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Archive for March, 2011

HATRED

Alexis…

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CAPÍTULO 8

BROTHERHOOD

“His honor depended on something,

that he would need to throw it away to achieve.”

Prefeitura de Nara, Japão – Ano de 1944


-Aniki!
[1] – gritou o garoto, correndo pela madeira e quase tropeçando em suas próprias vestimentas. Seu corpo pequeno e magro movia-se desajeitadamente, como uma criança correndo atrás de seu brinquedo; possuía cabelos rebeldes e muito negros, que cobriam parte de seu rosto arredondado que fazia-o parecer ainda mais jovem do que realmente era. Seu kimono [2] estava bagunçado, e ele nunca fora muito habilidoso com o obi [3]. Mas, naquele dia, parecia estar especialmente ansioso. – Onde você tá indo?

O homem a quem ele dirigia a palavra era ligeiramente mais alto, porém, igualmente magro. Tinha o rosto mais alongado e seu olhar era sério e maduro. Os cabelos longos até o ombro lhe davam uma aparência um tanto feminina, principalmente pelo fato de estarem parcialmente presos num rabo-de-cavalo por uma fita branca. Ele olhou para o garoto suspirando, com o cenho franzido.

-Kyouya. Quantas vezes eu te falei para não correr pela casa? E arrume esse kimono direito, desse jeito vai estragar… é uma seda de tão boa qualidade… – respondeu ele, de braços cruzados. O garoto olhou para baixo, e apertou o obi em sua cintura, puxando o pano do kimono de maneira frustrada. Com um bico, olhou de volta pro irmão e falou da maneira mais séria que podia.

-Teruo-aniki. Se você for sair, eu quero ir com você.

-E se eu disser que não pode?

-Eu vou atrás de qualquer jeito. Não quero ficar aqui o dia todo.

O irmão riu, suspirando. Kyouya havia se tornado cada vez mais insistente, e isso de certa forma lhe trazia satisfação. E, naquele momento, ele realmente parecia estar falando sério. Tudo bem, pensou Teruo. Iria deixá-lo servir de companhia. Mas não iria fazer o que estava planejando; apenas deixaria para mais tarde. Era mais apropriado fazer aquele tipo de coisa quando escurecesse, pensou. E ninguém envolvido parecia ter pressa.

-Pois bem. Vou esperar por dez minutos. Se arrume depressa, não vou deixar você sair de casa com as vestimentas nesse estado. – disse ele, rindo da expressão de satisfação que surgiu no rosto do garoto.


Ele apenas balançou a cabeça, e avançou para dentro da porta de papel e madeira, correndo para seu quarto. Pegou um kimono de cor escura e tecido fino na gaveta – afinal, estava usando aquele em seu corpo desde que havia se levantado – e esforçou-se para amarrar o obi da melhor forma possível. Mas aos poucos deixou de concentrar-se na peça; parou por um instante, olhando para o chão, e pensou que havia sido fácil até demais convencer o irmão. Ele certamente não iria levá-lo ao lugar onde Kyouya queria que ele o levasse; e nem o próprio garoto tinha certeza de que lugar era esse. Mas o irmão andava estranho nos últimos meses, saindo muito mais do que o habitual e voltando de péssimo humor. E Kyouya estava certo de que havia algo grande por detrás disso.

Terminou de amarrar o obi, dessa vez sem deixá-lo desmontar-se. Suspirou, e olhou para o porta-retratos sobre a bancada, que mostrava uma mulher de meia-idade num belo kimono estampado com flores de cerejeira. Fechou as mãos em punho e respirou fundo, afastando aquele pensamento de sua mente para não parecer suspeito para o irmão. Saiu de seu quarto e correu para a porta da frente, pulando sobre os chinelos e abrindo-a num baque. Seu irmão quase assustou-se quando Kyouya aproximou-se rapidamente, e parou a centímetros dele.

O mais velho ficou surpreso com a rapidez do irmão; ele realmente estava ansiando por sair de casa. Uma pena que ele não iria dar ao garoto o que este realmente queria; mas isso não lhe trazia absolutamente nenhum peso à consciência. Ajeitou o kimono e sorriu.

-Menos de dez minutos. Pois bem, vamos?

Kyouya sorriu como uma criança, satisfeito por finalmente ser capaz de deixar a casa sozinho com o irmão mais velho. A chance de falar-lhe a sós era ao menos um empurrão para ele descobrir o que acontecia. Ele olhou para a frente, e viu os homens enfileirados de ambos os lados do caminho, que curvavam seus corpos e apoiavam as mãos em seus joelhos, respeitosamente. Estavam todos vestidos em kimonos negros, e possuíam um olhar bastante sério em suas faces. Ao primeiro passo de Teruo, berraram em grupo, simultaneamente:

-Iterasshaimase, Aniki!! [4]


Teruo apenas sorriu, sem olhar nos olhos daqueles que circundavam seu caminho. Kyouya sempre havia achado aquilo fascinante; era incrível como seu irmão, ainda tão jovem, pudesse extrair tamanho respeito de todos aqueles homens – quase todos bem mais velhos que ele. Quando dois deles ofereceram-se para acompanhá-los, Teruo recusou educadamente apenas com um gesto de mão. E, então, os dois saíram pela rua em frente àquela mansão que mais parecia um gigantesco templo antigo.

O mais velho andava na frente, enquanto Kyouya mantinha alguns passos de distância. O silêncio chegava a ser ligeiramente intimidador, mas, ao mesmo tempo que o garoto sabia que o irmão preferia sair sozinho, ele mesmo não tinha coragem ou criatividade suficiente para iniciar um diálogo. Ele apenas descia aquela rua de terra batida em silêncio, admirando as costas de Teruo. Elas pareciam distantes, pensava ele. Não apenas pela diferença de idade entre os dois; mas, às vezes, Kyouya sentia que o irmão possuía algo que ele jamais poderia adquirir – por mais que não tivesse certeza do que se tratava.


Aos poucos, o cenário enchia-se de árvores e flores; e Kyouya reconhecia o parque pelo qual havia passeado durante quase sua infância inteira. Ao longe, podia avistar aquele portão vermelho que atravessara tantas vezes e que lhe parecia tão maior, tão mais grandioso. Agora, ele mal podia comparar-se com aquele homem que caminhava a sua frente, e o atravessava quase sem notá-lo. Havia, junto com as esculturas de pedra que decoravam o caminho, tornado-se uma moldura. Uma grande, bela e digna moldura. E aquele que estava no meio do quadro, de repente, virou-se.

-Se ficar se afastando cada vez mais, vai se perder, Kyouya.

Kyouya deu conta de si, e apressou o passo. Aproximou-e de seu irmão apenas o suficiente para que pudesse ver seu rosto, recuperando o fôlego conforme diminuía o ritmo. Teruo apenas sorriu pra ele, e retomou seu caminho, fazendo com que Kyouya voltasse a segui-lo vagarosamente. No entanto, poucos segundo depois, o mais velhos parara e olhava para o lado, onde a trilha dividia-se.

O garoto aproximou-se mais, e olhou para a mesma direção do irmão. De lá, podia ver, ao longe, um enorme templo por debaixo do grande portão, que levava o nome de Nandaimon [5]. Conforme Teruo seguia naquela direção, Kyouya apenas admirava os detalhes daquela enorme construção de madeira que era o portão, e os dois guardiões que encaravam-no como se julgassem o que havia dentro de sua alma. Aquelas figuras gigantescas torciam suas faces numa demonstração de rigidez e dedicação ao deu dever que chegava a deixar o garoto incomodado a ponto de fazê-lo correr para alcançar o irmão. Teruo apenas sorriu para ele mais uma vez, e passou a mão de leve sobre sua cabeça. Quando Kyouya olhou para o rosto de irmão, pode vê-lo levantar o braço e apontar para frente.


E lá estava ele. O templo no qual havia passado grande parte de sua infância; o majestoso Daibutsuden [6]. As poucas pessoas que circulavam ao seu redor pareciam deixá-lo cada vez mais monumental, com aquelas enormes paredes brancas e marrons. Os dois telhado estendiam-se pelo horizonte da construção, como se envolvessem todo o ambiente e puxassem o olhar de qualquer visitante. E por dentro, Kyouya podia lembrar-se da grande estátua do Buda, que havia olhado-o de cima desde a sua infância.

As memórias corriam por sua mente, trazendo-lhe um nó na garganta e uma leve sensação de mal estar. Kyouya virou os olhos para Teruo, que apenas o encarava de volta com uma expressão de divertimento – o que fez com que o garoto estremecesse, engolindo seco e respirando fundo, aos poucos tomando de volta a compostura. Foi até a escadaria do templo, admirando-o sem sequer dar um passo pra dentro, e soltou um suspiro profundo. Sentou-se em um dos degraus e voltou a encarar o irmão, que se aproximava lentamente e sentava-se ao seu lado.

-Magnífico, não acha?

Kyouya apenas concordou com a cabeça. Teruo continuou.

