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Archive for February, 2011

CAPÍTULO 3

DISPLEASURE

“Everyone could see in those cold eyes of his

That he nourished great hatred for all humanity.”

Moscou, Rússia – Ano de 1950


O ambiente todo o estava aborrecendo. Sentia falta dos tempos que poderia simplesmente se retirar sem dar qualquer satisfação, quando tinha autoridade pra isso. Quando ainda tinha autoridade suficiente. Ele fora capaz de manter sua pose frente à todas aquelas pessoas por um tempo mais longo do que julgara poder, mas sua paciência começava a esgotar-se. Não tinha vontade alguma de conversar, mas forçava-se a responder. Estavam olhando, sabia que estavam. Não poderia escorregar; tinha de manter-se impassível. Contorceu os lábios, frustrado, pensando em quanto mais teria de agüentar toda aquela escória.


Era dessa maneira que criava suas categorias. Todos eram lixo, até que provassem o contrário. Os anos o deixaram cada vez menos afável, se é que algum dia havia sido. Seu desgosto em lidar com pessoas era crescente… ainda mais em lidar sendo forçado a tal. Não se lembrava de praticamente ninguém, ali, que o convencera ser uma pessoa que valia a pena conversar.
-Vejo que está bem acompanhado esta noite, Reinhardt. – disse um homem de cabelos brancos, muito bem arrumados, vestido num terno negro. Ele olhava para a mulher de vestido vermelho com uma expressão de quase paixão; ela era real e incrivelmente deslumbrante, e mantinha em seu rosto um sorriso que acentuava ainda mais a beleza de seu rosto.

-Fico agradecido, senhor. Não é fácil manter uma beleza assim ao meu lado…
A mulher riu nervosa, quase sarcasticamente. Ela estava acostumada a receber esse tipo de elogio, mas achava incrível como aquele homem não apenas sempre conseguia absorver qualquer lisonjeio para seu próprio ego, como também dava seu jeito de insinuar algo em cada uma de suas palavras. Ela levou a mão a seu braço, lentamente. Ele sorriu para ela de forma claramente forçada, e ela não se importou nem um pouco.
-Mas que exagero. Não foi nenhum sacrifício me convencer a vir com você, foi, Alexis? Pelo contrário, senhores… devem saber como é difícil fazer com que ele compareça a eventos desse tipo. É tímido.


Alexis olhou-a com o canto dos olhos, e calou-se. Se ela quer tanto guiar a conversa, que guie. Poupava-lhe o esforço de socializar-se. Apenas sorriu pra ela, novamente, como se mostrasse a ela que sua brincadeira transformava-se em vantagem para ele. Olhou ao redor da sala, procurando algo que o interessasse, mas pegou-se pensando em uma saída. Se Vladilena prendesse a atenção dos homens por um instante, se distraísse… mas, aparentemente, ela também parecia mais interessada em procurar algo pelo salão, e sua expressão de insatisfação deixou claro a Alexis que ela não havia encontrado o que queria. Ele notou-a levar a mão ao ombro e sorrir, e soube que ela colocaria seu ato em ação. Não era tão fácil enganar ou omitir coisas de Alexis; sua desconfiança com tudo era tal que ele sempre farejava o que havia e o que não havia por debaixo de muita coisa. Ele bem sabia que ela faria algo que não iria gostar… mas não estava em posição de negá-la. Não estava com vontade de agüentar seu mau-humor, seus argumentos, sua autoridade pelo resto da noite, especialmente depois que estivessem sozinhos no quarto.


-Se puderem me dar licença, – disse ela, forçando um sorriso. – vou apenas resolver um assunto e volto num instante. Não vá embora sem mim, viu, Alexis? – riu, jocosa, depositando-lhe um leve beijo na bochecha. A expressão dele continuou inalterada. Por mais que lhe doesse admitir, ela não era uma mulher fácil de se dominar.
O jogo de manipulação já lhe era conhecido. Amizades não eram verdadeiras, alianças eram mantidas apenas até que uma maior vantagem surgisse do outro lado. Havia aprendido isso antes mesmo de se envolver com tudo aquilo. Seu primeiro emprego havia lhe ensinado como não deveria confiar de verdade em ninguém. Amigos se viravam contra amigos, intrigas para tirar prestígio de outros e eliminar ameaças eram constantes. Uma única ameaça, um único segredo descoberto poderia colocar tudo a perder das mais inesperadas maneiras. Ele sabia que ela o manipulava, e talvez estar consciente disso fosse sua escapatória. Nunca estaria totalmente convencido de nada que poderia vir dela, por mais inocente e infantil que ela pudesse, muitas vezes, parecer. Era uma mulher que havia experimentado a inocência, o prazer e o poder.

Inocência era uma palavra sem importância naquele lugar. O vencedor era aquele que exercesse mais poder, que acumulasse mais aliados e tirasse deles o máximo de vantagem que conseguisse, quem fosse o melhor em mentir. E isso era algo no qual ele era terrível.
-Se me permite, – disse ele, dirigindo-se ao senhor que o havia abordado antes de perder-se em pensamentos – preciso ir até o jardim. O ar daqui de dentro está ficando abafado. – e saiu antes que o outro pudesse dizer qualquer palavra, a passos rápidos, sentindo o ambiente apertar-se a sua volta.

Do lado de fora, na varanda, o vento gelado atingia-o como uma lâmina. Não se importou. Uma vez livre de toda a multidão, sentia-se aliviado, livre, confortável. Nunca havia gostado de lugares cheios; e sua aversão a tal havia piorado com o passar dos anos. O inverno russo era severo, mas o incomodava menos do que passar mais tempo no salão. Tudo o que queria era poder voltar para seu quarto… ou ainda melhor, para sua casa. Sentia falta de sua casa. Um lugar onde ninguém incomodaria, onde poderia ler tranqüilo, apreciar a própria presença… mal podia se lembrar de tais lugares, de tais momentos, de tanto tempo que parecia ter passado desde a última vez que conseguira relaxar dessa maneira. Sentia que apenas nos últimos cinco anos que haviam se passado, havia envelhecido, no mínimo, o equivalente ao dobro.


