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Archive for July, 2011

CAPÍTULO 10
BACK AND FORTH 

“He always thought guns were for cowards,

but never had the chance to test his other weapon effectively.”

Leste da Finlândia – Ano de 1940

  

O ar que entrava por sua boca descia-lhe gélido e cortante para seus pulmões. Desejava, por um instante, que fosse possível não respirar; mas ofegante como estava, segurar o fôlego certamente parecia-lhe algo inconcebível. Suas mãos apertavam o cano enfaixado e o gatilho do rifle de maneira que homem algum conseguiria fazê-lo soltar. Ele sentia que o frio havia colado sua pele ao metal, mesmo tendo suas mãos cobertas por luvas bastante grossas. Ficou sentado na terra fria apenas por alguns segundos; levantou-se rapidamente, e apertou o gatilho três vezes, quase sem olhar a mira. E jogou-se ao solo novamente, soltando o ar com toda sua força. Não sabia se tinha acertado alguma coisa; mas nunca dava tempo de conferir.

Só mais um pouco, pensou ele. É uma batalha pequena; só mais um pouco e acabaria. Os soldados inimigos já estavam exaustos desde as ofensivas no mês anterior, e aquela parecia-lhe apenas uma última ofensiva. Mesmo eles tendo conseguido dividir sua tropa, seus homens mantinham-se firmes nas trincheiras e ele acreditava piamente que reforços estavam a caminho. Haviam sofrido alguns contra ataques, mas resistiram firmemente – e ele planejava continuar resistindo até alcançar a vitória. Respirou fundo novamente, e levantou-se, atirando até que sua munição se esgotasse. Escorregou o corpo pela terra, apalpando o chão a procura de balas, e rapidamente pegou-as e recarregou a arma. Já mal sentia as extremidades de seus membros, mas não ligava. Quanto antes aquilo acabasse, melhor seria – e mais chances todos ali teriam de sair vivos. Ele puxou o ar mais uma vez, e quando estava preparado para levantar-se novamente, sentiu o toque de um de seus companheiros em seu ombro.

-Ei, Capitão! As balas acabaram ali, tem algumas pra emprestar?

Ele encarou o homem que o chamava por um instante e balançou a cabeça afirmativamente, colocando um punhado de munição dentro de um saco de pano e entregando ao outro.

-Spasibo. – sorriu ele, para depois chamar a atenção de seus companheiros a alguns metros dali e jogar baixo o saco com as balas para eles após carregar seu próprio rifle. – Devemos ser de tropas diferentes, já que nunca havia visto o senhor. Esses malditos conseguiram fazer mais que esperávamos, hein? Sou Anton. Seu nome, Capitão, se me permite?

– … Damaran. – respondeu ele, após hesitar um pouco. Sentia que aquele não era o melhor momento para se ter uma conversa amigável. Ainda mais considerando que ele era, de certa forma, seu superior – por mais que partilhassem o mesmo inferno congelado.

-Hm… nome incomum. – riu ele, olhando sobre o ombro e procurando o momento certo para atirar. – De onde veio?

-Stalingrado. – respondeu ao outro sem muita simpatia na voz, levantando-se rapidamente e deferindo mais dois ou três tiros. Agachou-se novamente, procurando não manter um contato visual com aquele que lhe dirigia a palavra dando a si mesmo a desculpa de que qualquer movimento em falso poderia custar-lhe a vida. Mas, aparentemente, Anton não estava disposto a deixá-lo em paz.

-É? Conheço uns caras de lá. Eu sou de Kashin. Lugarzinho pequeno, mas até que gosto. Tem família?

Damaran apenas balançou a cabeça negativamente, ainda sem olhar o outro soldado nos olhos. Perguntava-se o motivo daquela conversa no meio daquele inferno congelante. Anton olhou-o por um tempo e suspirou.

-Você é meio quieto, não é? Tudo bem, acho que entendi. Sinto muito pela sua família.

O outro suspirou discretamente, pensando que ele havia entendido errado – Damaran não possuía família desde antes do início dessa guerra. Ou, ao menos, não tinha idéia de quem seriam ou de onde estariam. Mas preferiu poupar as palavras e apenas respondeu com um gesto de ombro, notando sua arma descarregada e pegando a munição.

-Minha noiva tá me esperando na minha cidade. Depois disso aqui, vou voltar pra lá e ver se passo um tempo com ela e com meu futuro pirralho. – disse o outro, sorrindo orgulhoso. Por mais que sentia pela perda de Damaran, sua alegria em falar sobre sua família era latente em seu rosto. Mas o soldado simplesmente não parecia importar-se muito com isso – Damaran ficava imaginando o porquê dele resolver dizer essas coisas em meio a chumbo e pólvora. E ainda mais para um completo estranho.

Mas Anton não parecia notar a indiferença em seu rosto – o frio, o barulho, o caos e o cabelo que cobria parte do rosto de Damaran tornavam difícil uma leitura profunda da sua expressão, por menos sutil que ela fosse. E então, Anton prosseguiu. Levou a mão ao seu bolso, e retirou uma foto muitíssimo suja e amassada, passando-a a Damaran.

-Aqui. A minha mulher… é por ela que preciso ajudar a ganhar essa coisa aqui. – riu ele, apontando para trás com o polegar, referindo-se a batalha. Ele mantinha um sorriso demasiadamente otimista no rosto – será que compreendia que poderia não sair dali com vida? Ou simplesmente possuía tanta crença em suas habilidades de combate e em sua sorte?