-Nunca deixo de me impressionar, mesmo tendo vindo aqui inúmeras vezes. É incrível pensar que as pessoas construíram algo desse porte há tanto tempo, usando simplesmente madeira…


O mais novo olhava para o irmão perguntando-se onde ele queria chegar. E recebeu como resposta apenas um sorriso e um afago na cabeça, bagunçando ainda mais seus cabelos rebeldes. Kyouya suspirou e levantou-se, olhando ao redor por alguns segundos e avistando um pequeno cervo que se aproximava devagar dos dois. Foi até um arbusto próximo, pegando algumas frutas, e depois lentamente em direção ao animal, estendendo a mão. O cervo hesitou por alguns instantes, mas aceitou a oferta, comendo da mão do garoto em silêncio. Teruo observava a cena apoiando o rosto em sua mão, e sorria sozinho. Após um longo suspiro, chamou a atenção do garoto.

-Kyouya.

O garoto virou o rosto, encarando o irmão.

-O que foi?

-Você… gosta do tio Kakuji?

-Não gosto, nem desgosto. Tanto faz. – respondeu, movendo o ombro de leve enquanto notava o cervo lambendo sua palma. Ele realmente nunca havia tido grande contato com o tio; por que estaria o irmão tão interessado nos sentimentos que ele poderia nutrir?

Teruo riu baixo, com um olhar um tanto inexpressivo em seu rosto.

-É? Que bom, então.

Kyouya continuou a olhar para o irmão de maneira curiosa, sem perguntar nada. E Teruo apenas sorriu e virou a cabeça, deitando sobre a escadaria e fechando os olhos. O garoto limpou a mão na vestimenta enquanto o cervo se afastava após acabar sua pequena refeição, e voltou a sentar do lado do irmão.

-Por que a pergunta?

Teruo soltou um riso pelo nariz, mordendo o lábio levemente, e fazendo a pergunta que deixaria o garoto ainda mais confuso.

-Gostaria de viajar para Yokohama, algum dia desses…?

_________________________

[1] Aniki (兄貴) – do japonês, “irmão mais velho”; forma de se dirigir a um irmão ou alguém de status mais alto dentro da Yakuza.

[2] Kimono (着物) – vestimenta tradicional japonesa; literalmente, “coisa de vestir”.

[3] Obi (帯) – faixa usada para amarrar o kimono na cintura.

[4] Iterasshaimase (行ってらっしゃいませ) – do japonês, saudação formal para uma pessoa que está saindo de casa. Literalmente, ‘vá e retorne’.

[5] Nandaimon (南大門) – do japonês, Grande Portão do Sul. Um dos portões principais do complexo Toudaiji (東大寺, “Grande Templo do Leste) da região de Nara, reconstruído no século XII em estilo da Dinastia Song. Cada lado do portão conta com a presença de duas grandes estátuas de guardiões, construídas durante o mesmo período.

[6] Daibutsuden (大仏殿) – do japonês, Hall do Grande Buda. Templo principal do complexo de templos Toudaiji, é a maior construção de madeira do mundo, e em seu interior encontra-se a maior estátua de bronze do Buda.

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CAPÍTULO 7

HONESTY


“He was there not because he believed in the empire,

but because he believed in himself.”

Munique, Alemanha – Ano de 1939


A reunião havia corrido como esperado, sem grandes discussões entre os oficiais. O Führer havia mandado apenas um representante, pois sua presença não era considerada necessária para algo que não envolvesse apenas os homens do mais alto escalão. E muito menos em uma reunião que contava com a participação de alguns oficiais novatos, ou alguns aspirantes a promoções. Aquela missão já estava decidida e assinada; a única coisa que precisava ser feita era distribuir as instruções para os envolvidos.


Ele levantou-se o mais discretamente possível, e vestiu o longo casaco que estava pendurado em sua cadeira. Pegou seu quepe de cima da mesa, e colocou sobre seus cabelos dourados que caíam lisos sobre seus ombros. Ao contrário da grande maioria dos oficiais, ele preferia deixá-los longos e relativamente desarrumados, em comparação aos penteados excessivamente formais dos outros. Como seus fios eram bastante finos, ele não precisava fazer um grande esforço para deixá-los no lugar; e isso em nada afetava a impressão que ele passava aos outros. Seu porte já era suficientemente apropriado, junto com as características do seu rosto. Seu maxilar era forte e seu queixo levemente quadrangular, e seu rosto possuía as perfeitas proporções masculinas. Seus olhos eram expressivos e contornados por finos cílios claros, abundantes porém quase imperceptíveis, e encimados por sobrancelhas louras que subiam levemente curvadas, numa expressão de seriedade que bastava que ele franzisse o cenho levemente para mostrar o maior desprezo da face da terra. Seu nariz descia com a ponte reta de maneira elegante, e terminava pouco acima dos lábios que pareciam dificilmente capazes de esboçar um sorriso sincero. O uniforme caia perfeitamente sobre seu corpo largo, porém elegante. Ele tinha o torso bem esculpido e as pernas longas, atraente de um jeito maduro, apesar de ser provavelmente o mais jovem do salão.


Achou apropriado deixar os oficiais de patentes mais altas saírem primeiro. Colocou-se do lado da porta, e apenas saiu quando sentiu que estava a uma distância segura que pudesse evitar aquelas entediantes conversas pós-reuniões. Ele sabia seguir as convenções sociais, e era habilidoso a ponto de saber mudar o jeito de seu discurso dependendo da pessoa a quem dirigia a palavra; mas estava simplesmente cansado naquele dia. Não precisava de ninguém repetindo tudo o que ele já sabia, todas as ideologias pelas quais lutavam, ou fazendo piadinhas de humor negro. Ele sabia conversar, mas não era algo que lhe trazia muito prazer.


Quando finalmente pensou estar sozinho, saiu do salão e andou pelo corredor em direção à saída. Seus passos eram rápidos e pesados, mas nem mesmo ele sabia se havia alguma coisa que queria fazer naquele final de tarde. No entanto, fora rapidamente interrompido em seu caminho.-Reinhardt! – Gritou uma voz do fundo do corredor. Aparentemente, ele não havia prestado atenção o suficiente nas pessoas que saíam do salão e havia permitido que uma delas ficasse para aproximar-se por suas costas – que aborrecimento. Ele demorou-se um pouco para virar-se, após um suspiro longo. Tirou o quepe por cortesia, bagunçando um pouco os cabelos, e cumprimentou aquele que o chamava educadamente. Levantou o braço com a mão espalmada e os dedos unidos, como de costume, e manteve o semblante sério e o tronco reto. Já não precisava mais pensar para fazer tal gesto; havia se acostumado apropriadamente com a tradição.


-Herr Oberstgruppenführer
[1] Kaufmann. Como posso ajudá-lo? – disse ele, encarando aquele homem que se aproximava a passos rápidos, de porte grandioso e postura impecável. Seus olhos demonstravam que ele não tinha medo de nada, e que sua auto-confiança era inquebrável. Possuía os cabelos penteados para trás, sem um fio sequer fora do lugar, e seu uniforme não possuía o menor indício de qualquer sujeira. Kaufmann colocou o braço ao redor dos ombros do outro, e sorriu.


-Não é necessária tamanha formalidade agora, Alexis. – disse ele, assim que viu-se longe da porta da sala onde uma reunião havia acabado de se encerrar. – Pode me chamar de Ernhard; logo seremos homens de mesma patente. O Führer ficou muito satisfeito com o seu trabalho; aposto que ele logo lhe promoverá a Obergruppenführer
[2]. Apenas dê o seu melhor na Polônia, e lhe garanto o título.


Alexis sorriu nervosamente enquanto o homem terminava sua fala e batia de leve em suas costas. Ele não gostava de contato físico, especialmente quando era alguém que ele não havia permitido invadir seu espaço pessoal. Mas precisava manter a pose num lugar como aquele, por ser um dos mais jovens – deveria demonstrar respeito e, conseqüentemente, receber respeito; e Kaufmann era um dos poucos homens que ele achava merecedor de sua admiração. Todos diziam que ambos eram semelhantes em personalidade, apesar de Alexis achá-lo um tanto eloqüente demais.


-Espero que Heydrich
[3] e Müller [4] façam o trabalho direito. – murmurou Alexis, mantendo um tom que não parecesse demasiadamente desrespeitoso. – Já é quase hora, e devo ter certeza de que a prontidão de minhas tropas não será desperdiçada.

-Sicher. Machst du keine Sorgen. [5] – respondeu Kaufmann, parecendo um tanto ansioso demais. – O próprio Himmler [6] irá supervisionar a operação. E depois disso, apenas dê o seu melhor e tudo sairá bem.

-Danke Schön, [7] Herr Oberstgruppenführer Kaufmann. Grato por sua consideração. Mas peço perdão, preciso retirar-me… um compromisso me aguarda. – disse Alexis, com pouca emoção em sua voz. Não que fosse mentira; mas o que ele mais queria naquele momento era encontrar-se sozinho novamente.


Kaufmann mostrou em seu rosto uma expressão de insatisfação somente por alguns segundos – ela logo transformou-se num sorriso um tanto cruel, e ele apenas colocou as mãos para o alto, rindo.

