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Archive for April, 2011

CAPÍTULO 9
ACCORDANCE

“He had support and an idea.

Now he just needed the puppets.”


Moscou, Rússia – Ano de 1950

 

 

Kyouya corria pelo corredor de paredes avermelhadas, tomando cuidado ao olhar os números das portas para encontrar o quarto certo. Haviam se passado três dias desde que o russo havia aceitado sua proposta, e ele não havia aproveitado o tempo de maneira muito produtiva. Mal havia conseguido pensar em por onde poderia começar, muito menos os meios que deveria usar para tal. Fazer tudo o que queria sozinho era realmente complicado, pensava ele. Ainda mais com a pouca experiência que possuía e pelo fato de recusar-se a pedir a ajuda do irmão. 


O irmão. Kyouya parou na frente da porta do quarto do russo, encarando-a durante alguns segundos, e suspirou. Por que diabos havia pensado nele justo naquela hora? Ele não queria fazer tudo por si mesmo? Se quisesse continuar em frente, teria que abandonar qualquer possibilidade de ser ajudado pelos membros de sua família. Ainda não sabia exatamente o que iria dizer sem que aquele homem simplesmente o descartasse apenas como um moleque inconseqüente; mas respirou fundo e bateu na porta.


Nenhuma resposta. Ele perguntava-se se havia errado o quarto, ou se o russo já havia saído. Se esse fosse o caso, ele acordava incrivelmente cedo. Levantou uma sobrancelha checando o numero do quarto novamente e viu que estava correto. Tentou bater novamente, e pôde ouvir passos pesados se aproximando.


A porta abriu-se após alguns segundos, e Kyouya surpreendeu-se ao topar com o peito largo e semi-nu do russo. Sua cabeça ficava exatamente na altura do centro da enorme tatuagem em formato de cruz que estendia-se pela parte superior de seu tronco, tamanha era a diferença de altura entre os dois. Os cabelos cinzentos de Damaran estavam molhados, deixando pingar água em sua pele, e a franja cobria completamente o lado direito de sua face. Apertava o único olho castanho que deixava a mostra, como se tivesse acabado de acordar e tomado um banho que de nada havia adiantado para acabar com seu sono. Ambos se encararam, e Damaran não pôde evitar soltar um suspiro.


-Você acorda bem cedo. – disse ele, entrando de volta no quarto, mas deixando a porta aberta. E estendeu o corpo, espreguiçando-se. – O que quer comigo a essa hora? Não pôde nem esperar o café da manhã?

-Deve ser a diferença de horário… – disse Kyouya para si mesmo, olhando para o relógio em seu pulso e pensando que não costumava acordar tão cedo quando estava em sua casa. E, pelo jeito, nem o russo o fazia, julgando pela supresa com a qual o recebera. Kyouya limpou a garganta, dando um passo para dentro do quarto, receoso.

-Pode entrar. – disse o russo, pegando uma toalha e passando-a pelos cabelos. Sua camisa e casaco estavam estendidos sobre a cadeira, e sua mesa encontrava-se um tanto bagunçada. Kyouya entrou no quarto, e apenas prostrou-se próximo à cama de Damaran, que se sentava e passava a mão no rosto após um longo bocejo. O russo encarou-o por um momento, olhando-o de cima a baixo.

-Não precisa ficar assim tão tenso, sabia? – disse ele, esfregando a toalha sobre a cabeça. – Você quer ser parceiro de negócios, e não meu subordinado. Pelo que eu entendi da conversa…

Kyouya balançou a cabeça afirmativamente, tentando relaxar seu corpo, sem sucesso. Ele não sabia ao certo se a etiqueta mudava tanto de um pais para o outro, ou se o russo podia simplesmente se dar ao luxo de esquecê-la tão pouca fosse a importância que estava dando a tudo aquilo. Com a mesma postura reta, continuou a encarar Damaran tentando lembrar-se do que exatamente havia vindo falar, enquanto o outro abria uma pequena caixa de madeira e tirava um grosso charuto o qual logo acendeu, tragando vigorosamente. A fumaça espalhou-se pelo cômodo fazendo com que o garoto acidentalmente abanasse a mão frente ao rosto, tão forte era o cheiro do tabaco. Mas logo parou quando o russo voltou a encará-lo e ao perceber que não havia feito algo muito sensato.

-Perdão…

-Não gosta do cheiro? – perguntou ele soltando um riso pelo nariz, tragando novamente e levantando-se para abrir a janela. – Pode ser sincero. A maioria detesta.

O garoto olhou-o por um tempo e suspirou. Se ele sabia que o cheiro era tão ruim, por que fumava aquela coisa? Mas a educação mandava que ele apenas se calasse e mostrasse respeito.

-Não me incomoda. Foi apenas costume… – respondeu polidamente, por mais que se lembrasse de quando seu tio acendia o cigarro quando tanto ele e o irmão eram ainda crianças. Sempre haviam odiado aquilo.

