens que primeiro se levantaram puxavam o velho pelo casaco, rasgando-o ainda mais e empurrando Damaran para o lado. O barman tentava expulsá-lo para defender seus copos e garrafas, já ameaçados o suficiente pelos objetos que voavam sobre as cabeças, e ele defendia-se a chutes e tabefes que raramente funcionavam.

Sem pensar muito, Damaran enfiou-se em meio a multidão achando que o melhor a se fazer seria sair daquele lugar o mais rápido que pudesse. Protegeu-se com os braços e abriu caminho na base dos punhos e dos cotovelos, sem se importar com quem quer que estivesse ferindo no caminho. Um homem segurando uma garrafa quebrada quase o acertou, mas o soldado fora mais rápido. Deixou que a garrafa apenas raspasse por sua manga e puxou o braço de seu agressor, levando-o ao chão e lá deixando-o, sem olhar para trás. No entanto, os gritos do velho obrigaram-no a virar o rosto.
-Senhor! – berrava ele, sem esperanças de sair da situação que se encontrava. – Senhor, ajude-me! Por obséquio, eu…! – um punho atingiu-o no rosto, e os gritos pararam. Naquele momento Damaran sabia que o velho estava, pelo menos, inconsciente. Mas isso não fez com que os homens que o espancavam parassem.

Continuam espancando-o mesmo sem que ele possa reagir. Não gostava daquilo. Sabia como era sentir-se impotente, sem forças, e sem que ninguém tivesse piedade por ele… abriu caminho pelo meio do bar, novamente, desta vez mais atacando do que apenas se defendendo. Era alto e largo, tinha força nos grossos braços. Sabia brigar e tinha tamanho para tal. Conseguiu levar dois ou três homens ao chão, deixar narizes sangrando e dedos quebrados até conseguir chegar novamente até o balcão. Agarrou dois pelo cangote dos casacos, arremessando-os para trás com toda a força que conseguira reunir. Para o terceiro, bastou fechar o punho e levantá-lo para que ele soltasse o pobre velho inconsciente, amedrontado, e esgueirar-se para um canto do bar. Damaran colocou o velho no ombro, prendendo a respiração por causa do cheiro, e rodeou a briga pela parede do bar. Ainda teve de acertar um ou dois, mas conseguiu chegar até a porta e sair de uma vez por todas.

Quando se deu conta do absurdo que fizera para salvar um desconhecido, um velho malcheiroso que agora deitava em seu ombro, os pêlos de sua nuca eriçaram-se e seus dedos se retorceram. O cheiro do bêbado ficara ainda mais forte quando ele encontrava-se assim tão próximo, e o contato físico daquele homem o deixava desconfortável. O que deveria fazer agora?
Não podia deixá-lo na sarjeta, começava a fazer frio. Mas não sabia onde ele morava, nem quem eram seus amigos, nada. Achou melhor largá-lo em frente a algum hospital, e arrastou-o durante algumas centenas de metros pela rua, na escuridão. O fedor o deixava nauseado. Deu graças quando avistou o hospital e arrastou-o para a porta, ali deixando-o. O velho não soltou nada alem de um silvo. Ao menos, estava vivo. Bateu no vidro da entrada e chamou a atenção de uma enfermeira. Contou-lhe o que havia acontecido, deixou um pouco de dinheiro para seus cuidados e seguiu seu caminho. O que quer que aconteça agora, não é mais problema meu. Fiz o que pude.

No final, mal tinha bebido uma garrafa inteira. Suas roupas fediam, seu humor para passar a noite bebendo havia se esvaecido. Pensou que seria melhor simplesmente voltar para casa, para o seu quarto que lhe tinham reservado. Seria bom passar o resto da noite descansando, ou…
Ele olhou pro lado, e seus olhos encontraram os de uma mulher morena, com os cabelos arrumados em grossos cachos e a boca delineada em batom vermelho escuro. Ela sorriu para ele, aproximando-se jogando o quadril de um lado para o outro conforme andava, e tocou com os dedos brancos sobre seu braço. Ela exalava um suave aroma floral, e parecia limpa e educada. Uma dessas costumava sair caro… mas aquela noite, ao menos aquela noite de folga tinha que valer à pena. Ele sorriu para ela, segurou em sua mão… e a levou para dentro de seu quarto, para cima de sua cama, por entre seus lençóis.