-Entendo. Hoje é dia de limpeza, não é? Ouvi falar que o Piorkowsky [8] estava precisando de uma ajuda. Boa sorte com o trabalho.

-Sim. Ele acabou recebendo mais carga do que o esperado. Um trabalho inconveniente, devo dizer. – Alexis deu de ombros, sarcástico, e suspirou ironicamente. Apesar de o senso comum considerar aquele trabalho um tanto desumano, era uma das poucas coisas que o fazia sentir-se satisfeito. E ele sabia que não era o único a pensar daquela maneira.


-Ach so. Dann, bis gleich.
[9] Te vejo na nossa Polônia ocupada.

Alexis apenas levantou o braço novamente como sinal de respeito, enquanto o outro tomava seu caminho e acenava de costas. Colocou o quepe de volta, e saiu a passos rápidos do longo salão em cujas paredes penduravam-se grandes estandartes vermelhos com a suástica negra em seu centro. Sempre havia achado que as paredes daquele lugar eram altas demais; mas não tinha a menor vontade de expor sua opinião e duvidar das idéias arquitetônicas do Führer. O local da reunião era uma construção nos arredores de Munique, que apenas havia sido adaptado para a estética ideologizada. Ele sempre se perguntava qual era a necessidade das colunas em cada fachada, mas, no final, deixava de se importar rapidamente. Saiu do prédio, e foi até o carro que o esperava para levá-lo até seu destino. Era o final do verão, mas estava frio o suficiente para que ele mantivesse o casaco. O vento batia contra o seu rosto, e o sol pouco fazia para aquecê-lo. Ele entrou no veículo, e deu a ordem ao motorista.


-Nach Dachau. Mach das schnell, bitte.
[10]

Em alguns minutos, após Alexis encarar a paisagem um tanto entediado, o carro parou na frente de um grande portão de concreto e ferro encimado pela águia símbolo do Reich, que segurava a suástica em suas garras. Dois soldados se aproximaram, e saudaram Alexis educadamente conforme ele descia. Ele retribuiu a saudação de maneira fria, e apenas seguiu um dos soldados pela pequena porta lateral, que o levaria até seu destino final.


Entraram numa sala com uma grande mesa de madeira, encimada por uma lâmpada um tanto empoeirada e um telefone, e com milhares de arquivos espalhados por toda parte. Por detrás dos papéis, via-se um vulto que, com a entrada de Alexis, levantou-se rapidamente de sua cadeira e foi em sua direção. Era um homem de porte mediano, cuja testa quase encobria seus olhos, e seu nariz arredondado, que era bastante avantajado, puxava seus lábios de maneira que sua expressão parecia levemente melancólica durante a maior parte do tempo. Mantinha os cabelos bem penteados para trás, no corte mais tradicional possível dentre os militares, e vestia orgulhosamente seu uniforme acinzentado.


-Herr Reindhardt! – cumprimentou ele, respeitosamente, considerando que, apesar de já tê-lo conhecido há alguns anos, Alexis já havia tomado uma patente superior à sua. – Danke schön! Muito obrigado por ter vindo. Não sabe como sua ajuda é bem vinda… os sub-campos nos mandaram carga demais. Precisamos liberar um pouco de espaço… se é que me entende.

-Sicher. – riu Alexis, tirando seu quepe e passando a mão pelos cabelos. – Quais pretende eliminar?

-Temos alguns que não conseguem mais trabalhar. E outros doentes… acho que será o suficiente. Se não, podemos escolher mais alguns.

-Entendido. – respondeu ele, gesticulando para que os soldados fossem para fora e chamassem alguns outros. – Mas acho melhor segurar os sub-campos, Alex. Logo não estarei aqui para ajudá-lo dessa maneira.

-Sem problemas. Os planos para a Polônia vão nos ajudar bastante, sabe? Espero que tudo corra bem para você e os outros.


Alexis apenas sorriu como resposta, e foi para fora, onde encontrara um grupo de quinze soldados de prontidão. Eles o guiaram até a parte de trás de um prédio, que dava para uma pequena floresta onde dificilmente apareceria alguém para atrapalhá-los. Ele achava aquele método um tanto direto demais, e ineficiente. Mas era necessário de vez em quando, visto que aparentemente o ‘outro’ método havia se esgotado para aquele dia – e Piorkowsky parecia ocupado demais para sair de seu escritório para algo tão trivial. Mas não importava; Alexis apenas encarava aquilo como uma atividade matinal. Tirou a luva de sua mão direita, e pegou a pistola sob o casaco. Retirou a trava, e esperou de braços cruzados a chegada dos prisioneiros.


Um novo grupo de guardas trazia-os enfileirados, e eles mantinham suas cabeças baixas. Estavam magros e sujos, como assombrações, e mal possuíam forças para andar. Andavam por medo; haviam sido domesticados e não ousavam desobedecer uma ordem sequer dos guardas. Eram em sua maioria homens em seus quarenta anos, e alguns idosos e mulheres, todos vestindo uniformes surrados e sapatos desmanchados. Mas dificilmente fazia-se alguma distinção naquele local; eram apenas criaturas a serem eliminadas.


Um sorriso esboçou-se no canto dos lábios de Alexis enquanto via-os passar por sua frente. Ele os fitava cruelmente, com aqueles olhos azuis quase da cor do gelo, assustadoramente confiante de si mesmo. Cada prisioneiro que olhava em seu rosto parecia cair em um desespero ainda mais profundo do que já estava retratado em suas faces – e isso lhe dava um prazer indescritível. O prazer de ser o predador prestes a acabar com sua presa.

Após os guardas alinharem todos os prisioneiros enfileirados, Alexis levantou o braço esquerdo e apontou sua arma. Os soldados colocaram-se em posição. E ainda com um macabro sorriso em seu rosto, Alexis gritou, abaixando o braço em ordem:


-Feuer! [11]

Uma onda de tiros, incluindo o de sua própria Reichsrevolver, ecoou no ar, fazendo com que os poucos pássaros que haviam nas árvores da pequena floresta levantassem vôo. Os corpos dos prisioneiros foram ao chão como pedras, e os poucos que ainda se moviam logo entregavam-se à morte. Alexis abaixou a arma e suspirou pesadamente, com a sensação de ter finalizado mais um trabalho, enquanto ria silenciosa e satisfatoriamente. Ele guardou a pistola de volta no coldre por debaixo de seu casaco, e vestiu a luva novamente. No entanto, antes que pudesse virar-se para declarar o trabalho concluído, recebera uma exclamação repentina de um dos soldados.


-Achtung, Gruppenführer!! [12]

Alexis nem sequer virou-se para ver o que vinha em sua direção. Apenas jogou-se ao chão, protegendo o rosto com braços, enquanto ouvia o som de um disparo que atingia uma árvore atrás dos prisioneiros mortos. Alexis virou os olhos arregalados para a árvore, fechando a mão em punho e com grande ira em sua expressão. Levantou-se rapidamente, pegando a pistola sem sequer tirar a luva.

-Mein Gott! Was zum Teufel war das!? [13] – berrou ele, procurando ao redor o responsável por aquilo. Ao lado de um dos prédios, avistou dois guardas que seguravam um garoto de cerca de vinte anos contra o chão. Um outro guarda vinha até ele, segurando uma pistola antiga em mãos, e ajoelhando ao chão como pedido de desculpas.

-Es tut uns Leid, Herr Gruppenführer. [14] Aquele rato deu algum jeito de conseguir isto e encontrá-lo aqui justo neste momento… iremos investigar imediatamente e nos certificar de que não acontecerá novamente.


Alexis manteve o cenho franzido, e rangeu os dentes. Sem importar-se com o soldado, foi a passos rápidos e pesados até o garoto que debatia-se no chão, segurando-se para não derramar lágrimas. Ajoelhou-se em sua frente, e agarrou seu rosto, apertando-o com os dedos e falando entre os dentes:

-Como você ousa. Um verme como você, tentando me atingir… como você ousa…

O garoto exclamou em outra língua algo do qual podia-se somente identificar a palavra “Isa” [15]. Alexis levantou-se e ordenou que os soldados o soltassem, o que fizeram com grande hesitação. Antes que ele pudesse levantar-se para tentar fugir futilmente, Alexis pisou com força em suas costas, colocando todo seu peso na perna, apertando seu corpo contra o chão. O garoto batia as mãos na terra, e exclamava de dor a cara estalo de seus ossos. Quando ele finalmente parou de se debater, Alexis simplesmente levantou a perna e chutou consecutivamente seu estômago com a ponta da bota, fazendo-o tossir e soluçar de dor. Depois, pisou sobre sua cabeça e abaixou-se, de forma que o garoto pudesse ver o macabro sorriso em seu rosto. Levantou-o pelos cabelos e fitou seus olhos ameaçadoramente.


-Peça ao seu Deus que avise seus amiguinhos a jamais desafiarem um homem do império. – disse sarcástico, colocando a pistola por debaixo do queixo do garoto, que choramingava. E, sem esforço ou hesitação alguns, simplesmente apertou o gatilho.