Damaran ecarou a foto por um momento, e logo encarou o homem. Não disse nada – não sabia exatamente como reagir a isso. Mas resolveu tentar esboçar um sorriso, e balançou a cabeça. Anton sorriu de volta, e, tomando o rifle no ombro, levantou-se curvado para manter a cabeça protegida.

-Vou voltar pra onde estava. Depois que isso acabar, conversamos melhor… prazer te conhecer, Capitão. Ou Damaran. – disse ele, acenando baixo e dirigindo-se para onde estavam seus colegas. – Qualquer dia, se for a Kashin, dá uma passada em casa. Minha mulher vai ficar feliz de receber um convidado.

Damaran apenas o observou por alguns instantes, e soltou um suspiro longo, voltando a concentrar-se na pólvora, na mira e no inimigo. Pensou que dificilmente iria a um lugar como aquele, visitar um homem que acabara de conhecer e uma mulher cuja aparência conhecia apenas por uma foto.

Os dias se passaram iguais, um após o outro, e Damaran sentia que o fim não estava sequer próximo. Os suprimentos que chegaram eram menos do que o esperado – o inimigo havia conseguido cortar o seu fornecimento. No entanto, não pareciam dispostos a deferir um ataque definitivo e a batalha apenas se prolongava de maneira bastante frustrante para o capitão. No que pareceu ser um curto intervalo da chuva de chumbo, Damaran viu-se cercado por seus companheiros que dividiam parte dos poucos alimentos que os haviam alcançado. Um homem com o capacete até os olhos e uma espessa barba castanho avermelhada lhe passou um pedaço de porco enlatado, já mais frio que o normal por passar alguns segundos no ar gelado. Damaran agradeceu com um gesto de cabeça, após encará-lo discretamente por alguns segundos e passar os olhos ao redor, pelos outros soldados. Tinha certeza que não queria ver a si mesmo em um espelho naquele momento, e nem ousaria despir as luvas para tocar o próprio rosto. Os únicos acessórios de higiene que possuíam eram facas, faixas, a água dos cantis que rapidamente se congelava, e a neve ao redor que mal saberia dizer se estava realmente limpa ou não; e nenhum deles estava em posição de se importar com algo desse gênero. Procurou afastar o pensamento balançando a cabeça, e mordeu o pedaço de carne arrancando-lhe metade. Pegou a garrafa de vodka ao seu lado e jogou a rolha ao chão, virando-a garganta a baixo para ajudar o alimento a descer e esquentar o corpo. A bebida escorreu-lhe pelo queixo num feixe fino e gélido, mas ele não ligou. O calor do álcool dentro de seu corpo compensava algumas pequenas gotas, pensava ao afastar a garrafa vazia e limpar a boca com a manga de seu casaco. Mordiscou o que restava da carne até nada sobrar, e esfregou as luvas na neve misturada a terra numa vã tentativa de limpá-las.

Olhou para o lado, de onde ouvira algumas risadas animadas de seus homens – e viu Anton apoiado na terra, segurando um cantil com uma mão e repousando a outra sobre a ferida na perna. Damaran não sabia ao certo o que havia lhe acontecido; segundo o que ouvira, fora atingido quando tentava ir até o lago próximo encher o seu e mais alguns poucos cantis. O garoto era corajoso, mas não muito inteligente. Com receio de não encontrar neve livre de impurezas, abriu a guarda para o inimigo. Mas, de certa forma, o capitão encontrou em si um pouco de admiração por ele. Suspirou profundamente e levantou-se, ordenando para que todos voltassem a seus postos assim que acabassem de comer e beber, e dirigiu-se até seu lugar na trincheira. Carregou o rifle e sentou-se na terra, lançando um olhar ao céu cinza em cuja companhia passara os últimos meses e aproveitando o silêncio.

Pegou-se imaginando se os soldados do outro lado também tinham momentos como esse, e se tinham algo melhor para comer. Seu país não era conhecido pelo bom suprimento dos soldados, mas, talvez, seus inimigos o fossem. E por um momento, sentiu uma frustração aguda que sequer sabia de onde vinha. Debruçou-se sobre a terra, procurando afastar esses pensamentos, e levantou o cano de sua arma, procurando mira. No entanto, o outro lado parecia estranhamente calmo. Não via movimento algum, não ouvia som algum – parecia até que a batalha havia se acabado de repente, como se não houvessem mais inimigos a combater. E suas suspeitas confirmaram-se ao ver o rapaz que cuidava do rádio correndo até o grupo com um sorriso de alívio no rosto, e os outros levantando suas armas em comemoração ao fim do inferno. De alguma forma, aquilo finalmente havia chegado ao fim.

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Nota: A batalha em questão trata-se da Guerra de Inverno entre a União Soviética e a Finlândia, que lutava ao lado do Eixo, entre o final de 1939 e o início de 1940, com atenção específica ao VIII Batalhão Russo. Iniciou-se com uma ofensiva soviética e terminou com o Tratado de Paz de Moscou, resultando na expulsão da URSS da liga das nações. O VIII Batalhão, criado em 1939, tinha como objetivo a defesa da fronteira Noroeste da Rússia e enfrentou a Finlândia na área do lago Ladoga, visando destruir as tropas inimigas no local e avançar pela área de Sortavala e Joensuu num tempo de dez dias. 

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