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CAPÍTULO 19 – PARANOIA

CAPÍTULO 19
PARANOIA
 

“He never, never forgot,

to keep his gun close enought even when sleeping”

Hamburgo, Alemanha – Ano de 1950

  

Às vezes, ele sentia como se tudo aquilo não fosse verdade. Mas era um sonho do qual nunca acordava; era a realidade que interrompia os seus sonhos de verdade. Acordou num tranco e viu-se sentado em sua poltrona, em frente à lareira de sua própria sala. O fogo já havia há muito se extinguido, e apenas as cinzas ainda queimavam suas últimas forças. O livro que estivera lendo havia caído de seu colo para o chão, aberto, e o frio que entrava pela fresta da porta do quintal lhe trazia arrepios. Por que diabos essa porta está aberta, em primeiro lugar? Levantou-se e foi até a porta do quintal, fechando-a. Por um momento, pegou-se observando um pequeno arbusto de rosas que existia em seu quintal desde que podia se lembrar. Sabia que não estava ali da primeira vez que entrara na casa, mas, por algum motivo, desde que ele havia surgido Alexis sentia-se incapaz de sequer pensar em tirá-lo dali. Aquelas flores lhe proporcionavam uma tranqüilidade estranha, e eram a visão mais agradável do quintal nos dias quentes nos quais ele resolvia sentar-se a sombra e respirar um pouco do ar fresco. Já era noite, no entanto, e as poucas rosas que sobreviviam ao outono ganhavam na escuridão uma cor muito mais sombria do que nos dias de verão. A escuridão de fora fê-lo pensar no silêncio da casa, e levou algum tempo até lembrar-se de que Vladilena havia voltado para sua própria moradia; estava, finalmente, sozinho como tanto desejou. Mas anda não me lembro quando foi que abri essa maldita porta.

Fechou as cortinas após verificar o quintal já escuro por completo. Seus vizinhos estavam em casa, sabia graças às luzes acesas nas janelas. Não os conhecia bem, mal sabia seus nomes, e nunca considerara esforçar-se para fazer amizades. Não se importava, realmente. Talvez houvesse um tempo em que o fazia, mas não se lembrava. Pegou o livro do chão e foi até a cozinha, ouvindo o silêncio tão costumeiro de sua própria morada quando se encontrava sozinho. Encheu uma chaleira com água e colocou-a sobre o fogão, pegando então a caixa de chá no armário. Sabia que se tomasse café a noite, não conseguiria dormir de maneira alguma. Apoiou o quadril na bancada e arrumou os óculos sobre o nariz, procurando a página na qual havia adormecido. Folheou, passando os olhos pelas palavras, tentando lembrar-se do que havia lido. Andava sentindo dificuldade em concentrar-se, e quando não conseguia se concentrar em sua própria leitura, sabia que algo estava muito errado. Apertou os olhos ao ter certeza de chegar em uma passagem que não havia lido. ‘A raça humana é algo monótono. A maioria das pessoas usa a maior parte do seu tempo trabalhando para viver, e qualquer pequena liberdade que sobra os enche de medo…’ [1]. Suspirou e usou a embalagem do saquinho de chá para marcar a página, deixando o livro sobre a bancada. Onde estava com a cabeça ao pegar esse livro da estante?

Ao ver o vapor subindo pela chaleira, desligou o fogo e serviu-se do chá em uma xícara, introduzindo e retirando o saquinho na água, esperando-a tingir-se. De repente perguntou-se quando fora a última vez que comera, e percebeu que não conseguia lembrar-se. Talvez tivesse sido no café da manhã. Acreditava ter cozinhado o almoço, mas não sabia o que havia sido e se havia comido. Foi até a geladeira e olhou dentro. Não havia muito; um pouco de salada, batatas, um pequeno pedaço de carne que havia sobrado do pouco que cozinhara para si. Ao menos parecia ter almoçado, a não ser que aquilo estivesse ali desde o dia anterior. Talvez devesse pegar aquelas sobras e comer algo antes de dormir, mas seu estômago o impedia de pensar em comida. Sentia cada vez menos fome, e, após algumas tentativas, notou que forçar-se a comer fazia-o sentir ânsia ou causar-lhe até dores de cabeça.

