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Archive for March, 2012

CAPÍTULO 13
TRUST 

“He would have to prove himself worthy,

in order to finally get to know that man.”

Moscou, Rússia – Ano de 1950

  

Damaran chamou-o com um gesto de mão, e ele não tinha muita opção fora obedecer. Era a primeira vez que o convidava a sair junto dele, que o deixava seguí-lo para fora do hotel desde que havia aceitado-o como aprendiz alguns dias atrás. Dias durante os quais trocaram poucas palavras, e encontraram-se para uma refeição silenciosa duas ou três vezes. E algo que o garoto pôde notar fora que o russo sempre desaparecia para algum lugar após o jantar, e nunca acordava a tempo para o café da manhã que era servido deveras prematuramente naquele hotel. Na verdade, só conseguia vê-lo durante o almoço, ou mais tardiamente. E, agora, havia finalmente descoberto o motivo.

Prostrava-se frente a uma casa de madeira, velha, relativamente mal cuidada, mas incrivelmente iluminada em vermelho e amarelo. De dentro ouvia risos, gritos… e gemidos. Por mais que houvesse música em algum lugar do salão, as janelas abertas dos quartos no segundo andar delatavam sem pejo o que se passava ali. E, por mais inexperiente que fosse, era até próximo do que Kyouya havia imaginado quando deixaram o hotel. Mas ainda era a primeira vez que ele chegava tão perto de um prostíbulo, e o constrangimento estava estampado em seu rosto. Damaran, que o esperava com um pé através da porta, observou-o até cair no riso.
-Que cara é essa, garoto? Ninguém te contou o que acontece por aqui a noite? – riu ele, com uma mão no bolso e outra segurando aquele grosso charuto fedorento de que ele tanto gostava. – Vem, não me faz perder o meu tempo. Quem sabe não aprende mais do que eu imaginei que fosse aprender.

Kyouya olhou para o russo em um quase desespero, franzindo as sobrancelhas enquanto ele entrava e vendo-se sozinho, observado. Reuniu sua coragem e segurou o ar, e seguiu-o para dentro apenas para quase engasgar-se com o cheiro forte de álcool e nicotina. Apertou os olhos para enxergar, dentre as luzes, a névoa e o movimento, os homens fumando e embebedando-se enquanto mulheres semi-nuas dançavam, beijavam, sentavam em seus colos dando-lhe de beber… e flertavam para depois levá-los aos quartos. Damaran encontrava-se já próximo ao balcão do bar, com o charuto entre os dentes e rublos em mãos. Cumprimentou alguns poucos que lá se encontravam, que pareciam não apenas participar da baderna mas também, de alguma forma, administrar o que acontecia ali, e gesticulou por um copo de vodka. O garoto espremeu-se por entre as pessoas, receoso de tocar em qualquer um e acabar metendo-se em problemas e sentindo-se levemente enjoado pelo forte cheiro, para conseguir alcançar o balcão e colocar-se ao lado de Damaran – que parecia, no momento, a opção mais segura. O russo sorriu para ele com o copo em mãos, a bebida já na metade.

-Você parece nervoso. – riu ele.
-Eu… como? É que eu estou nervoso… – respondeu o garoto, levemente irritado. O russo sorriu, voltando a beber de seu copo, virando até a última gota.
-Não precisa ficar bravo, como eu ia saber que nunca tinha vindo num lugar desses? Não me disse que já tem mais de vinte anos?
-Eu… tenho, mas ainda assim, nunca vim. – Kyouya levou a mão à nuca, encabulando-se. – O que isso tem a ver com o que eu te pedi…?
-Se quer ser meu aprendiz, tem que agüentar pelo menos isso. Ao menos três vezes por semana. É sério que nunca veio? O que há de errado com você?
“O que há de errado com vocês todos”, respondeu Kyouya apenas mentalmente. Ele já tinha o rosto todo vermelho, mas continuava fitando o russo nos olhos com uma expressão de completa absurdidade. A falta de resposta fez Damaran rir novamente.
-Esse lugar… – começou ele, batendo o salto da bota contra o chão de madeira. – É meu. Essas mulheres que você está vendo, aqui, são minhas. O dinheiro que recebem aqui vai em parte pra mim, em parte pra quem cuida daqui… e em parte para a manutenção. Ou bebida… como preferir chamar. E aqueles homens… – ele apontou para um grupo que, apesar de todos terem copos ou garrafas em mãos e um ou outro terem uma mulher ao lado, mantinham-se mais atentos que os outros. – São os que cuidam das mulheres daqui. Pra elas não saírem, não roubarem… ou pra evitar que qualquer palhaço acabe fazendo alguma coisa que não devia com elas.