De repente, Alexis sentiu um baque em suas costas. Sua irritação despertou novamente, fazendo-o virar os olhos ao ouvir aquela voz fina, manhosa, com aquele sotaque que tornava o alemão dela quase incompreensível. É impossível conseguir sequer um pouco de paz neste lugar. Mataria por mais que poucos minutos sozinho.
-Alexis! Então, sua namorada te deixou ao relento…? Não está com frio…?
Uma garota de cabelos castanhos, vestida com dezenas de rendas e fitas, abraçava-o pelas costas com as mãos sobre seu peito. Alexis soltou um rosnado aborrecido; era raro que deixasse alguém fazer contato de forma tão próxima, tão íntima, não gostava de ser tocado sem permissão. E, ainda, se incomodava com o comportamento infantil dessa garota em especial…

-Agora não, Cienna. Aprenda a se comportar. – ordenou friamente.
A garota fez bico, mas logo sorriu.
-Quem vai me repreender se eu me comportar como quiser…? Parece que é você quem está na condição de obedecer, Lexis. – riu ela, encolhendo os ombros. – Se quiser, te faço companhia até a russa voltar.
-Dispenso.
-Tem certeza…?
-Volte pra dentro.

-Não fale assim. Sabe que ele está bem de olho em você, não sabe…? – sorriu ela, ao ver Alexis calar-se. Um arrepio subiu pela sua espinha, fazendo-o desviar o olhar. – Posso ficar com você em nome dos velhos tempos… sei como é ficar do lado perdedor.
-Volte pra dentro, Cienna.

A repetição do comando era a deixa para que ela entrasse. Alexis apenas repetia uma ordem quando encontrava-se a ponto de explodir… e naquele momento, não seria nada bom, mesmo para ele. Cienna parecia saber bem quais seriam as conseqüências se o contrariasse.
-Está mais irritadiço que o normal hoje, Alexis… mas tudo bem. Acho que ainda te vejo de novo, logo… – sorriu, soltando-o e acenando. Entrou em um meio saltitar de volta no salão, para junto dos homens com quem anteriormente conversava. Alexis achava aquela cena surreal.

Ao fechar da porta, Alexis finalmente pôde ouvir o silêncio. A neve que havia começado a cair aos poucos ajudava a abafar os sons da rua, e as vozes do salão, amainadas pelas portas fechadas, começavam a sumir para ele a medida em que se perdia em pensamentos. À luz fria de inverno, seus cabelos pareciam ficar totalmente brancos, como a neve que sobre eles caía. Eram finos, até demais para um homem de quase quarenta anos; não haviam mudado desde que ele nascera, costumava dizer sua mãe, nem em textura, nem em cor. Ouviram dizer que a maior ironia em sua aparência eram seus cabelos de criança, considerando sua personalidade sóbria. Suas sobrancelhas eram da mesma cor de loiro claro, e os cílios ao redor dos olhos azul celestes praticamente cândidos. Poderiam formar uma figura até bastante estranha, não fosse o fato de sua pele ser muito próxima da tonalidade dos fios. Lá fora, parecia ainda mais acinzentada do que o levíssimo tom de salmão que, algumas vezes, aparentava ter. Dava-lhe um semblante cansado, por vezes envelhecido, o que era um reflexo perfeito de como se sentia durante a maioria do tempo. Não tenho nem quarenta anos, incomodava-se. Não devia ter essa expressão, não devia sentir as dores que sentia, ou mesmo remoer as frustrações do passado. Devia ir em frente, procurava sempre dizer a si mesmo.

O ar frio começava a incomodar sua garganta. Pigarreou e puxou a gola da camisa para cima, numa tentativa frustrada de aquecer-se, recusando-se a entrar. Talvez preferisse adoecer-se a ter de encarar uma próxima festa, reunião, fosse aquilo o que fosse. Talvez fosse uma desculpa para voltar para casa. Já havia passado tanto tempo longe, forçado a passar dias a fio naquele lugar estranho que lhe trazia más lembranças… uma nova sensação de vazio tomou conta dele, fazendo-o levar a mão ao peito. Não agora. Apertou os dedos agarrando-se ao próprio terno e fechou os olhos, respirando fundo. O que menos desejava naquele momento era passar a impressão de não possuir total controle de si mesmo, por mais difícil que fosse. Tinha de manter-se racional e com o pensamento aguçado, até encontrar-se realmente sozinho. E como queria ficar sozinho…

Sentia o corpo tremer, mas felizmente soube que era apenas efeito do frio. Endureceu o corpo numa vã esperança de sentir-se mais aquecido, e suspirou. Uma outra voz e um leve toque quente em suas costas o surpreendeu, fazendo-o virar o rosto. Vladilena sorria-lhe trajando um casaco de peles branco, e levava seu próprio sobretudo preto a suas costas, afagando seus braços.
-Se continuar assim aqui fora, vai congelar. – sorriu-lhe ela, aquecendo os as pequenas mãos. – A neve parece ser uma companhia tão interessante, não é? Aposto que adora ouvir o que ela tem a dizer. Se bem que acho que sabe apreciá-la melhor do que eu, já que o diálogo de vocês é tão animado…

Alexis virou-se para ela e ajeitou sozinho o casaco sobre as costas, sem sequer esboçar um sorriso.
-Já resolveu seu ‘assunto’?
-Não era nada de especial. – ela mantinha o sorriso no rosto. – Agora o meu único assunto a tratar é esse bem na minha frente, a ponto de virar um cubo de gelo.
Alexis havia há muito notado como o sorriso dela se modificava. Já havia visto seu sorriso jocoso, esse mais vezes do que qualquer um, quando ela parecia uma criança prestes a aprontar. Sorria assim quando conseguia o que queria, quando divertia-se, quando alguma coisa parecia agradar-lhe. Ela tinha seu sorriso de malícia, que o lembrava de sua força e de que ela não era alguém em quem se podia facilmente confiar, que era como ela sorria quando ambos encontravam-se sozinhos na cama. E havia um sorriso mais leve, que ele poderia até, talvez, chamar de carinhoso. Não havia nele malícia nem divertimento, mas sim uma ternura que Alexis podia muito facilmente confundir com piedade. E isso muitas vezes o irritava. Manteve-se impassível. Ela tinha no rosto, agora, o sorriso piedoso. Aquele sorriso que dizia que ele necessitava de piedade, que o diminuía, que tirava dele o sentimento de auto-controle. Que o lembrava que ele não estava sob controle.

Como resposta, ele sorriu. Sorriu apenas com os lábios, para deixar claro que não era verdadeiro. Levou a mão a nuca da mulher, agarrando seus cabelos com mais força do que um gesto carinhoso deveria ter, e beijou-lhe nos lábios curvando o corpo. Precisava ter iniciativa para mostrar que poderia dominar, para mostrar sua vontade. Por fora, os dois assemelhavam-se a um casal perfeito e estupidamente belo; e os dois sabiam como, no interior, nenhum dos dois era dessa forma. E era esse conhecimento mútuo que os mantinha juntos, ao menos em parte. Apos o prolongado beijo, ambos se entreolharam por um instante.
-Estou cansada de conversar. – disse ela, escorregando uma de suas mãos pelo peito dele. – O que acha de subirmos para o nosso quarto?
-Você não sabe ser discreta, não é? – Um beijo e consigo me retirar daqui, com uma sugestão vinda dela. Perfeito.