Jogou o corpo ensangüentado no chão, e tirou as luvas, jogando-as para um soldado próximo. Elas já estavam sujas demais. Tomou seu caminho até o escritório, dando as costas pros outros soldados, com as mãos em punho. Abriu a porta com força, fazendo com que Piorkowsky quase derrubasse a pilha de papeis em seus braços com o susto. Ele colocou-os sobre a mesa, com a mão no peito, suspirando.

-Algo fora do planejado…?

-Acho bom você manter um controle melhor sobre sua carga, Alex. Acaba de ganhar mais um lugar livre para o excedente, mas também trabalho extra. Um dos seus ratinhos conseguiu uma pistola sabe-se lá de onde.

O outro fitou Alexis com os olhos arregalados, e passou a mão na testa, respirando fundo. A última coisa que ele poderia querer era deixar aquele homem irritado, apesar de não gostar nada de ter a atenção chamada.

-Das tut mir Leid [16], Alexis. Vou tentar descobrir como isso aconteceu. Prometo que não acontecerá de novo.

-É o que eu espero. Auf wiedersehen [17], Herr Piorkowsky.


Alexis saiu pelo mesmo portão pelo qual havia entrado, com as mãos nos bolsos do casaco. Entrou no carro suspirando, e não ficou nada satisfeito quando encontrou uma pequena mancha de sangue em sua manga. Mas iria voltar pra casa de qualquer maneira, e poderia lavar aquilo o mais rápido possível. Não queria ter uma mancha de sangue daquela gente em suas vestimentas de maneira alguma. Suspirou mais uma vez, e fechou a porta, dando a ordem ao motorista.


No caminho, o carro passou pelo portão principal de entrada dos prisioneiros, onde, modeladas em metal, estavam as palavras que Alexis tanto apreciava. “
Arbeit macht Frei[18], sussurrou ele para si mesmo. Arbeit macht Frei. Ele sorriu de maneira irônica, e encostou a cabeça no banco, baixando seu quepe. E, aos poucos, cochilou. Ainda seria um longo caminho até sua casa.

_________________________

[1] Oberstgruppenführer – Cargo da SS alemã, equivalente a General nos Estados Unidos.

[2] Obergruppenführer – Cargo da SS alemã, equivalente a Lieutenant General nos Estados Unidos.

[3] Reindhard Heydrich – Oficial de alto escalão (Obergruppenführer) da SS, dentre outros cargos. Um dos principais responsáveis pela Operação Himmler, plano que visava a organização de uma falsa ofensiva por parte do exército polonês (sendo, na realidade, soldados alemães disfarçados) a prédios e instituições na fronteira como pretexto para a invasão da Polônia pelo exército alemão.

[4] Heinrich Müller – Líder da Gestapo e um dos principais agentes do Holocausto, era, junto de Heydrich, responsável pela operação Himmler.

[5] – do alemão, “Certamente. Não se preocupe.”

[6] Heinrich Himmler – Reichsfüher da SS alemã, além de outros cargos importantes, e um dos homens mais importantes do governo nazista. Respondia diretamente a Adolf Hitler, e fora um dos principais responsáveis pelo extermínio de judeus durante o Holocausto.

[7] – do alemão, “Muito obrigado”.

[8] Alex Piorkowsky – Diretor do campo de concentração de Dachau de 1939 a 1942, possuía o cargo de Hauptsturmführer – equivalente ao cargo americano de Capitão.

[9] – do alemão, “Ah, entendo. Então, até logo.”

[10] – do alemão, “Para Dachau. Rápido, por favor.”

[11] – do alemão, “Fogo!”

[12] – do alemão, “Cuidado, Gruppenführer (cargo equivalente a Major General nos Estados Unidos)!”

[13] – do alemão, “Meu deus! O que diabos foi isso!?”

[14] – do alemão, “Desculpe-nos, senhor Gruppenführer”

[15] – do Estoniano, “Pai.”

[16] – do alemão, “Desculpe.”

[17] – do alemão, “Até logo (formal)”

[18] – do alemão, “Trabalho faz livre”. Frase escrita no portão do campo de Dachau (e de outros campos de concentração), por onde entravam os prisioneiros.

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CAPÍTULO 6

FIRST RETURN

“Bitter as he was,

the battlefield was the only place he could belong.”

Stalingrado, Rússia – Ano de 1939


Aquele lugar tinha um forte cheiro de álcool e pólvora. A madeira sob seus pés rangia com seus passos pesados, e o vento do lado de fora balançava as tábuas das janelas. O lugar era escuro e estava caindo aos pedaços, mas a animação que enchia seu interior deixava-o um pouco menos melancólico. Era a primeira vez que ele o freqüentava; quando era um simples recruta, não tinha interesse algum de socializar-se com os outros. Porém, quando subiu de patente, começou a ter uma obrigação moral de, ao menos, interagir socialmente com os homens de sua tropa. Ele nunca havia sido um homem que fazia amigos com grande facilidade; talvez a distância de relações intimas que manteve desde a infância tivesse sido favorável a esse tipo de situação. Sempre havia aprendido que o sucesso pessoal era mais importante que cultivar relacionamentos, e ele sabia que, graças a isso, havia se tornado bastante amargo. Ambientes demasiadamente ocupados não o agradavam; mas era bom, após aquele longo inverno, conseguir relaxar dentro de um bar numa cidade com algo além de soldados, neve e armas. Não que o local não estivesse lotado de recrutas recém-chegados; mas, nessas horas, enquanto riam, embebedavam-se e contavam suas histórias de família, pareciam um pouco mais humanos do que quando encolhiam-se nas trincheiras preparando-se para atirar.

Ele sentou-se no balcão, e viu o barman encarando-o por alguns poucos segundos antes de, finalmente, vir servi-lo. Primeiro, sentiu-se ofendido e franziu o cenho, querendo que o outro visse sua insatisfação; mas uma breve olhada para suas próprias vestimentas o fizeram compreender. Seu casaco não estava apenas sujo de pólvora, mas também exalava um leve cheiro de sangue – que já havia ganhado uma coloração amarronzada, devido ao tempo. Ele estava em piores condições que a maioria dos soldados no lugar; mas estava exausto demais para ir primeiro para sua casa, do outro lado da cidade, trocar-se, e depois ainda voltar para o bar. Deu de ombros, e pediu um copo da melhor vodka que havia na casa. Mal estava se importando com o dinheiro, contanto que se sentisse aquecido imediatamente. Pegou o copo e levou-o à boca assim que o barman colocou-o sobre a mesa, e sentiu o álcool queimando sua garganta com um prazer que sentiu poucas vezes em sua vida. Aqueles dias frios faziam isso com um homem; tudo o que poderia considerar-se normal, era levado a um nível de satisfação extremo. Ele pensava em como deitar-se em sua cama seria a melhor sensação do mundo, antes de ser chamado novamente para o campo de guerra.


Olhou ao redor, reconhecendo alguns rostos e analisando outros. Parava o olhar quando via aquelas poucas mulheres que vinham satisfazer os soldados no bar, deixando aqueles homens que há tempos não tinham companhia feminina sedentos por seus corpos. Ele mesmo encarava uma delas, desejando-a fortemente – uma mulher de cabelos longos e negros, de olhos verde esmeralda, que sentava-se numa das mesas, conversando com um homem que parecia ser de patente superior à sua. Sua vontade era de aproximar-se e deitá-la na mesa, e fazê-la entregar-se; mas ele tinha consciência de sua posição. Não seria bom pra ele desafiar um superior e, muito menos, atacar uma mulher em plena vista.


Balançou a cabeça para fazer o pensamento ir embora, e gesticulou com a mão para o barman por outro copo de vodka. Tirou o chapéu e colocou-o sobre o balcão, passando a mão pelos cabelos acinzentados que estavam levemente molhados pela neve derretida. Apoiou a mão no rosto, e sentiu que precisava urgentemente de um banho quando sentiu sua pele áspera. Levou a bebida à boca e, num gole, bateu o copo na mesa e deixou algumas notas amassadas. Colocou o chapéu no bolso do casaco, e saiu pela porta; mas não sem dar mais uma demorada olhada na mulher de cabelos negros, que ainda se engraçava com o homem.


A tempestade de neve do lado de fora havia parado, e ele pensou que era melhor apressar-se para casa antes que ela resolvesse começar novamente. Aquele país tinha o inverno mais desgraçado de todos, pensou. Mas não tinha muito o que fazer com relação a isso àquele ponto. Segurou a gola do casaco perto de sua boca, e seguiu seu caminho. As ruas estavam vazias; ele e alguns soldados eram, realmente, os únicos loucos a saírem a pé naquele clima. Ele tinha certeza de que o homem do bar e sua suposta amante sairiam confortavelmente num carro do governo, e iriam direto para um hotel. Mas achou melhor esquecer-se disso de uma vez por todas. No caminho, passou em frente a um grande teatro que era famoso pelas apresentações de balé na cidade, onde havia, pendurado, um pequeno pôster coberto por pequenos flocos de neve que mostrava a foto de uma garota jovem dançando graciosamente e envolta em flores. Era uma garota que ele nunca havia visto antes; provavelmente, no começo de sua carreira. Ela era simplesmente deslumbrante.


