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Archive for December, 2011

CAPÍTULO 11
DIPLOMACY 

“Too many people around him made him unconfortable,

but he’d do anything to get what he wanted.”

Berlin, Alemanha – Janeiro de 1939

  

Alexis olhava mais para o relógio em seu pulso do que para as faces de qualquer uma das pessoas lá dentro. Após observar o ponteiro mover-se por alguns segundos, ele elegantemente arrumava a manga de sue farda e colocava os braços por trás das costas, olhando sobre a multidão – e caminhava normalmente, em direção à janela. Ousava dar alguns passos na para a saída ou mesmo para a varanda, mas era freqüentemente interrompido e, esboçando um sorriso consciente, cordialmente trocava algumas poucas palavras com aqueles que o abordavam. ‘É bom vê-lo por aqui’, diziam eles. ‘Na minha época, um jovem como você não tinha chances de chegar aonde chegou’ – algo com o qual ele respondia com um aceno de cabeça, um sorriso amarelo e um sarcasmo eminente na voz.
-São novos tempos. – e retirava-se com a desculpa de que precisava ajeitar-se no lavabo. Só para ser novamente interrompido em seu caminho.

Diplomacia em demasia o aborrecia. Em sua casa, passava horas sozinho durante as quais entretia-se com um bom livro, ou praticando em seu piano ou com seu violino. Se o tempo começasse a se tornar longo demais, entediava-se e simplesmente ia cuidar de seu trabalho. E o caminho oposto também ocorria. No entanto, viagens longas e eventos sociais eram trabalhosos demais. Especialmente quando ele, ainda considerado um novato por não ter sido parte de tudo desde o início, era obrigado a conhecer e passar seu tempo introduzindo-se a todos aqueles homens que, no fundo, guardavam um ligeiro desprezo por sua posição e por sua idade. Não era o único jovem a ganhar um posto elevado [1], mas era sem dúvida um dos que possuíam menos idade. De certa forma, amaciava-lhe o ego saber que era invejado; mas toda a falsidade da situação o incomodava. Sempre preferiu elogios sinceros, e podia sentir o sarcasmo que seguia durante ou após as conversas, quando aqueles homens juntavam-se com seus companheiros mais próximos e olhavam-no pelas costas. Mas fosse dentro ou fora, o mundo estava cheio de hipócritas. Ao menos lá dentro, algumas opiniões poderiam ser dadas com sinceridade. Algumas.

Após algum tempo, conseguira aproximar-se da porta, pegar seu casaco e sair. Segurou-o próximo ao pescoço ao vesti-lo, sem abotoar, e desceu os degraus frente a casa onde a pequena celebração se passava. Ao olhar para o lado, via os motoristas jogando bolas de neve uns nos outros, como crianças finalmente livres da vigília de seus pais. Não se importava. Eram apenas motoristas; eles sequer o tinham visto, ou teriam recuperado da rigidez e batido continência no mesmo momento. A passos lentos, afastou-se em direção ao vazio, parando sob uma árvore e apoiando o ombro sobre sua casca gélida. Com um longo suspiro, encheu os pulmões do ar frio que o circulava e, arrepiando-se, puxou a gola de sua farda para cima, protegendo-se. E pensou que, apesar de não apreciar eventos daquele tipo, estava satisfeito. Satisfeito com seu trabalho; havia subido mais rápido que muitos e era respeitado, tinha sua autoridade. Com sua vida; tinha uma casa apenas dele, ajudava sua mãe quando ela precisasse – após a morte do esposo, sua saúde havia piorado – e podia comprar o que quisesse ou precisasse. Sua ambição nunca fora dinheiro; mas, sim, enriquecer seu próprio ego. Queria ser bom no que fazia, queria ser admirado, queria dignidade, mando, prestígio. E queria, ao seu modo, limpar o país – era o que estava ao seu alcance – de todos aqueles que ele considerava não dignos. Tal termo era, no entanto, deveras amplo; alguns do que ele achava não merecedores da vida que tinham estavam, inclusive, dentro daquela casa. Mas ele não era estúpido em absoluto e sabia que, sozinho, dificilmente conseguiria alguma coisa. Então, juntou-se ao grupo no momento certo – alguns, ele poderia eliminar e poderia, ainda, fazer disso um emprego e uma forma de conseguir poderio. E com suas próprias mãos.