Kyouya olhou-os durante algum tempo e balançou a cabeça positivamente, engolindo em seco. Queria saber o que exatamente ele queria dizer com ‘alguma coisa que não devia’, mas não ousou pronunciar-se; apenas imaginou que era alguma coisa que pudesse prejudicar os negócios. Damaran sorriu para ele, já acabando o segundo copo de vodka e pedindo mais um, e gesticulou para alguém ao longe.
Um homem baixo, em seus vinte e poucos anos, mantinha-se quieto e observador até ser chamado pelo russo. Levantou-se e se aproximou, respeitosamente, sem interromper nada ao redor. Tinha os cabelos ruivos bagunçados, o rosto magro e olhos verde-oliva que demonstravam, mesmo naquele lugar, uma calma inabalável. Vestia-se humildemente com um colete surrado e uma camisa com as mangas dobradas, mostrando as tatuagens em seu braços esquerdo. Uma serpente enrolada em uma espada, e os pequenos símbolos nas mãos e nos dedos. Tatuagens de prisão. Kyouya olhou-o durante algum tempo, enquanto ele cumprimentava Damaran respeitosamente, e logo reparou que estava sendo encarado de volta.

-Bóris… – Damaran gesticulou para o homem, apontando Kyouya. – Esse é o garoto de quem te falei. Tem como dar uma volta com ele e explicar mais ou menos como as coisas funcionam por aqui?
-Sem problema algum… – respondeu o outro, olhando o garoto de cima a baixo e levantando uma sobrancelha. – … Lá em cima, também?
-Lá em cima, sim… ele tem idade o suficiente. Só vai precisar de experiência no tranco… – riu Damaran, dando um tapinha leve nas costas de Kyouya. – Depois pode trazer ele pra mim de volta, que ele vai aprender a beber direito também.
-Sim, senhor… – respondeu o ruivo, ainda hesitante e achando difícil acreditar que o garoto era mais do que uma criança. Ele gesticulou para Kyouya e colocou as mãos nos bolsos, caminhando por entre as mesas e pessoas, indo para os fundos do lugar. Kyouya o seguiu após olhar para Damaran uma última vez, que apenas sorriu e levantou o copo em um gesto de ‘boa sorte’.

Por detrás do bar, as coisas acalmavam-se um pouco e os risos eram abafados pela grossa porta da madeira que separava os ambientes. Lá atrás, havia uma pequena cozinha – que necessitava de uma faxina – onde duas mulheres fumavam seus cigarros perto da janela e esperavam qualquer coisa dentro de uma panela batida ficar pronta para poderem comer entre suas aventuras sexuais com estranhos; ao lado, um homem saia de um banheiro de tamanho razoável, mas que parecia enxotado de produtos de limpeza que Kyouya duvidava serem usados muito freqüentemente; um almoxarifado ao lado guardava todo tipo de objeto que poderia vir a ser usado, e, finalmente, havia o local onde as bebidas eram guardadas. Por um momento lhe pareceu ser o mais limpo aposento desde que havia entrado naquele lugar; mas fora apenas impressão. Apesar da euforia que se passava no salão, era um lugar razoavelmente apresentável, e o bar fazia jus à fama que Damaran parecia ter. As garrafas estavam arrumadas na estante, e os copos enfileirados nos armários, sem manchas visíveis no vidro. O balcão estava limpo e os bancos em boas condições, aparentemente perfeitos… para se fazer negócios enquando apreciavam uma bebida.

