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Archive for February, 2012

CAPÍTULO 12 – AMBITION

CAPÍTULO 12
AMBITION 

“And there was his brother,

Smirking calmly with blood on his hands.”

Yokohama, Japão – Verão de 1940

  

Ele não sabia ao certo se deveria arrepender-se amargamente de ter seguido o irmão, ou se ter visto tudo poderia ter sido uma descoberta positiva para si mesmo. Mas tinha certeza de que não seria nada bom se fosse descoberto por qualquer um que fosse. Manteve as mãos sobre a boca, segurando a respiração o melhor que podia, mantendo-se encolhido dentro daquele armário com cheiro de bolor. Achava curioso como o ar parecia capaz de emitir um som tão alto nesses momentos. Não ousava mexer um único músculo para fora da sombra nem fazer um único ruído, por mais que quisesse correr para casa. E absolutamente, não tirava os olhos da cena que sua curiosidade lhe trouxe.

Pela pequena fresta entre a porta e a coluna de madeira, Kyouya observava os homens com lâminas em mãos, admirando o resultado do trabalho daquela noite. O chão e as paredes tingiam-se de vermelho escarlate, que tornava-se quase negro na escuridão da noite. O garoto via a forma de um corpo inerte sob as cobertas encharcadas, um corpo que seu irmão rondava como uma hiena faminta e com o sorriso de satisfação mais assustador que ele já havia visto em toda sua vida. Eram poucas as vezes que via uma expressão como essa naquele rosto sempre sereno, com aquele sorriso que transmitia uma calma estranha. Os outros dois que o acompanhavam, diferentemente, colocavam-se um de cada lado, sem nada dizer mas sem sinal algum de arrependimento. Teruo, que parecia ser o líder do grupo, parou o movimento após alguns segundos e começou uma risada baixa, assustadora, cheia de desprezo. Colocou o pé sobre o cadáver ao qual ele mesmo havia desferido o golpe fatal, apertando-o de forma que o sangue quente molhava seus dedos e fazia o estômago do irmão mais novo embrulhar. Não obstante, ele simplesmente não conseguia deixar de olhar aquilo.

-Ora… ora… – ria ele, empurrando e puxando o corpo com o pé descalço. – Isso foi mais fácil do que eu imaginava. Foi fácil demais, tio. O senhor não devia confiar na sua família, sabia…? Pelo menos, não na parte da família pra qual o senhor nunca deu importância. Eu te disse, não disse? Que eu era mais do que vocês imaginavam que eu podia ser…? – ele estourou numa risada baixa, estreitando os olhos para o morto. Os outros homens ainda mantinham-se quietos, e um apenas levantou a espada para limpar o sangue que escorria pela lâmina.
Kyouya sentiu um arrepio correr pelo seu corpo e abraçou-se, encolhendo os ombros. Nunca tinha sentido tanto medo de sangue de seu próprio sangue, de sua família, como naquele instante. ‘Ele vai me matar’, pensou. ‘Se ele me descobrir, aqui, vai me matar. Eu não posso morrer. Não quero, não agora…’ Ele segurou a respiração e fechou os olhos, finalmente, encolhendo-se e abraçando as pernas. E esperou. Esperou, até que tudo ficasse em silêncio.
-Senhor Teruo. Se nos demorarmos mais, alguém pode aparecer… – disse um dos homens, de repente, em tom grave. Teruo olhou-o sem expressão por alguns segundos, e sorriu.
-Alguém, não é…? Tem razão… tem razão… isso não seria bom. Mas é claro… que eu posso confiar em vocês pra não falarem pra ninguém, não é mesmo? – respondeu ele, sorrindo gentilmente e aproximando-se de cada um dos homens. Ambos se entreolharam.
-Sem dúvida alguma, senhor. – disse o segundo, embainhando a espada.
-Ótimo. Porque se eu algum dia desconfiar… acabam como ele. – apontou o cadáver, alargando o sorriso de forma que seus olhos ficassem ainda mais estreitos. – Entendido?
-Sim, senhor. – exclamaram os dois respeitosamente, corrigindo a postura e mantendo os braços esticados ao lado do corpo. Teruo continuou sorrindo.
-Agora, vamos embora. Que isso fique como uma traição interna… ou um mistério. Vamos, saiam… eu não demoro. Preciso apenas resolver uma última coisa sozinho.