E ele pensou consigo mesmo que, um dia, iria até aquele lugar. Nunca havia ido a uma apresentação, qualquer que fosse – teatro, ópera ou balé. Mas acreditava que, assim que conseguisse chegar ao posto de general, poderia levar uma bela mulher àquele lugar e apreciar uma das grandes artes de seu país – e, quem sabe, ver a mulher do pôster pessoalmente. E não precisaria mais passar dias a fio no campo, e voltar para a casa durante o severo inverno russo ansiando por uma única noite de sono tranqüila com a certeza de que teria que voltar ao quartel no dia seguinte. Mas, para chegar a isso, ainda haveria muito trabalho à frente – e resolveu concentrar-se apenas em chegar em casa sem congelar. Depois, quem sabe, continuasse a pensar em seus planos para o futuro – até o presente momento, havia conseguido segui-los.


Quando finalmente chegou na sua rua, frustrou-se ao encontrar a porta de sua casa coberta se neve. Como se já não estivesse exausto o suficiente, ainda teria que usar as próprias mãos para conseguir entrar. Levou a mão ao rosto, em descrença, e suspirou. Para sua sorte, ao olhar ao redor procurando por qualquer ajuda, viu uma pá perto da porta de seu vizinho – e nem sequer hesitou em usá-la. Empurrou a neve com toda a força que lhe restava, e, quando conseguiu abrir a porta, jogou a pá para o lado e entrou.


Sua casa constituía de um corredor estreito, onde, de um dos lados, havia seu quarto e banheiro, e do outro uma pequena sala e uma cozinha. Teve vontade de jogar-se no chão e dormir ali mesmo; mas esforçou-se para ir até o quarto, jogar suas pesadas vestimentas no chão – ele poderia lavá-las mais tarde – e encher a banheira, prontamente ligando o fogo improvisado que havia construído com seu pouco conhecimento sobre mecânica e sua ânsia em banhar-se sempre na água mais quente que poderia ter. Esperou o máximo que pode, despiu o restante de suas roupas, entrou e relaxou o corpo de um jeito que não fazia há meses. Aquele calor que aumentava aos poucos era uma bênção, e nada iria tirá-lo de lá naquele momento. Submergiu o corpo completamente, até deixar a água tocar seu queixo.


No entanto, assim que fechou os olhos, sentiu uma dolorosa pontada na lateral de seu tronco, e acabou tendo de levantar-se para ver o que era, absolutamente contrariado. Um pequeno corte com um pedaço de metal fincado tingia parte da água de vermelho, e ardia em contato com o calor. Perguntou-se como diabos aquilo havia acontecido, e tentou tirar o fragmento de sua pele com as próprias mãos. Foi quando ele se lembrou que, alguns dias atrás, um dos recrutas havia feito a proeza de colocar o pé numa mina alemã e quase ter matado alguém do seu batalhão – além de si mesmo. Como ele estava relativamente afastado, achou que não tinha que se preocupar com nada; mas, provavelmente, aquilo havia perfurado seu casaco e ido direto para sua pele – mas a sujeira e o sangue alheio em suas vestimentas havia escondido tal fato, além do frio muitas vezes ajudar a deixar partes do corpo dormentes e esconder a dor. Ele suspirou pesadamente, e finalmente puxou o pedaço de metal de sua pele, exclamando de dor. Quando olhou novamente, após alguns segundos apertando o ferimento com a mão, viu que ia precisar tratar daquilo rapidamente. Contra sua vontade, levantou-se da banheira e pegou o frasco de anti-séptico do armário. Colocou o liquido numa toalha, e encostou-a no corpo – arrependendo-se quase que imediatamente. Agora, o ferimento ardia ainda mais do que quando estava na banheira. Amaldiçoou tudo o que podia em sua mente, e continuou a apertar a toalha contra o corpo, respirando forte de dor, mas recusando-se a soltar qualquer exclamação. Pegou uma gaze seca de seu armarinho, molhou-a em remédio e prendeu-a ao corpo com um pedaço de esparadrapo – nada iria atrapalhar seu banho agora. Entrou na banheira novamente, ignorando a ardência, e fechou os olhos, finalmente relaxando. E ele apenas desligaria o fogo quando a água começasse a cozinhar sua pele.


Tentou deixar a mente em branco, mas isso lhe parecia impossível. Quando tentava pensar apenas na sensação da água, lembrava-se do ferimento; quando procurava algo para esquecê-lo, seus pensamentos iam direto para a garota do pôster no teatro. E, então, ele pensou no quão deprimente era passar um de seus poucos dias de tranqüilidade pensando em alguém que ele nem sequer havia visto pessoalmente. Levou ambas as mãos ao rosto, frustrado, e passou-as pelos cabelos. Após ficar parado por alguns minutos, pegou o pote de xampu que ele sempre deixava do lado da banheira, e esfregou os cabelos com força. Ligou o chuveiro e mergulhou na água, emergindo logo em seguida e respirando fundo.  A água que enchia a banheira já havia esfriado – e ele concluiu que havia passado tempo demais no banho.


Pegou uma toalha limpa e secou o corpo, e trocou o curativo do ferimento. No quarto, vestiu uma calça limpa, e deixou o peito nu. Ligou o aquecimento a gás, e tudo o que queria naquele momento era dormir pelo resto do dia – e, quem sabe, o dia seguinte – em sua cama sem qualquer aborrecimento. Mas seu estômago o fez mudar de idéia, obrigando-o a ir até a cozinha e abrir a despensa. Grande parte do que havia lá dentro não era mais apropriado para comer; havia semanas que ele não voltava para casa. Pegou o que lhe parecia não estar estragado, e levou à boca, engolindo quase sem mastigar. Quando sentiu-se relativamente satisfeito, voltou ao quarto e jogou-se na cama num pulo. Aquilo era o paraíso, e ele sentiu que nunca havia experimentado uma sensação tão deliciosamente relaxante em toda sua vida.


Ele iria fazer aquilo mais vezes, pensou. Apenas mais um pouco de esforço, e ele poderia ter uma cama ainda mais confortável em Moscou, e iria voltar para casa muito mais freqüentemente. E iria ao teatro, ver a mulher do pôster e muitas outras bailarinas acompanhado de uma bela noiva, junto dos outros generais do exército soviético. E seu pais iria sair vitorioso daquela guerra – ao menos, se isso dependesse dele. Suspirou, e sorriu de leve com seu pensamento. Após alguns poucos minutos, adormeceu.


Moscou, Rússia – Ano de 1950


Damaran acordou na cama do hotel com uma dor de cabeça incrivelmente forte. Ele levou a mão a testa, e quase desejou que a cicatriz em seu olho pudesse voltar a arder – algo com o qual ele estava acostumado e sabia lidar bem – para esquecer-se da nova dor. Arrependia-se de aplicar tanta força no golpe contra seu rival na noite anterior; mas, no calor do momento, não conseguiu pensar em mais nada a fazer. Apesar disso, sorriu com o pensamento de que, naquele exato momento, Alexis provavelmente estivesse com uma enxaqueca ainda pior, que nem sequer o deixasse pensar racionalmente. Uma a ponto de fazer com que Vladilena não agüentasse mais aquele mal-humor que só havia piorado com o tempo.


Ele levantou-se, e pensou no garoto que havia lhe proposto aquele estranho acordo. Perguntava-se o que ele estaria fazendo naquele momento, e se era algo que iria tirá-lo do seu tédio dos últimos dias. Riu silenciosamente e vestiu-se, saindo de seu quarto, esperando encontrar algo interessante para fazer no lobby. Seu humor havia melhorado, ao menos um pouco.

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CAPÍTULO 5 – BONDS

CAPÍTULO 5

BONDS

“One boy looking for a partner,

Two men and one woman looking for excitement.”

Moscou, Rússia – Ano de 1950


Damaran parou frente ao quarto. Sabia que ela estava ali, sabia que ele estava ali. Sabia que poderia pegá-lo ali, naquele momento, vingar-se por toda a frustração, toda a humilhação, acabar com o que o incomodava tanto. Iria vê-la novamente, e acabar com aquilo que os dois tinham. Ela o ter levado para a reunião, naquele hotel, era a oportunidade perfeita que Damaran quase havia perdido. Quase.
Já havia anoitecido, e já sabia que Alexis havia voltado para o quarto. Tinha a mesma certeza de que Vladilena estaria lá. Antes que ele pudesse pensar em bater, no entanto, Vladilena esgueirou-se rapidamente pela porta, fechando-a em suas costas e encarando-o insatisfeita.
-O que diabos você está fazendo aqui!? – perguntou ela, num sussurro nervoso, enquanto mantinha as mãos na maçaneta. Estava pronta para segurá-la com força ao menor indício de Alexis tentar sair do quarto caso desconfiasse de alguma coisa.

-Como você sabia que eu estava na porta? – disse ele, fingindo desinteresse, desviando o olhar. Por que diabos havia ido até lá?
-Você acha que não te ouvi chegando e parando bem aqui em frente? Que não te vi pelo olho da porta? Tive que ficar atenta, sendo você ou não. E se fosse, sabia que ia resolver cometer uma loucura. Você sabe que esse não é só o meu quarto, não sabe? Tem noção disso?