A mulher simplesmente sorriu, e, gentilmente, conduziu-o através do salão até a escadaria. Ele soltou sua mão uma vez que não se sentia mais confortável com ela andando a sua frente, e passou os braços pelas costas da mulher, indo em direção ao seu quarto. Alexis preferiria ter um quarto apenas para si; não tinha grandes segredos a esconder dela, mas sentia-se mais confortável em sua intimidade solitária. Havia se acostumado com a solidão a ponto de apreciá-la. Mas, com ela, isso dificilmente seria possível. Não passava o tempo todo no quarto; mas ela, sabia ele, gostava de pensar que chegaria e o encontraria ali, esperando por ela.

Pelo corredor, passou por eles uma figura de cabelos negros num terno excelentemente costurado, que girava um molho de chaves no indicador. Vladilena lançou-lhe um olhar de desprezo. Ele, por sua vez, sorriu para o casal. Alexis o conhecia de vista, mas nunca haviam conversado. Era o proprietário dos hotéis da região, um milionário em plena vista em meio a um estado dito socialista. E alguém que claramente desagradava a Vladilena. Ela rapidamente abriu a porta do quarto e puxou Alexis para dentro, sem uma palavra sobre o homem.

O aposento parecia mais um apartamento do que um quarto de hotel. Por mais que os únicos que entravam no quarto fossem Alexis e Vladilena – ou assim ele esperava – Alexis insistia em manter todas as suas coisas em perfeita ordem, nada fora do lugar. Um livro e um par de óculos encontravam-se sobre a cômoda ao lado da cama, junto a um copo de água cheio. Todas as suas roupas estavam dobradas dentro de sua mala, inclusive as usadas, que ficavam em um canto separadas das demais. Um casaco estava pendurado sobre a cadeira, e no banheiro, mantinha apenas os mais necessários artigos de higiene sobre a pia. Seu lado da cama estava impecavelmente arrumado e limpo. O lado de Vladilena, no entanto, era o completo oposto. Suas roupas na mala estavam mais jogadas do que arrumadas; havia peças de roupa sobre a cama, sobre o casaco de Alexis na cadeira, no banheiro. Seus produtos de beleza estavam por toda a parte, dominando o ambiente. Alexis incomodava-se; mas havia há muito desistido de tentar convencê-la a manter alguma espécie de ordem naquele lugar.

Vladilena sentou-se na cama, e começou a soltar os cabelos. Os longos e cheios cachos loiros desciam por suas costas brancas, e ela começava a abrir o vestido de modo que ele continuasse em seu corpo, mas a livrasse do aperto que sentia no busto. Quando sentiu-se um pouco mais confortável, foi até o banheiro lavar o rosto e tirar a maquiagem – ela achava desagradável usar na cama, e tinha a convicção que não importava se seu rosto estivesse pintado ou não – ela continuaria confiantemente deslumbrante. E isso era algo bastante útil.
Alexis acompanhou-a com o olhar, despindo por sua vez seu terno e sua camisa. Seus olhos, como de costume, dirigiram-se diretamente para a enorme cicatriz que ele possuía em seu ombro e que tanto o incomodava. Era grotesca, uma enorme ferida que jamais havia se curado totalmente. Entre seu ombro e seu peito e também em suas costas, atravessando seu corpo, o centro dela ainda possuía um tom avermelhado, arroxeado, enquanto seus pequenos braços rosados se estendiam como um sol de carne e pele. Ela não apenas feria sua vaidade; fazia-o lembrar de coisas que queria esquecer, fazia-o lembrar de humilhação.

Ele sentou-se na cama, apenas esperando que a mulher estivesse pronta, curvando o corpo para frente e apoiando os cotovelos nas pernas. Ao voltar, Vladilena parou frente a ele e sorriu. Lentamente, deixou que o vestido escorregasse por sua pele, por suas pernas, até o chão. Alexis a observava em silêncio, e ela ajoelhou-se em seu colo, afagando seu peito com ambas as mãos, lentamente aproximando os lábios dos dele e beijando-o com carinho. Ele deitou-se, com ela sobre si; enquanto ele deslizava os dedos por suas costas, ela levou as mãos ao seu cinto e a braguilha de suas calças, sedenta. Beijando mais forte, Alexis agarrou seu quadril e apertou os dedos, quase machucando-a, fazendo-a soluçar baixo, ao que ela respondeu com um sorriso maroto. Ela puxou-lhe as roupas, colando o próprio quadril no dele, movendo-se, a princípio lentamente, depois forçando-se e apertando o próprio corpo contra o dele, guiando-o para dentro de si. Um gemido mais alto e um grunhido deram início a uma dança de corpos sobre os lençóis, de prazer, de uma estranha paixão distorcida, e um jogo de domínio. Ele tentava discretamente machucá-la, ela tentava mostrar que liderava. A sensação de perigo a agradava, ele sabia, ele não podia deixar que o receio tomasse conta de si. Virou-se sobre ela mordendo-lhe o pescoço, investindo com cada vez mais força, grunhindo mais alto, ofegando, apalpando o corpo dela, suas curvas, seus seios, suas pernas. Ela afagava seu peito, arranhava suas costas, pressionava a palma da mão sobre sua cicatriz para ouvi-lo grunhir de dor. Ele estremecia e a castigava sem piedade, um castigo que ela adorava, que a fazia gemer cada vez mais alto e lhe proporcionava espasmos pelo corpo, seu rosto vermelho, seus seios enrijecidos. As exclamações de prazer tomavam o aposento quase como um êcstasi, numa conquista pessoal, numa realização egoísta dos dois lados.

Os corpos se entrelaçavam e se soltavam, e as gotas de suor misturavam-se, num contraste curioso entre aquele homem grande, de ombros largos e expressão severa, e aquela mulher magra, pequena e com um rosto que passava-se por inocente, mas que sabia muito bem como manter o controle. Quando sua boca finalmente havia se libertado do último intenso beijo ao qual ele a submetia, murmurou num sussurro carinhoso:

-Ich liebe Dich, Alexis. [1]
-Lügnerin. [2] – respondeu ele, sem alterar a expressão em seu rosto, porém, com um minúsculo pingo de angústia em sua voz. Lügnerin. A dança de prazer continuou até o amanhecer, fazendo Alexis por um breve instante esquecer-se da festa, de onde estava, da situação em que se encontrava. Ele não sabia o que aconteceria no dia seguinte, parte de si não queria saber; tudo o que ele queria era esquecer-se e voltar para casa. Para um lugar familiar, onde pudesse ficar sozinho, sem que nada pudesse incomodá-lo. Sozinho.