E assim, Teruo ficou sozinho no quarto, observando os dois sumirem de sua vista. De costas para Kyouya, ele apoiou a mão na porta de papel, e suspirou. O mais novo abriu os olhos novamente ao ouvir o silêncio, e voltou, silenciosamente, a observar pela fresta. O irmão ainda estava ali, olhando para o jardim fora do quarto do assassinado.
-Kyouya… – cantarolou ele, sem virar-se. Kyouya sustou-se, sentindo seu corpo gelar de cima a baixo. Não soltou um único som, e apenas arregalou os finos olhos castanhos. Não era possível que tivesse sido descoberto.
Teruo soltou um riso baixo, novamente, ainda olhando para fora do quarto.
-Kyouya… não me diga que não está aí. Pra me deixar falar sozinho assim, como um louco… eu sei que você me seguiu, sabe? Onde está escondido? Eu sabia que cedo ou tarde, você iria me seguir… andava grudado demais, eu percebi isso. Acompanhando cada passo meu pra ver onde eu iria escorregar…? Vamos, Kyouya, saia. Não vou lhe fazer mal, você sabe… irmãozinho. Bom, não parece estar no jardim… – suspirou ele, e virou-se para dentro do quarto.

Kyouya podia jurar que seus olhos haviam se encontrado; mas não conseguiu sair do lugar. Continuou quieto, observando, atento, amedrontado.
-… Hm. Talvez você realmente não esteja aqui, não é…? Saiu correndo depois do primeiro corte? O que, e agora me faz dialogar com o morto. Isso não é certo, sabia? Mas se não está aqui… talvez seja melhor que eu me cale. De qualquer forma… – riu ele – se for me esperar sair, saberei que esteve aqui ao chegar em casa. Não pretende chegar antes de mim, pretende? Para esbaforir-se e inventar qualquer desculpa… bem, paciência. Cedo ou tarde vamos nos encontrar… enquanto isso, posso me divertir com a nossa irmãzinha.

Kyouya inclinou o corpo para trás, horrorizado. Ele não deixava passar um único detalhe, sabia como tirar o que queria de qualquer um… Kyouya sabia que era mais fraco, e nem de longe tão inteligente quanto o irmão mais velho. Abriu a boca para falar, mas sua voz não saia. E não ousava sair. Lhe faltava coragem, ele tinha certeza de que seria morto… mas ele tinha algo a proteger. Apertou os olhos, sem mais poder ver a silhueta do primogênito, e reuniu bravura para, finalmente, empurrar a porta e levantar-se. Apenas para deparar-se com o quarto vazio, o corpo no chão… e o silêncio. Seu irmão já havia deixado o lugar… e se dirigia para casa.
O garoto parou no lugar durante alguns segundos, apenas para sentir o pânico crescer em seu peito. Puxando o ar com força, saiu pela porta em disparada, enfiando-se entre as árvores pelo atalho que conhecia, correndo o mais rápido que se lembrava em toda sua vida. Os galhos enroscavam-se em suas roupas e cortavam seu rosto, e não tinha mais chance alguma de esconder de Teruo que havia visto tudo o que ele havia feito. Mas havia deixado de se importar consigo mesmo no momento em que a irmã fora mencionada. Aquela criatura pequena, magra, que nunca nada havia feito… mas que acabara servindo para Teruo como uma maneira de controlar o irmão mais novo. Pois ele sempre soube que Kyouya nutria por ela um sentimento muito mais forte do que com ele, e isso o mais velho não poderia perdoar. Com a vestimenta em trapos e os pés arranhados, o fôlego acabado e o rosto sangrando, entrou correndo na casa onde estavam hospedados pelos fundos e abriu a porta de madeira e papel com uma força que nunca soube que tinha.