Então, Alexis está mesmo aí. Damaran não sabia ao certo o porquê dele guardar esperanças com relação a Vladilena; mas ele não podia evitar. Especialmente quando não tinha mais nada que pudesse distraí-lo naquele presente momento. Ele franziu as sobrancelhas e não respondeu, evitando o máximo que podia olhar nos olhos da mulher, enquanto ela fitava seu rosto insatisfeita.
-Vá embora, Damaran. Ele não está no melhor dos humores e acho que não é a sua cara que vai ajudar…

No entanto, de repente, a porta abriu em um baque de modo que Vladilena mal pôde sentir que a maçaneta escapava de suas mãos. Damaran conseguira apenas ver o rosto enfurecido de Alexis, que tirava sua pistola do coldre o mais rápido que podia, e avançava para cima dos dois como um animal que atacava sua presa. Vladilena encolheu-se na parede, desviando-se, enquanto Alexis apontava sua arma para o russo que, com as costas no chão, segurava os pulsos do alemão com força enquanto esforçava-se para tirá-lo de cima de si, enquanto procurava uma brecha para pegar sua própria arma em sua cintura. O russo posicionou seu joelho contra o tronco de Alexis, empurrando-o com força; no entanto, o alemão recusava-se a levantar-se, não importando o dolorido fosse ter o osso do joelho de Damaran pressionando seu estômago. Alexis agarrou seu casaco com a mão desarmada, tentando acertar seu peito com a empunhadura do revolver, – já percebendo que não conseguiria apontar o cano diretamente para a face do russo – e apoiou a perna contra seu quadril para impedí-lo de levantar-se. O embate continuou por alguns instantes, com cada um tentando fazer o menor gesto que pudesse causar dor no outro, ao mesmo tempo se protegendo das armas. Damaran torcia o pulso de Alexis, e o alemão alcançava sua face, arreganhando os dedos sobre a cicatriz em seu olho. O russo tentava joelhar Alexis com mais força, tentando empurrá-lo para o lado, não podia deixar de forma alguma que o cano da arma de Alexis apontasse para seu corpo; e Alexis não podia de forma alguma deixar que Damaran sacasse seu sabre da bainha em seu quadril.


Mal puderam notar o garoto que aproximava-se lentamente, do final do corredor, atraído pelo som do pesado corpo de Damaran batendo contra o chão apos Alexis tê-lo derrubado. O russo concentrava-se em tentar quebrar o pulso de Alexis com apenas uma mão, fazendo-o grunhir de dor. Kyouya hesitou, vendo a arma que o havia ameaçado naquele mesmo dia na mão de Alexis. Vladilena observava a luta apoiada contra a parede, e logo notou sua presença, olhando-o com incerteza – um garoto como aquele certamente não seria capaz de separar dois homens como aqueles. E de qualquer forma, o garoto parecia mais interessado em assistir do que em ajudar.

Nem Damaran, nem Alexis estavam dispostos a dar o braço a torcer para resolver a situação racionalmente. Esqueciam do que se passava ao redor, concentrados apenas em matarem um ao outro. A rivalidade tinha atingido um nível que qualquer indicação de fraqueza de um dos lados feriria a sua honra de maneira incurável. Como última opção, Damaran soltou os braços de Alexis, deixando-o cair sobre seu corpo e, num movimento rápido, desferiu uma cabeçada em sua testa. Alexis exclamou de dor quando seu corpo fora jogado para trás, mas possuiu habilidade o suficiente para apontar a arma diretamente para a cabeça de Damaran durante o golpe. O russo, por sua parte, levou a mão à empunhadura do sabre e conseguiu puxar sua lâmina, quase acertando a coronha do revólver de Alexis e aproximando-se de seu pescoço em alta velocidade. O som de um disparo e de uma lâmina atingindo algo fez-se ouvir; mas nenhum dos dois havia atingido seu alvo. Pouco antes da lâmina de Damaran cortar a garganta de Alexis, Vladilena o havia puxando pelas costas para si, fazendo com que o alemão também perdesse a mira e a bala fosse parar na parede, a poucos centímetros da cabeça de Damaran.


Os dois homens sentavam-se no chão, e Vladilena abraçava Alexis com as mãos sobre seu peito. Eles ofegavam, enquanto encaravam-se com raiva, cada um esperando uma pequena brecha para atacar de novo. Ninguém ousava mover-se. Damaran finalmente dera-se conta da presença de Kyouya, que assistia excitado e aproximava-se dos dois – e, no momento em que seus olhos se encontraram com os de Vladilena, o garoto reuniu toda a sua coragem e força para puxar Damaran pelo braço, levantá-lo e correr arrastando-o pelo corredor. Vladilena segurava o corpo de Alexis o mais firme que conseguia, esperando impedir que ele se levantasse, e o inesperado talvez teria sido a única coisa que possibilitara que Damaran e Alexis não voltassem a atracarem-se. Surpreso, Damaran olhou para o garoto, descrente, enquanto ouvia Alexis berrar insultos e lançar rosnados a eles, libertando-se de Vladilena. Percebeu, também, que o garoto era rápido e leve, esgueirando-se para dentro da porta de seu próprio quarto ao virar num outro corredor e fechando-a antes que o alemão pudesse sequer pensar em encontrá-los. A surpresa de Damaran virou irritação quando ele finalmente percebeu que havia perdido sua chance.


-O que pensa que fez!? – exclamou Damaran, irritado, logo que Kyouya soltara seu braço. Ele era pequeno, mas talvez mais forte do que aparentava. E, pelo jeito, também não é completamente estúpido. Levou o sabre de volta à bainha, arrumou os cabelos que caíam sobre seu rosto e cruzou os braços. – Aliás, quem diabo é você?

O garoto endireitou a postura, e curvou-se da maneira mais perfeita que pôde.
-Sou Kyouya Iwasaki. – disse ele, num tom mais confiante do que de quando havia se apresentado para o alemão. – sou sobrinho de Kakuji Inagawa, irmão de Teruo Iwa… – engoliu em seco – Inagawa, líder do Inagawa-kai da Yakuza japonesa. Peço perdão por interferir em seus assuntos, mas… gostaria de conversar.
-Conversar!? – perguntou Damaran, absurdado, tentando compreender de onde o garoto havia saído. Nunca o tinha visto. Tudo naquele hotel começava a aborrecer-lhe. Damaran levou a mão ao rosto, tentando acalmar-se e compreender a situação. Mas isso parecia impossível. – O que você quer? Espero que tenha um bom motivo para ter interferido naquilo que não lhe diz respeito.


-Eu preciso de sua ajuda para aumentar o poder da da minha própria família… sobre o governo japonês. – disse Kyouya, ainda com o corpo curvado, sem encarar o russo. Permaneceu móvel por alguns instantes e quando levantou a cabeça, Damaran estava parado, encarando-o, com a mão no queixo. Ele sentou-se numa das cadeiras do salão, cruzando as pernas, e descansou a mão sobre a empunhadura do sabre. Não possuía mais irritação em seu rosto, mas, sim, curiosidade.
-Interessante. – respondeu Damaran, apoiando-se confortavelmente em sua cadeira e cruzando os braços. Se o garoto está mesmo falando a verdade, parece interessante. – Um garotinho com pretensões políticas. E eu achando que só gente como o Mishima
[1] poderia querer interferir no governo logo depois da guerra. A sua família sabe sobre tudo o que você está querendo fazer?

-Se soubessem, eu não estaria aqui pedindo a sua ajuda. – Disse o garoto nervosamente. Damaran sentia começar a compreender a situação. – Para eles estou apenas atrás de parceiros de negócios.
Damaran olhou para o garoto, estupefato. E caiu no riso. O novato era melhor do que ele pensava; eram poucos aqueles corajosos – ou loucos – o suficiente para, simplesmente, desafiar a autoridade da própria máfia. Mas ele mesmo havia desafiado seu antigo superior anos atrás; e viu em Kyouya uma bela fonte de divertimento.
-Não sei exatamente o que posso fazer para ajudar-lhe – disse ele, sorrindo. – mas fiquei interessado em sua proposta. Pois bem. Diga-me o que pretende fazer exatamente e do que precisa, e verei os meios que possuo para tal.
-Antes disso, preciso fazer alguns preparativos. – disse Kyouya, tentando manter-se o mais respeitoso possível e curvando-se novamente. – Mas agradeço a sua cooperação. Voltarei a procurá-lo assim que…


-Só uma coisa. – interrompeu Damaran, antes que pudesse dar uma chance de Kyouya retirar-se sem que ele conseguisse saber o que queria. – Conhece o Alexis?
-Sim, senhor…
-Propôs a mesma coisa a ele?
Kyouya suou frio; não parecia saber o que responder. Era mais do que óbvio para qualquer daquele meio que Damaran e Alexis eram mais do que rivais. Será que ele vai mesmo dizer a verdade? Seria pior para o garoto se mentisse, e se Damaran descobrisse depois.
-Peço perdão, mas sim. – respondeu o garoto. – Achei que seria ideal aproveitar todas as chances. Mas ele recusou a proposta, então…
-Continue tentando. – disse Damaran, sorrindo maliciosamente. – Uma hora ele vai ceder.
-Perdão? – Agora, ele estava realmente confuso.