_________________________

[1] – do alemão, “Eu te amo, Alexis”

[2]- do alemão, “Mentirosa. “

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CAPÍTULO 2

INDIFERENCE

“He couldn’t show any kind of feeling

Just as a machine that only knew how to fight for it’s own sake.”

Moscou, Rússia – Ano de 1950


O silêncio da biblioteca lhe agradava muito mais do que aquele salão repleto de pessoas, com cuja maioria quem ele não necessariamente se importava ou chegava ao ponto de odiar. Eram poucos com quem ele se sentia confortável. Alguns poucos amigos antigos com quem poderia manter um diálogo, quando de bom humor, quem sabe um negócio. Mas por mais que houvesse quem ele pudesse chamar de amigo naquele salão, as presenças de mais pessoas desconhecidas ou a ele desagradáveis fazia seu humor afundar. Sempre preferira ficar sozinho, já que nunca fora muito habilidoso em interagir com outros ou começar e prosseguir com conversas. Não sabia lidar com quem não nutria alguma afeição. Era sincero demais para isso, sentia-se desconfortável com a idéia de tentar dirigir um sorriso a quem odiava. Ainda mais a quem mais odiava entre todos. Era uma pessoa deveras amarga, sabia. E toda a culpa disso caía sobre sua experiência de vida. Mas, apesar de todos os pesares, no fundo ele até conseguia se orgulhar de ter chegado aonde chegara por si só. Não tive ajuda, não tive base. Agora, tenho o que tenho. Não sabia ao certo o porquê disso tudo não lhe dar a satisfação esperada.

O livro em seu colo estava meio-aberto. Havia se entediado com a leitura antes de chegar ao meio do caminho, resumindo-se a passar os olhos pelas páginas, folheando, e não sentia a menor motivação em continuar. Nunca fora um literato, e não entendia bem a diversão que alguns conseguiam encontrar nas páginas de um livro. Não era um homem estudado. Poderia ser chamado de bronco, até grosseiro… mas força de vontade era o que não lhe faltava. Havia chegado a ler livros inteiros em sua juventude, e alguns deles ficaram em sua memória como parte de sua vida passada. No entanto, achava a grande maioria deles entediantes. Romances o aborreciam; ele sabia como sentimentos, as vezes, eram muito mais destrutivos do que solução. Os sentimentos raramente são a solução para as coisas. Aprendera com o tempo essa simples verdade, e aprendera também como poderia ser difícil tentar seguí-la. Sempre tivera um temperamento curto e nenhuma paciência para remoer um pensamento repetidamente.


Virou o rosto para o teto, e suspirou. Precisava de algo mais a fazer para sentir-se útil a si mesmo, mas era difícil pensar em trabalho quando o pensamento de já ter feito tudo o que poderia passava tantas e tantas vezes por sua cabeça. Não havia mais o que se destruir em um continente já destruído, refletiu. Não há como quebrar mais uma pessoa já quebrada. A ele não havia mais o que fazer Levou a mão ao rosto, passando seus dedos pelos cabelos cinzentos e parando ao sentir o toque daquele pedaço de couro que cobria seu olho direito. Aquela ferida era como seu grotesco troféu de guerra – o incomodava desde que a havia ganho, interferia em seus sentidos, pulsava, doía. Mas ele sobrevivera a ela, e era uma forma de se lembrar de tudo pelo qual havia passado e de não perdoar jamais.


Quando estava prestes a perder-se em pensamentos e considerou a idéia de adormecer na cadeira, ouviu um clique da maçaneta da porta. Nem sequer incomodou-se em virar; não queria ser reconhecido justo naquela hora, com tantas figuras importante do submundo naquele salão lotado – mas seria quase impossível. E queria muito menos saber que entrava. Havia a chance de ser aquele homem, e se fosse… Damaran não seria responsável por seus próprios impulsos. Um olhar de canto quase imperceptível garantiu-lhe que não era aquele em quem pensava.
Levantou-se, e andou até a porta fingindo que o outro não existia. Felizmente, era alguém que ele nunca havia visto na vida e dificilmente iria incomodá-lo com trivialidades – um garoto oriental e franzino, provavelmente das tríades – e não estava com a menor vontade de dar atenção a um curioso ou a um perdido. Saiu pelo corredor sem olhar para trás, subiu as escadas e, quando estava a um movimento de pegar as chaves e tocar a maçaneta de seu quarto…


-Damaran. – disse uma voz feminina e forte, do outro lado do corredor. O homem demorou para virar-se com a melhor expressão de indiferença que conseguia colocar no rosto.


Era uma mulher de vermelho, com rosas em seus cabelos dourados e de uma beleza estonteante. Ela não parecia nada satisfeita com o fato de tê-lo encontrado a ponto de entrar em seu quarto e isolar-se de toda a multidão.

-Você não deveria estar lá em baixo, com ele? – respondeu Damaran, friamente. A mulher suspirou, irritada.

-E você devia estar lá também. – ela simplesmente ignorou a indagação sobre com quem ela deveria estar. – O que diabos pensa que está fazendo? Você costumava tentar conversar, negociar com pessoas, fazer alguma coisa pra esse seu trabalho tão importante… e agora quer só ficar sozinho dentro do quarto?

-Minha cabeça dói. E “ele” está latejando. – disse, apontando para o olho. – Você já está devidamente acompanhada, por mais que seja por alguém cujo pescoço eu bem que deveria tentar torcer. Do que te interessa a minha atitude?

-E pensar que até o Alexis está menos de frescura que você. Isso é incrível. Ao menos ele fica ao meu lado… e tem me tratado melhor que certas pessoas. Sem segredinhos, Damaran. E de qualquer forma, não foi pra isso que trabalhou? Pra ter um lugar ao sol? – riu ela, com um sarcasmo evidente na voz. – Depois de intimidar tanta gente, agora você quer fugir como se não precisasse de ninguém? Devia ter pensado nisso antes de ter vivido os últimos 5 anos do jeito que viveu. Ou mais, não lembro bem quando começou a mentir.

Damaran puxou o ar pelo nariz com força, sentindo sua irritação subir.
-Não faça tempestade em copo d’água, Vladilena. Estou cansado, e prefiro me reservar para outra coisa. Ninguém fala de negócios de verdade no meio de tanta gente, você sabe disso.
A mulher de nome Vladilena suspirou. Era inútil tentar discutir com aquele homem e sua grande cabeça dura, que sempre dava seu jeito para escapar do que o aborrecia e rebatia argumentos com mais agressividade do que lógica.


-Ficou bem mais presunçoso. E grosseiro.
-Vou tomar como um elogio. É melhor voltar para o salão, seu adorável Alexis pode perder a paciência com alguém se você não segurar a coleira dele.
-Acho que você nem conhece seu próprio rival direito.
-E você o conhece bem até demais, não é mesmo? – retrucou ele, agressivamente. Vladilena começava a irritar-se. A coisa que ela mais detestava era quando ele começava a agir desse jeito infantil.