Bóris explicava-lhe algumas coisas com a voz baixa, quase nunca fazendo contato visual; mas Kyouya não se importava. Achava que era melhor desse jeito, também, por estar realmente desconfortável na situação em que se via. Ainda achava difícil entender o porquê de estar ali, e começava a desconfiar que Damaran estava brincando com ele e só queria ver qual seria a sua reação. E se isso realmente fosse verdade, estava perdendo seu tempo de uma maneira bastante constrangedora. Constrangedora… mas, ao menos, relativamente fácil de entender. Era um prostíbulo, forçava-se a lembrar a cada minuto; a hierarquia era simples, o funcionamento, uma vez explicado, também. Os homens tinham que controlar as mulheres, o dinheiro que entrava era dividido entre eles, elas, a bebida… e o cabeça. Resumindo tudo, era assim que funcionava… superficialmente.
Subiram ao segundo andar, e os gemidos vindo dos pequenos quartos ao redor do corredor estreito pelo qual Boris seguia deixavam o garoto profundamente incomodado. As portas estavam fechadas, mas ainda assim ele sentia-se invadindo a privacidade de alguém. Uma privacidade estranha, de cuja as mulheres não pareciam fazer questão, e nem os homens que não tivessem nada a esconder. Era quase como se as coisas estivessem se invertendo, e aquele ambiente se tornasse o invasor para Kyouya… uma sensação deveras estranha. Naquele momento, Boris falou ainda menos do que antes. Ele não parecia se incomodar, já deveria estar acostumado. Mas a impressão era de que ele não tinha nada a falar sobre tudo aquilo, que nada precisava ser dito. E realmente, dispensava explicações. Era simplesmente sexo, dinheiro, um romance falso de uma noite e que poderia se estender e trazer outras conseqüências… mas para Damaran, era um negócio. Sexo por dinheiro. Simples.

Após apenas alguns poucos minutos, Boris dirigiu-se novamente para a escada de madeira que rangia a cada passo e desceu. Kyouya o seguiu, atento, ainda tomando cuidado para não esbarrar em lugar algum. Tinha aquela sensação de que não devia tocar em nada para manter sua integridade. No entanto, quando Kyouya virou-se para o bar, pensando que finalmente poderiam voltar para o hotel, encontrou Damaran quase deitado sobre uma poltrona mais ao fundo, com o casaco ao lado e a camisa aberta… e com uma mulher de cabelos castanhos em seu colo, que vezes lhe dava de beber direto do gargalo de uma garrafa e vezes beijava-o devagar. Ele correspondia e sorria pra ela, e ela dava-lhe de beber novamente quando ele levava a mão à sua cintura e a apalpava. E a cena se repetia algumas vezes enquanto Kyouya prostrava-se no lugar, ainda tentando entender o que se passava ali.

Foi apenas quando a vodka da garrafa acabou que Damaran finalmente deu-se conta da presença do garoto. Sorriu apoiando-se nos braços da poltrona, ergueu o corpo devagar e sussurrou para a mulher em seu colo, que olhou para Kyouya e riu com a mão sobre a boca. O russo levantou-se com ela lentamente, sendo amparado pela poltrona, e o garoto teve certeza de que ele já estava bêbado. Suspirou.

-Se divertiu…? – riu ele, com bem menos compostura do que tinha quando entraram. Mantinha o casaco sobre o braço, e fechava a camisa com alguma dificuldade. Kyouya franziu-lhe o cenho.
-Não, mas vi que o senhor aproveitou bastante…
-Não precisa me chamar de senhor… – riu Damaran, apoiando o braço sobre os ombros do garoto. – Que cara é essa? Ficou nervoso?
Kyouya desacreditava que ele realmente estava lhe perguntando aquilo.
-Estou. E não sei bem o que era pra eu ter aprendido com isso tudo.
Damaran sorriu maliciosamente, apoiando os braços no bar.
-Depois você vai entender… agora, que tal uma bebida?

O garoto olhou-o durante alguns segundos e suspirou. Começou a achar que não havia muito sentindo em discutir com aquele homem que, já não lhe dando atenção sóbrio, jamais ia levá-lo a sério depois de litros de vodka.
-Não quero, obrigado. Por que… me trouxe até aqui? Sinceramente?
O russo sorriu para ele, vestindo o casaco.
-Porque não é qualquer um que eu deixaria me acompanhar depois de quase três garrafas de vodka… – riu Damaran, observando a expressão de surpresa no rosto do garoto que, após hesitar por algum momento, finalmente sentou-se ao seu lado.

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