A noite seria, ao menos, minimamente memorável. Satisfatória. Algo que o deixasse com o humor bom o suficiente para, na manhã seguinte, receber um comunicado para que preparasse seu batalhão para partir para a Polônia.

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CAPÍTULO 14
CONSCIENCE 

“A mind that never rests

resides in a man that never forgets.”

Hamburgo, Alemanha – Ano de 1950

  

Alexis acordara naquela manhã como se não tivesse dormido em absoluto. Sua cabeça pulsava, seu corpo doía e ele sentia os olhos arderem. Esfregou-os e olhou para as cortinas, apertando a vista para o feixe de luz que entrava por entre elas. Já havia amanhecido, mas ele não sabia que horas eram. Suspirou e virou-se para o outro lado, observando o sono da bailarina que, sem mover-se, suspirava baixo sob as cobertas. Ele encarou-a por um momento, sem mudar sua expressão de absoluta indiferença. Ela ficava mais bela sem toda a maquiagem que usava, pensava ele. Já havia dito isso a ela, mas lembrava-se apenas dela sorrir e voltar a arrumar-se. Sem nada dizer, ele apenas havia suspirado e saído do quarto sem dizer mais nenhuma palavra. Já se fora o tempo no qual ele possuía paciência de argumentar com quem não estivesse disposto a ouvi-lo.

Passou as mãos pelo rosto, erguendo o corpo, ainda com sono mas se sentindo incapaz de dormir por mais tempo agora que o sol já iluminava parte do quarto. Esfregou as têmporas respirando fundo e levantou-se, deu a volta na cama e entrou no banheiro do quarto. Lavou o rosto com água gelada, sentindo um alívio indescritível – a primavera havia trazido um calor que o agoniava apenas de imaginar como seria dali a alguns meses. Deixou a água correr por um momento, mantendo as mãos em concha sob a torneira e encostando a face sobre elas. Tateou pelo sabonete e esfregou as mãos, lavando-se, e secou-se com a pequena toalha branca pendurada ao lado. Olhou o reflexo de seu rosto no espelho e parou por um breve momento.

Passou os dedos pelo rosto, pelos lados de seus olhos, procurando por falhas que não queria realmente encontrar. Puxou a pele levemente, observando se haveria alguma grande diferença, e suspirou achando melhor parar antes de frustrar-se ainda mais. Não estava tão velho, convencia-se. Não havia nem chegado aos quarenta, por quantas experiências ruins precisaria passar para se preocupar com a idade e a aparência àquela altura? Não, pensou consigo mesmo. Não há nada de errado. Sua vaidade não permitia que ele aceitasse a possibilidade de estar envelhecendo tão rápido. Ainda estava em boa forma; talvez não a melhor, mas, ao menos, satisfatória. Mas seria ‘satisfatório’ o suficiente?

-Olha só… normalmente quando eu acordo, você já está na cozinha com tudo pronto. Não é que hoje te peguei procurando por rugas? – riu a voz atrás dele, jocosa. Alexis virou-se.
-Acordou mais cedo que o normal. Queria mesmo me ver fazendo isso?
-Queria. – respondeu Vladilena, sorrindo. Ela foi até ele e deu-lhe um leve afago nas costas. – Você fala da minha maquiagem, mas anda morrendo de preocupação com a idade… não fica assim. Você fica mais bonito com a idade. – riu ela, despindo-se e entrando no chuveiro. Ele a encarou por um breve momento e suspirou, escovou os dentes e desceu para a cozinha sem mais uma palavra sequer.