-Está bem, faça como quiser. Eu vou voltar pro salão. Mas vê se deixa de ser tão cabeça-dura assim. Te conheço bem o suficiente pra saber que você se acha melhor do que o Alexis, apesar de haver controvérsias, mas você também tem seus defeitos. E esse ciúme de passado é um dos piores.
Damaran virou as costas, abrindo o quarto e dando como resposta apenas um
aceno de mão, irritado. Vladilena suspirou, e olhou para o relógio no final do corredor. O final da festa não estava longe, e era melhor que ela voltasse para o lado de Alexis antes que alguém pudesse enfurecê-lo com comentários que não o agradassem – isso havia se tornado bastante constante desde que ele havia colocado os pés naquele país. Ela simplesmente virou as costas, e retornou ao salão.

Dentro do quarto, Damaran despiu-se de seu casaco, e deitou pesadamente sobre a cama. Os grossos cabelos cinzentos espalharam-se pelo cobertor, e ele soltou um suspiro profundo, como se estivesse esperando décadas por um momento de descanso. Fechou os olhos por um breve instante… e um ardor subiu-lhe pelo rosto, fazendo-o arranca o tapa-olho que cobria a grande e profunda cicatriz que atravessava o que um dia fora seu olho direito. Por vezes, ela parecia ganhar uma vontade própria e ardia quase como no dia em que ele a havia ganho. Não encontrava explicação racional para isso; amigos diziam-lhe que poderia ser sua pressão, ou que ela nunca havia realmente se curado por completo. Mas havia reparado que costumava ser quando ele estava aborrecido, pressionado ou forçado a fazer algo que não tinha vontade. Ou, ainda, quando a raiva subia à sua cabeça. Deve ser isso. Pelo menos, naquele momento.

A imagem de Vladilena junto a Alexis o atormentava havia anos. Ambos agindo de maneira tão íntima, se é que Alexis poderia mostrar intimidade, o enfurecia. O enfurecia, e, ao mesmo tempo, o entristecia. Depois de tanto tempo, a realidade o incomodava de maneira que um desespero subia-lhe ao peito, pois não conseguia culpar apenas ela. Ele sabia que tinha culpa, tinha consciência, e doía-lha admitir… doía-lhe admitir que ele fora o maior culpado de tudo ter acabado do jeito que acabou. Não fui o único, tentava dizer para si mesmo. Mas sentia-se incapaz de convencer a si mesmo. A dor em seu olho ficava cada vez mais forte. Isso que ganho por pensar demais. Cobriu o olho ferido com a mão, sentindo a cabeça pulsar, levantou-se e foi até o banheiro. Despiu-se de imediato e ligou o chuveiro, sem sequer esperar que a água esquentasse.

A água quente bateu em seu rosto, e serviu quase como um estranho anestésico. O calor queimava sua ferida, trazia um ardor agonizante que fê-lo grunhir, mas substituía a dor que estava sentindo anteriormente – a qual ele considerava muito pior. O fato de sua cicatriz doer a ponto de deixá-lo incapaz de pensar era algo que guardava pra si, sem partilhar com mais ninguém. Não queria demonstrar fraqueza, especialmente quando o responsável por aquilo estivesse por perto. Não queria demonstrar fraqueza na frente de Vladilena, na frente daqueles que deveriam respeitá-lo. Não podia demonstrar fraqueza. A imagem que havia construído com tanto esforço após a guerra poderia desmoronar a qualquer momento num mundo como aquele, com uma única demonstração de vulnerabilidade.


Não demorou muito para sair, esfregando uma toalha nos cabelos que, quando molhados, tornavam-se quase negros. Seu corpo estava coberto por apenas uma toalha, amarrada em sua cintura – absolutamente nada apresentável perante a figura singular que surgira ao lado de sua janela.
Damaran parou de repente, quase num pulo, sentindo o coração acelerar com o susto. E suspirou insatisfeito – não era a primeira vez que aquele homem invadia seu quarto daquela forma, mas era incrível como ele sempre conseguia fazê-lo nos piores momentos. Era um homem alto, de cabelos negros até os ombros. Sua feição era severa e forte, os lábios fixos em um sorriso que Damaran achava cheio de malícia. Vestia um terno negro com detalhes em vinho, um relógio de ouro no pulso, e sapatos perfeitamente engraxados. Ele riu ao olhar para a expressão de Damaran.

-Consegui te pegar de surpresa de novo, Damaran? – perguntou, rindo satisfatoriamente. – Você precisa ficar mais atento.
Damaran levou a mão aos cabelos, arrumando-os para trás e deixando a cicatriz completamente à mostra. Sentou pesadamente sobre a cama, sem se importar com o peito nu, no qual uma enorme cruz ortodoxa e duas estrelas de seis pontas encontravam-se desenhadas em tinta negra. Soltando um suspiro irritado.
-Quando você vai parar com esse hábito irritante de querer surpreender os outros, Grigori? Um dia ainda sai morto.


-Precisamos de um hobby de vez em quando. E eu confesso que adoro ver essa expressão no seu rosto. Acho que sou o único que consegue pegar o grande Damaran Leontyev desprevinido, não?
-Acho que você é o único louco o suficiente pra sair entrando no quarto dos outros desse jeito. Não quero nem ver o dia que você resolver se aventurar no quarto de um certo alemão desgraçado.
-O Reinhardt não é nem de longe tão divertido. É dessa sua expressão que eu gosto, Damaran. – riu ele, divertido. – E eu muito menos o conheço bem. Que entretenimento poderia ter com ele, afinal? O homem nem diz bom dia a quem conhece. – disse o homem chamado Grigori, levando à boca um cálice com vinho tinto até a metade, e bebendo-o em um só gole. – E além do mais, não tenho negócios com ele. A única relação que temos é a diária desse hotel.


-Um dia essa sua mania de roubar a chave-mestra dos quartos vai te colocar em problemas. – respondeu Damaran, soltando o corpo em sua cama novamente. Já não se importava mais com qualquer boas-maneiras.
-Não diga isso! – riu ele novamente. – Eu não roubo, simplesmente tomo conta de uma das minhas propriedades. Tomo conta muita bem, a ponto de verificar cada quarto…
-Com gente dentro.
-Foi assim que consegui dinheiro o suficiente pra financiar tantas das suas atividades, certo? Não é fácil manter a fortuna com esse governo cada vez mais estúpido. Por incrível que pareça, vocês são a opção mais garantida de manter algum sucesso. – disse o outro, rindo.