Pegou a xícara de chá e apagou as luzes de sua cozinha, subindo as estreitas escadas até seu quarto, o único da casa. O lugar não era grande. O maior aposento era a sala de estar apenas porque o grande piano de cauda assim exigia. Todo o resto era suficiente para apenas uma pessoa, uma pequena casa de dois andares que lhe dava o luxo de um escritório e até uma saleta ao lado do quarto; e era assim que ele apreciava. Morava sozinho, e cuidava de sua casa sozinho; um lugar grande demais seria apenas um grande inconveniente. Encostou a porta do quarto, deixando a xícara sobre a cômoda ao lado da cama de casal que, por algum motivo, estava em seu quarto até antes de juntar-se a Vladilena. Costumava dormir de apenas um lado, nunca ocupando o meio ou a extensão inteira da cama, mas havia se acostumado a sua largura que acabara se tornando conveniente considerando as poucas visitas que recebia. A primeira imagem que lhe veio a mente, no entanto, não foi a noiva. Pensara em ‘família’ ao sentar-se, e sua mente divagou até sua própria sobrinha. Julia.

Há quanto tempo ela não a visitava? Deve estar com seus oito anos, ou seriam mais? Lembrava-se dela claramente quando era um bebê de colo, quando havia acabado de aprender a andar, quando ele ainda visitava sua irmã em sua cidade natal. Parece que foi há dezenas de anos. As visitas de ambos os lados haviam ficado cada vez mais raras, provavelmente devido a sua posição, a sua situação delicada. Perguntou-se se estaria sentindo falta dela, da família… de sua própria mãe. Ela também estava no mesmo lugar, ali, desde que ele nascera, na casa que ele crescera. Ou, ao menos, era o que gostaria de acreditar. A casa ainda estava lá… mas pelas notícias que recebia, a mãe passava mais tempo em um quarto de hospital do que na própria casa. Pensar naquele lugar vazio, abandonado, lhe dava um aperto no peito que ele nunca havia conseguido racionalizar. Talvez seja hora de uma visita, e dessa vez, uma visita decente. Longa. Mas a vontade lhe faltava. Ou seria a coragem?

Lembrou-se de seu chá que esfriava sobre a cômoda e pegou a xícara envolvendo-a em ambas as mãos, aquecendo-se. Bebeu, deixou-a de volta, levantou-se e foi direto ao banheiro. Despiu-se e abriu o chuveiro, agradecido pela água aquecida que descia pelo chuveiro que batia em seus ombros e descia pelo seu corpo. Deixou-a molhar seus cabelos finos e seu rosto, fechando os olhos, sentindo como se o banho pudesse levar suas preocupações ralo abaixo. Não costumava funcionar, mas a sensação era reconfortante. Lavou-se, lavou os cabelos, o rosto, o corpo, os ombros, o ombro, aquele ombro. O ombro distorcido pela cicatriz, sua grande lembrança de sua maior humilhação, sempre ao seu lado, acompanhando-o. Suspirou em frustração, e enrolou-se na toalha após enxaguar-se e desligar o chuveiro. Aproveitou o vapor para se secar e foi até o quarto, vestiu-se e engoliu um de seus remédios que lhe proporcionavam um sono mais agradável. Deitou-se de seu lado da cama, virando-se de costas para o outro, e adormeceu.

A manhã seguinte acordou-o com um raio de sol em seu rosto através das cortinas. Havia dormido de costas para a janela… e acordado de frente para ela. O travesseiro do lado estava em seus braços, o cobertor emaranhado em volta de seu corpo. Não era a primeira vez que aquilo acontecia, por mais que não costumasse se mover durante o sono. Puxou o travesseiro sobre o rosto, faltando-lhe forças para levantar, e passou alguns minutos em silêncio e imóvel. Não queria de saber que horas eram, normalmente levantava-se cedo, mas a solidão lhe dava um sabor de liberdade. Conseguiu cochilar por mais alguns minutos, e foi acordado novamente com o som da campainha.

O pensamento de deixar quem quer que fosse esperando do lado de fora lhe fora tão tentador que só considerou levantar-se quando a campainha ficou mais insistente. Praguejando, levantou-se da cama e foi até o banheiro para lavar-se, irritando-se mais a cada toque. Desceu as escadas ainda em roupas de dormir e abriu a porta com uma expressão incomodada. O homem na porta lhe sorria por trás dos óculos, gesto que Alexis não retribuiu.
-Por um momento achei que tinha morrido. – disse o homem de óculos. Tinha quase a mesma altura de Alexis, e os cabelos louro areia penteados para trás com apenas alguns fios caindo-lhe sobre o rosto como franja. Trazia um jaleco branco e uma sacola de pães num braço, e um pouco de café no outro.
-Por um momento quase quis morrer. – respondeu Alexis num quase rosnado. – O que foi?