Entrou e abriu o armário procurando por algo que pudesse transformar em um café da manhã decente. No entanto, encontrou-o praticamente vazio; havia algum tempo que não fazia compras e a viagem acabou atrasando-o. Amaldiçoou o próprio trabalho e subiu de volta, pegou um pouco de dinheiro, sua arma no coldre e um casaco para escondê-la não obstante o calor que começava a fazer, e saiu de casa após deixar um bilhete na mesa da cozinha. Iria num dos poucos mercados que ainda sobraram da guerra e havia conseguido se restabelecer satisfatoriamente, e, com um pouco de sorte, ainda conseguiria encontrar produtos em condições razoáveis. Ia quase sempre a pé, pois isso o ajudava a pensar. O ar da cidade durante uma caminhada, apesar desta não estar em sua melhor aparência, era mais agradável que dentro de um veículo qualquer e fazia-o sentir-se melhor – e a proximidade com o mar ajudava. Não sentia obrigação moral nenhuma de ser simpático com estranhos, portanto, era só ignorá-los e refletir sobre o que fosse que ele sentisse necessidade de fazê-lo.

Virou a esquina da rua onde morava e caminhou por apenas mais alguns minutos até o mercado. Sem demorar-se, colocou o que interessava em uma cesta, com a sorte de ter encontrado alguns pães frescos e as prateleiras ainda razoavelmente cheias, pagou tudo no caixa sem muita conversa e retomou o caminha de volta à casa. Comprara apenas o que poderia carregar, para não se aborrecer durante a caminhada. Outro dia compraria mais, quando tivesse certeza que passaria um bom tempo sem sair de casa. Mas, no momento, sentia que essa paz ainda estava longe de vir. E estará longe durante, pelo menos, alguns bons meses.

-Morangos, senhor?
Aquilo o havia pego de surpresa.
-Não. Obrigado. – Alexis levou a mão ao peito, aliviado por não ter dado um salto na frente da garota. Nem sequer olhou-a nos olhos.
-É barato, senhor… um presente para a senhora sua esposa?
A pergunta forçou-o a encará-la, incrédulo. Processava mentalmente se deveria levar aquilo como sarcasmo, como zombaria, ou como a pergunta inocente de uma jovem vendedora de morangos que nada sabia.
-Estou com pressa. – rosnou ele, retomando seu caminho. Esperava que a garota não fosse tão insistente quanto ele era teimoso.
-Uma boa tarde para o senhor… – ela se limitou a responder, com a voz baixa, sem ousar segui-lo.

Alexis esperava tanto que ela fosse insistir mais, que chegou a surpreender-se com aquilo. Ao olhar sobre o ombro, viu que a garota procurava seu próximo cliente em potencial, deixando-o em paz após a dura recusa que recebera. Talvez dura demais. Havia se tornado ainda mais frio com o passar dos anos, e não se importava. Não estava disposto a se esforçar para ser gentil, e nem tinha mais paciência para tal. Tratar com pessoas nunca havia sido sua especialidade, de qualquer forma, e que lhe importava como uma vendedora de morangos se sentia? Se ela for inteligente o suficiente, também não se importaria. Deve receber grosserias no mínimo diariamente.

Mas talvez… não sabia se deveria ou não agradar Vladilena com os morangos. Ela iria gostar. Certamente iria, mas… por algum motivo estranho, não sabia se deveria mimá-la mais. Ela era mimada, e gostava disso, no entanto ele nunca fora o tipo de homem que traz presentes a cada saída. Só… e se fosse apenas essa vez…?

Ele olhou sobre o ombro mais uma vez, vendo a garota mais ao longe. Com um suspiro longo, deu meia-volta e foi até ela a passos rápidos, pegando algumas moedas no bolso. Sem abrir a boca, entregou-lhe as moedas e pegou um pequeno cesto dos morangos que ela levava, ajeitando-o no braço sobre a sacola do mercado. Agradeceu num resmungo e virou-se, retomando seu caminho, sem importar-se que a garota estendia-lhe a mão por ele ter-lhe dado moedas a mais. Deixou-a encarando suas costas por alguns segundos, sem ver o ligeiro sorriso que ela lhe dirigia, e, apenas por um breve momento, imaginou se isso teria mesmo sido o melhor a se fazer. E resmungou sozinho que se ele mesmo havia decidido que era melhor assim, então era, e ponto.