-Se você diz… – sem mais argumentos, Damaran fechou os olhos e parou de falar. Não havia dormido ainda, mas era a deixa para que Grigori saísse do quarto e o deixasse em paz. Este, por sua vez, levou a mão ao rosto – estava claro que ele não havia nem chegado ao assunto que viera discutir. Sabia que ninguém conseguiria contrariar Damaran quando este resolvesse que era seu momento de ir para cama, e muito menos quando ele já houvesse adormecido.
O hoteleiro simplesmente deixou o cálice de vinho sobre a mesa, e saiu do quarto. Olhou Damaran sobre o ombro e sorriu, vendo que ele aos poucos caía em seu sono pesado… e murmurou.
-Boa noite, Damaran. Mas a festa ainda não acabou…

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CAPÍTULO 1 – FOREIGNER

CAPÍTULO 1

FOREIGNER

“And there he stood

Watching evil just as if he belonged to it.”

Moscou, Rússia – Ano de 1950

Quando seus pés tocaram o chão, ele finalmente percebeu o que sua resolução tinha lhe trazido lhe tinha trazido. O ar gelado penetrava seus pulmões e ele sentia como se o vento pudesse cortar sua pele. O inverno daquele lugar era muito mais rígido que o de sua terra natal, gélido de uma maneira que ele jamais imaginaria que pudesse ser possível. Agarrou-se ao cachecol de lã e à sua mala de couro, e tomou coragem para afastar-se do trem a passos pesados, mantendo o rosto coberto pela boina. A nevasca não o deixava ver muito mais que um palmo a sua frente; simplesmente seguiu as manchas agasalhadas que se moviam a seu redor na esperança de encontrar a saída da estação. Ouviu um dos trabalhadores gritando algo que não conseguiu compreender, e logo o som da chaminé anunciava que o trem seguiria viagem. Agora, ele definitivamente não poderia mais voltar atrás.

A estação estava relativamente cheia, impressionou-se; para ele, a maioria das pessoas teria o bom-senso de ficar em casa com um clima daqueles. Mas deu graças por, ao menos, não estar sozinho num lugar que mal conhecia. Os estranhos ao redor faziam-no sentir que a cidade poderia, ao menos, ser mais acolhedora que o clima… por mais que as pessoas, na realidade, mal notavam umas às outras enquanto se ocupavam dentro de seus próprios pensamentos e grossos casacos de peles, com os rostos cobertos pelos cachecóis e chapéus. Não obstante, apenas a presença humana já o deixava menos inseguro.
Saiu pela porta da frente da estação, e olhou ao redor. Assim como na plataforma e no trem, impressionou-se por ver tantas pessoas diferentes do que estava acostumado, de olhos e cabelos claros e muito mais altos que ele de uma só vez; mas sabia que era infantilidade sua. Tinha certeza de que, se alguém dali visitasse seu país, pensaria algo parecido sobre seu povo de cabelos negros e olhos estreitos. Mas não conseguia deixar de estranhar aquele mundo ao qual, desde que saíra de casa, sentia não pertencer. Era sua realização de que havia mais no mundo do que ele jamais poderia conhecer. Aborrecido, balançou a cabeça a esse pensamento, afastando-o e convencendo-se de que se ainda não pertencia a tal lugar, deveria fazer-se pertencer, e levantou a mão colocando-se na beira da calçada na esperança de que algo como um táxi parasse.


Ainda bem que os costumes andam tão semelhantes. Rapidamente, um carro amarelo com a familiar placa branca (apesar da língua distinta) sobre o capô parou a sua frente. Ele entrou pela porta de trás, sempre com a mala a seu lado, e entregou ao motorista um pedaço de papel com um endereço. Este lhe respondeu com algo que ele entendera como um “sim, senhor”, e o veículo partira.
O motorista não tinha por que não tratá-lo bem; apesar de ser estrangeiro, vestia-se de forma que indicava que não era qualquer refugiado, mas sim que possuía uma classe relativamente alta. Saberiam que era um visitante; mantinha a aparência bem apresentável mesmo após uma longa viagem. Os cabelos que facilmente arrepiavam-se estavam escondidos e bem ajeitados por dentro da boina, e o casaco era um pesado sobretudo recentemente comprado, de cor cinza azulada com botões de bronze. Não sabia exatamente se havia algum tipo de preconceito com sua etnia naquele lugar, mas, até então, não havia tido nenhum problema fora a comida de sabor exageradamente forte em todos os lugares pelos quais passara.
Tirou a boina, ajeitando a franja no rosto e olhando pela janela. Era tudo muito diferente. Os prédios lhe pareciam bastante megalomaníacos, grandes construções antigas e novas, de concreto e metal; havia muita gente por todos os lados que olhava mesmo com toda aquela neve, e o movimento nas ruas era digno de uma nova capital. A cidade onde vivia não era nada comparada àquilo, e ele se lembrava pouco de sua capital. Havia sempre morado longe da cidade, dificilmente saía de casa ou viajava… ao menos, até agora.
Uma voz tirou-lhe de seu monólogo mental.


-Japonês? – perguntou o motorista, procurando falar de forma mais clara possível, talvez acostumado com estrangeiros sobre os quais não tinha certeza se conheciam a língua. O outro demorou um pouco para responder, formulando uma resposta em sua mente. Enfim, desistiu de ser demasiadamente sociável.

-Sim.

-Problemas por lá? Família ou emprego?

Ele parou novamente por um instante, mas não para montar as palavras. Não sabia ao certo o que responder.

-Um pouco dos dois.

-Ah, certo. – O motorista havia compreendido assim tão fácilmente? – Tem muita gente aqui nesse esquema. Agora entendo porque resolveu ir naquele hotel, bem naquela rua.


O hotel. Ele já tinha ganhado aquela fama toda, mesmo entre a população comum? Ou era apenas entre os taxistas? Ao menos, pareciam compreensivos com a situação. Ele apenas murmurou um “hm”.

– Ultimamente, eles têm ganho bastante força por aqui. Não vá se queimar com ninguém lá, hein?
Ambos se entreolharam pelo retrovisor, e riram. O garoto ria nervosamente, tentando esconder o quão ansioso se encontrava. Tudo aquilo pareceria absurdo para qualquer pessoa que vivesse normalmente, mas até que fazia sentido depois de tudo o que acontecera naquele pais. A cidade tornava-se um antro de vilões que se importavam apenas consigo mesmos e não tinham piedade de uma única alma sequer, contavam as histórias. Dane-se a igualdade, essa igualdade falsa, pareciam dizer. Cada um adquire sua própria conquista. E era isto que aquele estrangeiro desejava adentrar, com essas pessoas que desejava conversar.