-Continue atrás da cooperação dele. Esses alemães estão se acovardando, mas é compreensível. Eu também não gostaria de ser perseguido dessa forma, mas foram eles quem pediram. Se não queriam isso, deveriam ter ganho a guerra. – disse Damaran, rindo. Se o garoto fosse uma ligação entre ele e Alexis e lhe desse mais oportunidades como aquela, sairia no lucro. – Mas uma hora você consegue. Seria bom ter um velho aliado do seu país, não?
O russo observava enquanto o garoto refletia em silêncio. Achava tê-lo convencido; não seria um grande avanço ara o garoto, mas seria algum. E, dessa forma, Damaran teria mais uma ferramenta para manter não apenas Alexis sob vigia, mas também Vladilena perto de si.
-Então, estamos entendidos. – disse o russo, levantando-se e seguindo caminho para seu quarto. – O quarto é o 126. Bata quando precisar.


Damaran saiu do quarto, e sumiu pelo corredor em direção a seus próprios aposentos. Kyouya, por sua vez, sentiu-se aliviado. Agora sim as coisas começavam a funcionar como ele queria. Suspirou, e, saindo de seu quarto para a recepção, pôde apenas ver Vladilena e Alexis – agora ainda mais aborrecido do que quando os dois haviam conversado – no balcão do hotel. A mulher era quem falava com o recepcionista, não apenas pela facilidade da comunicação; mas também porque Alexis parecia prestes a atacar qualquer um que lhe dirigisse a palavra. Pareciam pedir um novo quarto. Vladilena guardou a chave em sua bolsa, e simplesmente depositou um beijo leve no rosto do alemão, esticando seu corpo graciosamente, na ponta dos pés, para alcançar sua face. Ele fechou os olhos e suspirou, em silêncio. Enquanto via os dois passando pelo corredor, Kyouya, tentando manter-se escondido, colocou a mão em seu bolso e sentiu o papel que possuía o nome da moça. Sorriu, e seguiu seu caminho – precisava fazer todos os preparativos e, ainda, descobrir mais sobre seus potenciais parceiros.


Damaran acordou na manhã seguinte com uma dor de cabeça incrivelmente forte. Ele levou a mão a testa, e quase desejou que a cicatriz em seu olho pudesse voltar a arder – algo com o qual ele estava acostumado e sabia lidar bem – para esquecer-se da nova dor. Arrependia-se de aplicar tanta força no golpe contra seu rival na noite anterior; mas, no calor do momento, não conseguiu pensar em mais nada a fazer. Apesar disso, sorriu com o pensamento de que, naquele exato momento, Alexis provavelmente estivesse com uma enxaqueca ainda pior, que nem sequer o deixasse pensar racionalmente. Uma a ponto de fazer com que Vladilena não agüentasse mais aquele mau-humor que só havia piorado com o tempo.
Ele levantou-se, e pensou no garoto que havia lhe proposto aquele estranho acordo. Perguntava-se o que ele estaria fazendo naquele momento, e se era algo que iria tirá-lo do seu tédio dos últimos dias. Riu silenciosamente e vestiu-se, saindo de seu quarto, esperando encontrar algo interessante para fazer no lobby. Seu humor havia melhorado, ao menos um pouco.

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[1] Yukio Mishima (三島 由紀夫) – Escritor, nacionalista e ativista de direita japonês, fundador do Tatenokai – milícia dedicada aos costumes tradicionais japoneses e veneração ao Imperador. Pregava a aplicação do Bushido na sociedade moderna e a restauração do império japonês após a Segunda Guerra Mundial, com a renuncia do imperador Hirohito e a abdicação de seus poderes divinos devido à sua derrota pelos aliados.


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CAPÍTULO 4 – REFUSAL

CAPÍTULO 4

REFUSAL

“He would never risk himself for the sake of others.

Just for his own pride.”

Moscou, Rússia – Ano de 1950


Kyouya acordou com a primeira luz que entrava pela janela. Ainda sentindo o cansaço da viagem, levantou-se e foi até a varanda, abrindo as cortinas e deixando o quarto iluminar-se. Apertou os olhos para a luz que batia direto em sua face e ofuscava sua visão, deixando-o por um momento confuso sobre onde se encontrava. A neve havia cessado, e o sol mostrava-se num céu azul sem nuvens. Já havia movimento nas ruas; no inverno, o sol demorava-se mais a levantar do que as pessoas. Homens e mulheres com grossos casacos de algodão pesado, peles, chapéus que protegiam suas cabeças do frio intenso andavam nas calçadas, automóveis iam e vinham, parando em frente aos hotéis daquela mesma rua, deixando e pegando passageiros. A cor do céu não combinava com a maneira como todos vestiam-se e encolhiam-se dentro de seus casacos para aquecer-se; Kyouya sentiu uma incrível calma vinda daquele azul intenso, da forte luz que refletia no branco da neve que restava sobre prédios, varandas, carros estacionados, nas beiradas das calçadas. Nas ruas, ela já havia tornado-se marrom, misturando-se com a terra, o asfalto e a sujeira de uma cidade grande. Não muito longe, um trabalhador jogava areia pela calçada, para que o gelo derretesse e as pessoas pudessem andar sem preocupações. Um cão tremia frente a uma loja, esperando seu dono do lado de fora. Uma mulher levantava uma criança aparentemente já cansada de andar em suas curtas pernas naquele frio intenso. Kyouya observou-os por um momento. Era o que sabia fazer melhor: observar. Apenas observar.


Foi até o banheiro, arrumar-se para seu primeiro dia naquele lugar. Sem demorar-se, banhou-se, vestiu-se e levou um casaco no braço, saindo de seu quarto sem esquecer de trancá-lo. Perguntava-se o que deveria fazer. Se deveria procurar qualquer uma das pessoas que havia conhecido na noite anterior; se devia procurar o homem da biblioteca, que tamanha impressão nele deixara; se devia sair e observar mais a cidade, as ruas, como a vida naquele lugar funcionava, conhecer um lugar novo. Desde pequeno dificilmente havia saído de sua casa, tido curiosidade de conhecer novos lugares ou até coragem de deixar o lugar que lhe era tão confortável. Nunca havia saído de sua própria cidade, conhecido seu próprio pais. E ali estava. Tão longe de casa, sem conhecer uma pessoa sequer, tentando aprender a se comunicar melhor ali. O que sabia havia aprendido sozinho, mas dificilmente havia praticado. Havia tido alguma ajuda, mas nunca contato direto com alguém de lá. Por vezes esquecia-se qual havia sido seu grande estímulo para ir até lá… e então, lembrava-se dela. Dela, e de que seu lugar tão seguro e confortável não era mais tão seguro assim. O dia parecia estar agradável, tão diferente de quando havia chegado, e o sol o lembrava de sua própria casa, de sua família, longe. O lembrava de como a mata ficava bonita nos dias ensolarados, e como ela gostava daquilo, como ela gostava. A lembrança fez com que sentisse um incômodo no peito, uma saudade que quase fazia-o se arrepender de estar tão longe. Mas não deveria ficar pensando nisso agora.

Desceu as escadas até a recepção, sentindo o estômago torcer-se de fome. Lembrou-se que não havia comido nada na noite anterior, e perguntou ao homem do balcão onde poderia quebrar o jejum. O recepcionista apontou em direção ao restaurante, e Kyouya surpreendeu-se ao ver que justo naquele momento, o alemão que havia visto no dia anterior saía pela mesma porta.
Ele vestia-se de forma mais simples, com uma camisa de linho branco e um casaco azul acinzentado sobre os ombros. Os cabelos estavam perfeitamente penteados, divididos no meio, e ao aproximar-se Kyouya pôde notar que até seus cílios possuíam a cor de louro claro de seus cabelos. O garoto sentiu-se novamente intimidado. Agora que estava perto a ponto de poder fazer contato, viu que o homem era não apenas muito mais alto que ele, como também bem mais largo. Ele, no entanto, não se importou com a presença do garoto, passando por ele sem sequer dirigir-lhe um olhar. Kyouya acompanhou-o com o olhar, levemente ofendido.

-Com licença! – exclamou para o alemão, que novamente o ignorou, seguindo seu caminho até a porta da frente. Kyouya apressou o passo atrás dele e tentou novamente, numa língua que pensara que o alemão poderia compreender.
-Com licença, senhor!
Desta vez, Alexis parecia ter ouvido. Apenas olhou-o sobre o ombro, analisando o garoto com os olhos da cor do gelo de pupilas estreitas. Kyouya parou em sua frente, notando que o alemão franzia o cenho para ele.
-O que é? – perguntou a ele Alexis, já parecendo irritado.
-Eu gostaria… de perguntar uma coisa. – disse o garoto, soando um tanto informal demais para seu próprio gosto. Alexis ergueu uma sobrancelha, não disse uma palavra. Apenas seu olhar dizia a Kyouya para prosseguir.