-Bom. Porque é uma das poucas coisas que me faz conseguir relaxar ultimamente…

-Relaxar?

Damaran balançou a cabeça afirmativamente, tragando com força e soltando a fumaça pelo nariz. Não respondeu mais nada e olhou para fora por um bom tempo, enquanto Kyouya observava-o entretido. O russo bateu o charuto no batente da janela e suspirou, virando-se para o japonês.

-Então, o que veio fazer aqui tão cedo?

-Ah. – exclamou o garoto, pensando que andava se distraindo com demasiada facilidade desde que havia chegado naquele lugar. – Eu preciso… de um favor…

-Que tipo de favor? – perguntou novamente o russo, levantando uma sobrancelha e encarando o garoto que, por sua vez, abaixava o rosto ligeiramente e limpava a garganta, engolindo sua honra em seco.

-Eu gostaria… de passar alguns dias como seu aprendiz. Se não for muito incômodo.
Damaran encarou-o surpreso por um longo momento. Começava a imaginar se o garoto havia se enrolado com a língua ou algo parecido, pois aquela fora a proposta mais bizarra que havia recebido desde muito tempo.

-… Como?

É realmente absurdo, pensou Kyouya. Claro que ele não aceitaria. Da mesma maneira que o alemão recusou-se a fazer negócios com ele, era óbvio que o russo jamais iria aceitar, simplesmente, tornar-se professor de um garoto estrangeiro que havia simplesmente aparecido do nada. Estava preparado para receber um incisivo ‘não’, ou ser encarado como uma piada. E, ao que lhe parecia, havia acertado – o russo soltou um riso baixo pelo nariz, encarando-o por alguns segundos, e logo caiu na risada. 


O garoto encolhia os ombros, olhando para baixo. Perguntava-se se ninguém estaria disposto a dar-lhe uma chance – afinal, já havia chegado longe a ponto de encontrar o hotel e ainda conseguir falar pessoalmente com pessoas de, achava ele, relativa importância. E havia viajado o longo caminho até Moscou sozinho, saindo de seu país que estava quase ainda recuperava-se dos desastres da guerra.

-Entendo que pareço só uma criança inexperiente. Mas…

O russo mal deu-lhe tempo de continuar.

-Maravilhoso!! Fazia anos que ninguém conseguia me entreter dessa maneira. Você tem um toque pro inesperado, garoto. Pois bem… imagino que isso não vá me trazer nenhum tipo de recompensa material, mas pode me divertir por um bom tempo. – disse ele, excitado, sorrindo para Kyouya. O garoto processou o que havia ouvido por alguns momentos.

-Isso quer dizer que…?

Damaran sorriu.

-Que eu aceito. Vou fazer-lhe esse favor. E em troca… divirta-me. – riu ele, tragando seu charuto com força e soltando a fumaça escura pelo nariz. – Mostre-me que fiz bem em aceitar que ficasse ao meu lado, e que pode ser mais que apenas um garoto oriental irresponsável.

Kyouya sorriu largo pra ele, curvando o corpo perfeitamente em agradecimento.

-Muito obrigado!! Prometo que não vai se arrepender! – respondia ele, com grande empolgação. O russo apenas olhou-o por um momento com o cenho franzido, estranhando o gesto. E suspirou.

-Certo, certo… mas não vai querer ficar perto de mim o tempo todo, vai? – suspirou, dando a deixa para que Kyouya deixasse o quarto por um momento.

-Ah. Perdão… – disse o garoto, curvando-se novamente. E voltou a olhar pro russo, que apagava o charuto num cinzeiro de cristal, esperando que ele lhe dissesse quando deveria voltar.

-Vou almoçar no restaurante do hotel depois do meio-dia. Se quiser aprender alguma coisa, me procure por lá. – sorriu ele, logo acendendo outro charuto. Kyouya se perguntava como alguém conseguia fumar dessa maneira logo de manhã, mas achou que seria mais educado não perguntar sobre isso.

-Sim! Muito obrigado novamente! – respondeu ele, sorrindo. – Então, se me dá licença… – e retirou-se, sem olhar pra trás. Damaran olhava para suas costas e assim que a porta se fechou, não conseguiu segurar-se a soltar um riso. Enfim, entretenimento, pensou. Aquele garoto acabava lembrando-o de si mesmo quando jovem, de certa forma – impetuoso e sem muita noção de perigo. Mas apenas deu de ombros e continuou a fumar, calmamente. 


Kyouya encostou-se na parede e sorriu para si mesmo, mordendo o próprio lábio em satisfação. Mais perto, pensou ele. Um passo mais perto.

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Aews! X3

Damaran desenhado pela minha amiga Fran!! :3 *abraça*

Muito obrigada, moça! ❤

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