O táxi parou frente a um grande prédio em estilo neoclássico, de fachada adornada e grandes colunas que davam uma aparência majestosa ao saguão de entrada. Todos que entravam e saíam esbanjavam elegância, classe e terror. Era de conhecimento geral que qualquer um que freqüentasse aquele lugar não deveria ser desafiado de forma alguma, a não ser que o desafiante desejasse um terrível destino. E o estrangeiro simplesmente sorriu ao ver aquela cena. É exatamente o que eu preciso.
Entregou uma nota alta ao motorista, dizendo-lhe para manter o troco, e saiu do carro. O homem tirou o chapéu, e agradeceu.
-Muito grato, senhor…?
-Iwasaki. Kyouya Iwasaki. – respondeu, esboçando um sorriso.
Ele virou-se para o prédio, e observou-o por um momento. Era tudo muito diferente. O prédio erguia-se altíssimo até os céus, com luzes amareladas saindo das janelas, e vozes vindo de dentro da porta de entrada. Não estava intimidado. Não devia se sentir intimidado. Aquilo deveria ser comum, ele deveria se acostumar logo, deveria passar a impressão de pertencimento. Percebeu que sentia muito frio quando sua mão começara a formigar, gelada, e finalmente entrou no local.


Não fora recebido logo ao entrar, pois a viagem havia deixado seu casaco menos apresentável que o necessário para aquele lugar, de freqüentadores tão mais exigentes que um taxista. Era novo, elegante, relativamente caro; mas não o suficiente para os padrões dali. No entanto, tomou as providências necessárias para não ser subestimado… ou até expulso. Nunca se sabe. Bastou tirar o casaco e passar os dedos pelos cabelos para que um dos mordomos se dispusesse prontamente a pendurar seu casaco e tomar conta de sua mala ao notar as finas vestimentas que havia mantido escondidas. Havia trazido-as na mala, e apenas se trocado quando o trem começava a se aproximar de seu destino. Seu cabelo era um tanto rebelde e muitíssimo liso, mas nada que o incomodasse. O paletó parecia ser feito de um tecido bastante caro num tom de azul marinho acinzentado, e a camisa e os sapatos não eram do tipo fácil de serem encontrados. Sentia ter conseguido esbanjar ao menos um pouco de finesse; mas sentia-se inseguro por ser talvez jovem demais. Não haviam muitos orientais no local – conseguira localizar apenas alguns membros da tríade, pelo que podia julgar, e poucos japoneses que nunca havia visto na vida. Mas ele não estava realmente interessado em seus conterrâneos; procurava estrangeiros que lhe chamassem a atenção, e que pudessem ajudá-lo de alguma forma.

Não fora recebido logo ao entrar, pois a viagem havia deixado seu casaco menos apresentável que o necessário para aquele lugar. Porém, fora só tirá-lo para que um dos mordomos se dispusesse prontamente a pendurar seu casaco e tomar conta de sua mala ao notar as finas vestimentas que estavam escondidas. Seu cabelo era um tanto rebelde e muitíssimo liso, mas nada que o incomodasse. O paletó parecia ser feito de um tecido bastante caro, e a camisa e os sapatos não eram do tipo fácil de serem encontrados. Assim como os outros hóspedes, Kyouya também era capaz de esbanjar um pouco de finesse. Não haviam muitos orientais no local – conseguira localizar apenas alguns membros da tríade, e poucos japoneses que nunca havia visto. Mas ele não estava realmente interessado em seus conterrâneos; procurava estrangeiros que lhe chamassem a atenção, e que pudessem ajudá-lo de alguma forma.


O primeiro a chamar-lhe a atenção fora um homem louro, de cabelos longos e muito alto, de postura impecável. Estava de costas, mas, ao virar-se, Kyouya pôde ver seu rosto magro e marcado, com sobrancelhas da mesma cor de seus cabelos que mantinham-se franzidas, um nariz quase reto e avantajado que, de certa forma, era harmonioso com seus traços, e a boca de lábios pálidos que se apertavam vez em quando. Seus olhos expressavam um rancor imensurável e em sua feição severa deixaram claro ao garoto que ele não era uma pessoa fácil de se lidar com. Kyoya julgou que fosse alemão. Não apenas por seus traços, ou por preconceito; mas por ser uma época em que tal povo, se não estivesse afogado em desespero, focava-se em vingança ou afirmação de sua raça, e frustravam-se pela limitação a qual estavam submetidos. O fato dele estar em um lugar daqueles era ainda maior prova de sua animosidade. E a expressão austera reforçava suas íris azuis, tão claras que pareciam quase brancas e que circundavam a estreita pupila. Seu olhar parecia dizer que ele sentia um grande desprezo por qualquer outra pessoa que ele visse no salão, com exceção, talvez e apenas talvez, da bela mulher ao seu lado. Kyouya não sabia dizer a nacionalidade desta, mas ficara deslumbrado com sua beleza. Ela usava um belo vestido vermelho que realçava as formas de seu corpo magro, pequeno e delicado, e os grandes caracóis louros de seus cabelos estavam presos em um coque solto coberto de rosas. Sua figura chamava a atenção de muitos homens no salão.

Outro a puxar seu olhar fora uma garota se semblante e fisionomia bastante infantis, com uma expressão doce demais para ser verdadeira naquele local. Kyouya aprendera a não julgar pelas aparências, especialmente naquele meio; mas a garota era algo um tanto absurdo para não se notar. Ao contrário da mulher de vermelho e das outras do salão, suas roupas eram em camadas de rendas, fitas e babados. Os cabelos castanhos estavam soltos, com apenas duas finas tranças de cada lado de sua cabeça. E, por mais jovem que parecesse, conversava animadamente com homens muito mais velhos, mantendo a postura de mulher madura e sem se sentir intimidada em momento algum. Ela parecia especialmente interessada na conversa que seguia com um gigantesco homem de cabelos louros acinzentados, perfeitamente penteados para trás, que era, sem a menor dúvida, o mais alto de todos do salão. Seu rosto era forte em todos os traços, de queixo e maxilar a lábios e nariz. Kyouya imaginou se ele não poderia ser companheiro do outro alemão, por mais que ambos mantivessem alguma distância no salão.