Apenas para deparar-se com a irmã, que o olhava em silêncio, piscando os olhos negros como o ébano. Vestia um kimono de verão branco e leve, e tinha os cabelos grossos presos por uma fita. Ela ajoelhava-se frente a uma mesa baixa, com um pedaço de papel colorido nas mãos e esfregava os pés miúdos um no outro. Kyouya hesitou por um momento, encarando-a, caiu sobre o tatami e apoiou as mãos, finalmente deixando-se respirar.
-E… o Teruo…?
A garota demorou a responder e apenas levantou uma sobrancelha.
-Ele não chegou ainda… o que você foi fazer que chegou assim, todo… todo?
Kyouya não respondeu. Não poderia responder, não agora… agora, tinha que conseguir ajeitar-se antes do irmão chegar. Jogou o corpo pra trás, sentando-se e apoiando as mãos no chão, e suspirou em alívio. Ao menos havia chegado antes e ela estava lá, do lado dele, onde ele poderia ver. Dane-se o que pode acontecer comigo, pensou. Só não queria que o irmão fizesse nada a ela. No entanto, nesse momento, ouviu a porta do lado oposto do quarto se abrindo e, dela, surgindo aquele que menos queria encontrar – e recebendo ambos com o sorriso caloroso de sempre, que faziam seus olhos parecerem ainda menores e que lhe davam a feição de uma raposa.

-Kyouya… Manami… – começou ele, aproximando-se. – O jantar está pronto, nosso tio fez o favor de nos preparar um banquete maravilhoso. Venham antes que esfrie… ah, Kyouya, o que é isso? Está em trapos, melhor se trocar e cuidar desses cortes antes de aparecer em público. Seria uma vergonha para mim e para nossa irmã se resolvesse vir assim… não é, Manami?
-Não. – respondeu ela, firme, franzindo o cenho para o mais velho. – Pra mim, o Kyo não é uma vergonha… mas… melhor cuidar desses machucados, não é…? – prosseguiu ela, baixando o olhar e dirigindo-o a Kyouya, que pode sentir que ela havia entendido bem que algo estava errado. – Eu vou ajudar ele, não ligo se a sopa esfriar. Pode ir, Teruo-nii…
[1]

O sorriso desapareceu do rosto de Teruo por um breve momento, mas ele logo recompôs-se. Chegou mais perto e colocou a mão magra sobre a cabeça da garota, agachando-se e apoiando o outro braço sobre a coxa.
-Certamente, Manami-chan, certamente… como pude dizer uma coisa dessas de nosso querido irmãozinho, não é mesmo? Pois bem… esperarei por vocês na sala de jantar. Tentem não demorar. – Ele rangeu os dentes ao concluir a frase.
O tom de voz de Teruo ao acabar a frase fez com que Manami se arrepia-se, mas ela sempre se recusava a demonstrar. Balançou a cabeça positivamente, devagar, sem mudar a expressão. O mais velho sorriu e levantou-se deixando o recinto dando uma última olhada fria em Kyouya. Os dois no quarto se entreolharam e o silêncio reinou por um momento, após o qual a garota levantou-se e puxou o irmão pela mão.
-Vem… isso deve estar doendo, tá sangrando. Vai infeccionar…
-… É… – respondeu ele, levantando-se e indo com ela. Sentia a pequena mão da garota tremendo levemente, e preferiu calar-se. Depois, quem sabe, poderiam conversar sobre o que Kyouya havia visto… mas, naquele momento, ambos pareciam assustados demais para tal.

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[1] -Nii – Sufixo do japonês usado para referir-se a irmãos mais velhos de maneira respeitosa, ou, neste caso, ainda infantil ou feminina.

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