-Eu… perdão. Meu nome é Kyouya. Kyouya Iwasaki…
Alexis mantinha-se em silêncio.
-O senhor…? – perguntou o garoto, constrangido. Ele não vai me dizer seu nome? Sentia-se cada vez menos levado a sério. Alexis analisou-o com o olhar por um longo instante, e Kyouya sentia um arrepio subindo pela sua espinha. – O seu nome? – insistiu novamente, tentando não soar insolente. O homem franziu-lhe o cenho.

-Alexis Reinhardt. – e apenas isso.
-Muito prazer, senhor Rein…
-O que você quer? – o tom do alemão parecia cada vez impaciente.
-Eu queria perguntar… eu sou sobrinho de Kakuji Inagawa, irmão de…
Kyouya pôde ver claramente que o alemão virava os olhos e soltava um suspiro de aborrecimento. Isso só fez com que ficasse cada vez mais nervoso, receoso que estivesse fazendo algo errado, e acabou calando-se. Alexis o encarou por mais alguns segundos.

-Se queria só se apresentar e fazer amigos, dispenso. Não me faça perder ainda mais do meu tempo. – rosnou ele, virando-se novamente para a porta.
-Senhor!! – exclamou Kyouya, segurando na manga do casaco de Alexis num ímpeto de nervosismo que o fez esquecer-se dos modos que havia tanto se esforçado para manter. Alexis virou-se para ele bruscamente, agarrando em sua camisa e levando a mão direita de seu quadril ao próximo do rosto do garoto; e Kyouya pôde sentir o cano frio e o cheiro de ferrugem de uma velha Reichsrevolver que Alexis apontava sob seu queixo. O rosto do alemão retorcia-se de irritação enquanto o do garoto tomava uma expressão de medo. Fechou os olhos, apertando-os, e engoliu em seco. Alexis pressionava a arma contra seu maxilar, com o dedo no gatilho, e Kyouya não sabia ao certo o que havia feito para irritá-lo àquele ponto. Haveria falado demais? Mas nem cheguei a terminar uma única frase… sentia Alexis encarando-o, podia imaginar a expressão em seu rosto. Por algum motivo, o rosto de seu irmão veio à sua mente, sorrindo-lhe, e o cano frio em sua pele… Kyouya forçou-se a abrir os olhos, e notou que aos poucos o alemão baixava seu braço, ainda de expressão fechada. Lentamente, ele o soltava, voltando a guardar a arma no coldre escondido em seu quadril por baixo de seu casaco.

O garoto suspirou com alívio, e olhou ao redor. Aparentemente, apenas algumas pessoas observavam a cena, com mais curiosidade do que alarme. Alexis cruzou os braços.
-Vai se arrepender se sair tocando em qualquer um desse jeito, moleque. – resmungou ele, arrumando a manga da própria roupa. – Última chance. O que quer?
-Eu… – mordeu o lábio, esfregando a pele onde a arma havia lhe tocado. – Eu gostaria de pedir-lhe ajuda com alguns assuntos da minha família, preciso de experiência… nesse ramo, aqui…

-A sua família não me interessa.
-Eu queria apenas que me ensinasse…
-Ensinar o quê?
-Sobre como as coisas funcionam aqui, posso oferecer um acordo com o meu grupo, digo, o grupo do meu tio, do meu… irmão, o Inagawa
[1]
-Não é comigo que deve falar sobre acordos.
Kyouya calou-se. A chance que ele lhe havia oferecido não parecia mais do que uma chance de ter mais frases interrompidas.


-Era só isso? – perguntou o alemão.
-Se pudesse ao menos me ensinar algumas coisas…
-Também não sou eu quem deveria te ensinar essas coisas.
O garoto não sabia mais o que dizer. Ele realmente não está interessado, havia deixado isso claro. Talvez a intuição de Kyouya lha havia mentido. Talvez ele realmente não fosse a pessoa mais apropriada para isso, não poderia ajudar, por mais que Kyouya acreditasse que qualquer ajuda que conseguisse seria o suficiente. Sentia-se frustrado, mas sabia identificar quando uma pessoa não desejava mais conversar.
-Eu… compreendo. Desculpe tê-lo feito perder seu tempo.


Alexis soltou um longo suspiro e levou as mãos aos bolsos. Vendo que o garoto aparentemente não desejava falar mais nada, simplesmente virou as costas, seguindo seu caminho. Ajeitando o casaco sobre os ombros, saiu do hotel enquanto Kyouya observava suas costas, em silêncio. Suspirou profundamente e passou os dedos pelos cabelos. Talvez o homem da biblioteca seja uma melhor opção. Se não conseguisse nada com ele, iria então pensar em outras possibilidades. O pensamento de falhar novamente, no entanto, o atormentava. Começava a sentir que não havia pensado direito no que faria, e simplesmente pulado no primeiro navio e depois no primeiro trem que vira após atravessar o mar até o continente.
-O Alexis te magoou?

Quase pulou no lugar, pego de total e completa surpresa. Levando a mão ao peito, virou-se e deparou-se com a mulher, a mesma do vestido vermelho que havia passado a festa da noite anterior com o alemão, que lhe sorria, parecendo divertir-se.
-Te assustei. – riu ela, com as mãos para trás. É ainda mais bonita de perto, notou Kyouya ao perceber seu rosto próximo do dele.
-Eu não… perdão?
-Te assustei. Você quase pulou. – ria, levando uma mão fechada em punho sobre a boca. – Vi você conversando com o Alexis. Parece triste, qual foi a grosseria dele dessa vez?


-Grosseria?
-Pfui, claro. É assim que ele faz novas amizades, com grosserias. Por isso que ele não faz novas amizades, entendeu?
Ele não pode evitar rir. A expressão da mulher fazia-a parecer-se com uma criança, não mais com a mulher deslumbrante da noite anterior. Ela sorriu, talvez vendo que ele agora parecia menos preocupado, e estendeu-lhe a mão.

-Vladilena Lukyanovna. Sou a parte divertida do casal. Pode me chamar de Lena, se quiser, é mais fácil.
-Kyouya. – Ele estendeu-lhe a mão de volta. Pode me chamar de…
-Kyo. – riu ela, apertando a mão dele. – Apelido por apelido. O que foi falar justo com o Alexis? A cara de antipático não te assustou?
-Eu queria ajuda com um assunto… – hesitou um pouco, sentindo ao mesmo tempo confortável em conversar com ela e receoso por sentir-se daquela maneira. Vladilena o observava curiosa; era, vista de perto, pequena e muito magra. Ainda mais baixa que ele, provavelmente pesava o mesmo que uma criança. Seus cabelos louros desciam soltos pelos seus ombros, e os olhos azul esverdeados eram rodeados por longos cílios escuros. Vestia-se de forma mais simples, com um vestido claro nos joelhos e botas de inverno, com um casaco de peles branco sobre os ombros.

-E vai me falar o que é?
-Queria só ganhar um pouco de experiência…
-Com o Alexis? Que tipo de experiência suspeita quer com ele?
-Suspeita?
Ela riu.
-Herr Obergruppenführer Alexis Reinhardt, ex-general da Waffen SS, do Wehrmacht
[2] e tudo mais do não-mais-tão-glorioso terceiro Reich alemão. E a pessoa menos simpática que você pode esperar encontrar em toda sua vida.

Kyouya surpreendeu-se. Esperava encontrar pessoas relacionadas a guerra, ao governo, ao crime, mas deparar-se de primeira com alguém assim… alguém que lhe soava tão importante, por mais que não soubesse exatamente o que aquilo significava.
-Ele…?
Vladilena balançou a cabeça afirmativamente.
-Pena que agora não significa muita coisa, né? Só que se ele não tomar cuidado, acaba atrás das grades.
Kyouya calou-se por um instante novamente, encarando-a. Ela continuava a sorrir, e entregou-lhe um papel.

-Aqui. Esse é o número do nosso quarto, e meu quarto. Se precisar de alguma ajudinha, pode me procurar. – piscou para ele e girou sobre os calcanhares, acenando. – E cuidado com os mais perigosos. Alguns realmente apertam o gatilho, viu?
Ele sorriu-lhe em agradecimento, e acenou de volta. Vladilena subia as escadas e desaparecia pelo corredor, enquanto ele novamente a observava, parado no mesmo lugar. Olhou o papel em sua mão e colocou-o no bolso da calça, virou-se para a porta da frente e vestiu o casaco que levava no braço. Aquele dia, iria sair; a noite, tentaria a sorte com o homem de cabelos cinzas da biblioteca.

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[1] Inagawa-kai (稲川会) – Grupo Yakuza japonês de base na região de Kanto, fundado em 1945 por Kakuji Inagawa. Uma das primeiras a iniciar operações fora do Japão. Atualmente, é o 3o maior grupo Yakuza existente.

[2] Wehrmacht – Força de defesa alemã de 1935 a 1945, incluía o exército, a marinha, a força aeréa e, posteriormente, a Waffen-SS – ramo de combate da SS, a força paramilitar do Partido Nazista.

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