Algumas outras figuras davam-lhe impressões interessantes. Havia uma mulher de cabelos negros e muitíssimo lisos, muito magra e trajando em um vestido tradicional chinês, e que mantinha-se em um canto, aparentemente, apenas passando os olhos pelo salão; um homem de olhos cinza arroxeados mantinha os ombros cobertos por um manto de peles mesmo dentro do salão; e havia, ainda, uma mulher ruiva, alta e voluptuosa, que lançava olhares sedutores a todos aqueles que a olhavam primeiro e virava-se de costas quando eles começavam a demonstrar algo mais do que interesse. Ele rodou o saguão principal do hotel, sem trocar muitas palavras com nenhuma alma sequer – apenas alguns acenos e sorrisos esporádicos, aos quais os estranhos respondiam com um olhar sem nenhum convencimento, ou apenas ignoravam. Após cerca de uma hora, cansou-se e pediu ao mordomo que sua mala fosse levada a seu quarto, dizendo-lhe seu nome para que a o quarto fosse confirmado na recepção. Subiu as escadas para o mezanino, deixando para trás o movimento do hall e seguindo para o quarto em passos lentos para que não chegasse antes do serviçal.


No caminho para o primeiro andar, no entanto, deparou-se com uma grande porta de madeira decorada onde as grandes escadas cobertas por tapetes de veludo cor de vinho se encontravam.. Sua curiosidade permitiu-o abri-la sem grande hesitação; no entanto, o que encontrara a seguir o fez parar seus movimentos e fixar seu olhar num único ponto.
O local era uma grande biblioteca, de prateleiras altíssimas e cheias dos mais variados livros, com escadas móveis por todos os lados. No meio, haviam mesas de mogno escuro e cadeiras acolchoadas de veludo cor de sangue, quase todas vazias, e algumas poltronas sob lâmpadas de leitura. Apenas uma pessoa estava no local.
Era um homem de cabelos cor de chumbo, bastante longos e pesados, cuja franja cobria metade de seu rosto. Tinha semblante sério e ríspido, um rosto forte de maxilar anguloso e grossas sobrancelhas. Kyouya notara que seu olho visível era de uma cor castanho avermelhada, apesar de ele nem ter se incomodado em sequer mover a cabeça para olhar o visitante. Vestia um uniforme militar sem patentes, botas longas de couro e, de sua cintura, pendia um sabre de punho decorado. Era, sem dúvida, alguém importante para se dar ao luxo de deixar o salão e isolar-se na biblioteca como se ninguém mais o interessasse.

Kyouya pensou em se aproximar. No entanto, por mais que dissesse a si mesmo para avançar, seu corpo mantinha-se no lugar. Antes que pudesse fazer qualquer coisa além de manter o olhar fixo no homem, este levantou-se de sua cadeira e andou em sua direção. Tinha porte majestoso, alto e de ombros largos, braços grossos e fortes, e até seu modo de andar emanava uma certa nobreza selvagem e intimidadora. Com o movimento, as mechas em seu rostos balançaram ao ar e revelavam a profunda cicatriz carmim em seu olho direito, a qual um tapa-olho negro cobria apenas parcialmente. Parecia doloroso, e até um tanto grotesco; mas combinava com a impressão que Kyouya começava a formar sobre ele à primeira vista.

Sem sequer reconhecer a presença do japonês, o homem de cabelos cinzentos passou pela porta com uma estranha leveza de um vulto, apesar de seu tamanho, e desapareceu pelo corredor de paredes decoradas. Kyouya não sabia ao certo o que pensar, ou mesmo como reagir. Mas começava a nutrir a idéia de haver, talvez, encontrado a pessoa que iria ajudá-lo a conseguir o que viera procurar. Mas não conseguia deixar de sentir um pouco de rancor por ter sido tão fortemente ignorado – seu ego às vezes falava mais alto, especialmente quando não lhe davam o devido valor.

Com um suspiro, retomou seu caminho até o quarto. Imaginou que o mordomo já houvesse deixado sua mala, e devia estar esperando-lhe para entrega a chave. Conforme subia as escadas, pensava se deveria abordar o homem da biblioteca novamente no dia seguinte. Talvez, desta vez, não fosse ignorado ou poderia até tomar coragem suficiente para uma iniciativa mais intensa. Ou se, ainda, deveria simplesmente partir para o alemão do saguão de entrada, por mais que aquele também o tivesse intimidado mesmo sem um confronto direto.
Ou talvez fosse melhor pensar nisso após um banho quente e um jantar solitário em seu próprio quarto de hotel. Ele começava a se dar conta do cansaço da viagem.

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Começando!

Olá! ^^/

Bem-vindos ao Gunpowder Requiem!

Criei esse blog para poder hospedar os capítulos e informações de um roteiro original meu, de mesmo nome do blog. Os personagens desta história cresceram cada vez mais em mim, e, em vez de postar sobre eles apenas em fóruns de BJDs (Ball-Jointed-Doll, bonecos customizáveis nos quais encarno os personagens de GR), resolvi fazer um espacinho especial pra eles, não só com os capítulos em si, mas também com fotos, ilustrações, entre outras coisas. ^^

Essa que vos escreve pode ser conhecida como Abel (em fóruns de BJD), ou Anna. Sou estudante de História da Arte na universidade de Brown nos Estados Unidos, com cursos extras de história alemã do século XX e línguas. Nasci e cresci no Brasil, onde minha família e vários amigos ainda estão, e só venho pros EUA a estudo. Sou completamente fascinada em BJDs e outras bonecas, desenho, fotografia, história, línguas e brinquedos, e viciada em chocolate e comida japonesa. Também gosto muito de livros, música, mangás e HQs, e viagens.

Gunpowder Requiem é um roteiro que criei, inicialmente, em cima de certos moldes de BJD. Aos poucos, os personagens foram tomando vida e se desenvolvendo sozinhos, antes ou depois de conseguí-los em forma de resina… e agora, tenho grande carinho por eles e por esta história. Não é nada absurdamente sofisticado, mas tem um apelo emocional pra mim. 😛

A história de Gunpowder se passa na Europa de 1950, logo após a Segunda Guerra Mundial. Os personagens principais são figuras que, ao mesmo tempo que são diferentes, também possuem características em comum, e cada um deles se tornou um desafio pra que eu pudesse desenvolvê-los do melhor jeito que eu fosse capaz. Damaran é um ex-general do exército soviético, que entrou para a máfia logo após o final da guerra, pouco tempo depois de perder o olho direito; Alexis é um ex-oficial nazista que precisa retomar sua vida, ao mesmo tempo em que precisa fazer de tudo para não ser pego a julgamento; Vladilena é uma bailarina russa que acaba se envolvendo com Damaran e Alexis, e possui uma moral curiosa; e, finalmente, Kyouya é um garoto vindo de uma família de Yakuzas com um objetivo obscuro que o leva a encontrar tais figuras. Ao mesmo tempo que os personagens são fictícios, procuro ao máximo me prender aos fatos históricos… mas como não tenho acesso a todos os fatos, por mais que eu evite, peço desculpas por qualquer erro histórico (principalmente com relação às máfias, cuja informação é muito limitada). ^^

Bom… essa foi a introdução pro blog. Espero que gostem e muito obrigada pela visita!

Anna G.

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