Passou o resto do caminho tentando pensar em outra coisa, sem grande sucesso, e subiu os degraus até a porta. Tentando equilibrar as sacolas e a cesta de morangos, pegou a chave desajeitadamente no bolso da calça e entrou. Foi direto para a cozinha, onde Vladilena o aguardava frente à uma xícara morna de café com leite, e deixou as compras sobre a bancada da pia.
-Comprou morangos?
Ele não respondeu e apenas passou a cesta para ela, deslizando-a sobre a bancada.
-Comprou pra mim? – ela voltou a perguntar com aquele sorriso infantil no rosto, apoiando o queixo sobre as mãos. Alexis olhou-a com o canto dos olhos e suspirou, balançando a cabeça afirmativamente.
-Achei que fosse gostar. – ele disse friamente. E ela sabia que ele dificilmente lhe daria resposta mais carinhosa que aquela.
-Gosto. Muito. Obrigada.
Ele confirmou com a cabeça e abriu os armários, guardando tudo que havia acabado de comprar exceto por um par de ovos, grãos de café e um saco de pão, enquanto ela saboreava lentamente um dos morangos apertando-o entre os lábios. Ela riu quando sentiu o sulco escorrendo por seu queixo, e limpou-o com a mão, lambendo os dedos.

-Não quer? – ofereceu-lhe um dos morangos.
-Não. Obrigado.
-Estão bem doces.
-Pode comer todos.

Vladilena riu pelo nariz, encolheu os ombros e voltou a entreter-se com as frutas. Ela sabia muito bem que a ele não agradavam tanto assim coisas doces demais. Não que não gostava, exatamente, mas ele lhe havia dito uma vez, após muito esforço, que não sentia vontade de comer qualquer coisa açucarada. Apenas comia quando lhe era dado, e só. Talvez ele prefira algo amargo como ele mesmo, pensava a mulher, rindo-se internamente. Alexis a fascinava sempre que tentava analisá-lo, e relacionar as coisas ao seu ego fazia a brincadeira ainda mais divertida. Amargo, salgado, azedo como ele mesmo. Ele realmente só gosta de si mesmo. E isso não a magoava. As pessoas obviamente amargas eram melhores do que as doces demais. Pessoas doces não eram como açúcar. Este sempre seria doce, mas as pessoas normalmente só o eram por fora. Talvez como aqueles morangos, ponderou. Morangos sempre pareciam doces, mas, muitas vezes, eram azedos.

E o homem mais azedo que havia conhecido lhe trazia doces morangos.

Alexis entregou-lhe um prato com ovos mexidos e pão amanteigado, junto de uma xícara de leite. Ela sorriu para ele ao ver a comida, e observou-o deixar a louça toda na pia antes de sentar para comer com ela. Sua refeição resumia-se a uma xícara de café concentrado.

-Não vai comer de novo?
-Não tenho fome.
-Vai ganhar uma dor de estômago depois. – riu ela.
-Não me importo. – o que era uma dor de estômago perto dos problemas que inundavam sua mente e não ajudavam em nada a melhorar seu humor?

Vladilena encolheu os ombros, pois a partir do momento em que lhe havia avisado, não considerava mais ser problema seu, e começou a comer devagar. Vez em quando dirigia uma olhadela a Alexis, que quase nunca a percebia. Estava ocupado demais olhando pela janela, como se divagasse. Mas ambos sabiam bem o que se passava naquela cabeça sob aqueles finos cabelos louros. Preocupação. Insatisfação. Todas as possibilidades que queria realizar, mas não podia, não tinha meios… ainda.
Pois não iria parar de pensar naquilo até achar uma solução que o satisfizesse.

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