Fora interrompido por uma mão sobre seu ombro e uma voz chamando-lhe a atenção. Virou o rosto.
-Cigarro? – disse-lhe o homem que lhe dirigia a palavra, oferecendo-lhe do maço. Alexis hesitou por um momento, e soltou um riso baixo.
-Não, obrigado… Prefiro não abusar.
-Ótimo. Não combina com você. – riu ele, acendendo o que levava entre seus lábios finos e guardando o maço no bolso do casaco. – Como passou o ano-novo?
-Nada de mais… – respondeu Alexis, movendo o ombro. – A Hilde anda mais atarefada com o casamento, de qualquer forma.
-Ela vai se casar? Deuses. Não desejo isso para ninguém. – Ele suspirou. – Parece que até algum tempo atrás, ela não passava de uma criança. – disse, ajeitando os óculos.
-Ainda parece não passar, se conviver algumas horas com ela. – Alexis soltara outro riso, baixo, passando as costas da mão sob o nariz.
-Você também não deveria ter crescido tanto. Acho que isso quer dizer que estou ficando velho… Mas sabe que ainda tem essa mania de esgueirar-se por uma fresta e se isolar dos outros.
-Sei… nunca… fui de conviver com multidões por muito tempo.
-Multidões? Muito tempo? – Riu ele novamente, tragando do cigarro. – Por Deus, Alexis, não tem nem trinta pessoas lá dentro… e mal se passaram duas horas. Tem certeza que isso não veio piorando com o tempo?
-Talvez… acho que amadureci, não concorda? – sorriu Alexis. – O que me intriga mais é se o senhor pode se dar ao luxo de deixar aquele lugar.
-Ach, eu tenho a minha autoridade. O discurso, eles dizem, o discurso… inferno, eles o ouvirão quando for a hora. E fumar aqui fora me pareceu melhor, também. Principalmente quando vi que você estava ausente.
-E o seu favorito?
O homem sorriu e apertou os olhos, passou as mãos pelo ralo bigode em seu buço e bateu sobre o ombro do mais jovem.
-Foi uma ponta de ciúmes que senti nessa pergunta?
-De forma alguma. – Sorriu Alexis, simpático. – Mas ele, sim, pode ficar com algum ciúme.
-Há, não… Não se preocupe com isso. Ele tem os próprios assuntos pra cuidar. Tem tanto nas mãos, que me impressiona que chamem apenas a mim de viciado em trabalho…
-Quem não é, hoje em dia… – suspirou o jovem, ajeitando o quepe sobre a cabeça, e riu. – Boa sorte com o discurso.
-Esse maldito discurso, até você. Venha, que frio dos infernos, nem sei como você agüenta. Beba uma taça de vinho, coma mais alguma coisa e depois pode ir pra casa. Ou hotel. Em que hotel resolveu ficar? – Ele mais uma vez bateu sobre as costas de Alexis e gesticulou para que ele o seguisse.
-O de sempre… perto do portão de Brandemburgo. E obrigado, Reichsführer. Depois do vinho, vou precisar dormir… – sorriu Alexis, seguindo-o.
-Aah. É um bom lugar. E sem títulos, Alexis, não agora. É Heinrich quando podemos deixar de lado as formalidades. – Ele ajeitou o casaco sob o queixo quase inexistente. – Deuses, que frio.

Alexis sorriu novamente e encolheu os ombros, entrando. Ambos os homens tiveram de interromper o diálogo assim que foram abordados por outros; mas Alexis fez como lhe foi permitido, e, meia taça de vinho e um prato de comida depois, desvencilhou-se novamente do bando e dirigiu-se para o carro. Interrompeu a diversão dos motoristas, fazendo com que um, ao levantar-se em continência, levasse uma bola de neve no rosto. Suspirando, apenas olhou para o lado e soltou um riso pelo nariz, sorrindo com um canto dos lábios. Entrou por si mesmo no carro enquanto o pobre jovem que para ele dirigia ajeitava-se e corria para ligar o veículo, e deixou o quepe sobre o colo. O motor rugiu e o carro seguiu seu caminho, com os dois homens em silêncio – os motoristas dificilmente dirigiam palavra a seus chefes, e Alexis claramente não era a pessoa mais comunicativa do mundo. Sem muita delonga, o automóvel frente ao hotel e, com uma saudação, o motorista despediu-se de seu chefe após assegurar-se que ele não precisaria mais de seus serviços. Alexis retribuiu com um leve gesto de cabeça, e entrou para aquecer-se de uma vez, cruzando o saguão como uma flecha e subindo direto para seu quarto.

Sem pensar duas vezes, despiu-se de seu uniforme e entrou direto debaixo da água quase fervendo do chuveiro, suspirando profundamente e deixando-a bater em seu peito e face. Fechou os olhos e passou as mãos pelo rosto, pressionando as têmporas com os polegares. Encolheu os ombros e alongou o corpo, esticando os braços para frente e molhando os finos cabelos louro esbranquiçados, passando os dedos entre os fios, em seguida. Pegou o sabonete e começou a lavar-se, vagarosamente, passando os olhos sobre sua própria pele. Nenhuma imperfeição, pensou ele. Ele poderia conviver com a imperfeição do mundo; mas não com a própria. Vaidade era uma das palavras que melhor o definiam, e que também, de certa forma, o atormentavam. Não gostava de sujar-se, e nunca poderia imaginar manter seu ego em seu nível satisfatório se ganhasse alguma cicatriz. Seu corpo deveria ser perfeito. Corpo e mente, do jeito que ele considerava perfeito. Ele era magro, porém forte; seus ombros eram largos e seu tronco bem definido, e a espessura de seus braços ornavam de maneira perfeitamente proporcional; não era corpulento em demasia, mas tinha músculos que lhe davam um porte elegante em seus vinte e quatro anos.

Cautelosamente esfregou a espuma pelos membros, enxaguando-os apenas colocando-os sob a água, e começou a lavar os cabelos, massageando a cabeça devagar. Após deixar a cabeça sob o chuveiro por alguns minutos, fechou o registro e puxou uma toalha, secando-se no calor do vapor que enchia o banheiro. Saiu, dirigiu-se diretamente para o aquecedor e ligou-o, vestindo frente ao armário. Passou a toalha pelo cabelo e escovou-os com os dedos – não era necessário mais do que isso para colocar os fios em seus lugares – , seguiu para a cama e apoiando-se na cabeceira, pegou o livro que havia deixado na cômoda e abriu na página marcada. Ele ficaria lendo, em silêncio, até entardecer e o sono surgir. E foi o que fez; algumas poucas horas depois, ajeitou-se sob as cobertas e adormeceu rapidamente, em seu sono pacato e silencioso como o de uma criança.
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[1] Entre oficiais do alto escalão com pouca idade, estavam Heinrich Himmler, com 33 anos quando Hitler tornou-se Chanceler; Reinhard Heydrich na época possuia apenas 29, e Walter Schellenberg apenas 23 anos de idade.

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The Vor

Apenas algumas fotos do Damaran, tiradas a algum tempo. :3 Logo, atualizações (após milênios de procrastinação)! ><‘

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