-Bom dia pra você também.
Alexis soltou um resmungo.
-Seu humor está agradável como sempre, Alexis. – disse o outro, tomando a liberdade de entrar na casa e levar a comida até a cozinha. – Imagino que a saúde esteja como sempre também, então.
-Está. Não precisava ter vindo…
-… Por mais que eu saiba que o seu ‘como sempre’ é o que a maioria das pessoas consideraria como péssimo? – Alexis não respondeu. – Você comeu ontem?
-Não sei.
-Não sabe? – o homem de óculos levantou uma sobrancelha.
-Não me lembro. Acho que sim.
-Não lem… acha que sim?
-Fiz chá antes de ir pra cama.
-Claro.
-E tomei o remédio também.
-‘O’ remédio? Qual deles?
-O de sempre.
-Deveria ter mais de um ‘de sempre’, Alexis.

Respondeu com um rosnado. No fundo sabia que deveria nutrir certa gratidão pela preocupação do amigo, que atuava ainda como seu próprio médico particular. Era, talvez, o único que Alexis poderia chamar de amigo, se é que ele também se via como tal. Se ele ainda se dá ao trabalho de vir, devo assumir que sim.
-Você não devia estar trabalhando, Erich?
-Na verdade estou desperdiçando minha folga com você. – sorriu por trás dos óculos, entregando-lhe um dos pães que havia trazido. – Coma.
-Ora, obrigado pela consideração. – Alexis apenas fitou o pão, sem dignar-se a pegá-lo. – Não tenho fome.
-Você nunca tem fome. Por isso anda cada vez mais parecido com um cadáver. Coma, que não quero te ver parar lá no hospital por inanição.

Com um resmungo, Alexis pegou o pão e mordeu-o sem vontade, enquanto Erich o observava atentamente. Mastigava devagar, com uma sensação estranha no estômago, forçando-se a colocar a comida para dentro. Talvez ele tivesse mesmo razão. Não seria bom se acabasse magro demais e parecesse ainda mais velho do que se sentia, com sua vaidade ferida. Como se não bastasse aquele horror em meu ombro. Se fosse obrigado a comer um pouco mais para manter-se em forma, como costumava fazer quando era mais jovem…

Erich pegou duas xícaras no armário e encheu-as de café, adicionando a ambas um pouco de leite fresco, e entregando uma delas a Alexis. Este, por sua vez, aceitou-a sem reclamações e bebeu. O gosto pareceu-lhe estranho, mas nada disse; estava tão acostumado a beber o café que fazia para si mesmo, que café comprado lhe parecia estranhamente artificial. Ao menos serviria para ajudar com o pão, o qual sentia cada vez mais incômodo em colocar para dentro. Puxou um dos bancos de madeira e sentou-se, engolindo o último pedaço, enquanto Erich ocupava-se com sua própria refeição. Alexis mantinha-se em silêncio, observando o vazio.
-O que tem feito? – perguntou Erich.
-Nada. – respondeu Alexis, incomodado. – Realmente, nada.
-Ainda anda trabalhando… com aquilo?
Como os ideais mudam. Ao menos, não os de Erich. Desde que o havia conhecido, ele sempre fora contra aquilo.
-Tem algo mais com que eu possa trabalhar?
-Se você ao menos tentasse…
-Tentasse não acabar preso, Erich?

O amigo olhou-o incomodado. Alexis sabia o que ele estava pensando, sabia que ele se perguntava para onde havia ido toda a força de vontade que ele já teve, quando era mais jovem, quando não se deixou vencer mesmo ao beirar o desespero. Aqueles foram bons tempos. Alexis pigarreou.
-Se eu pudesse… – murmurou para si mesmo, e soltou um suspiro longo. Virou o olhar para o lado, no lugar vazio da mesa. Ali sempre haviam dois lugares. Sempre, desde antes de Vladilena freqüentar sua casa…
-Se você pudesse, já teria feito?
Alexis ergueu o olhar para Erich. Sem responder, levantou-se e levou a xícara até a pia, enxaguando-a lentamente. Se eu pudesse, já teria matado todos que ajudaram a minha vida a se tornar esse inferno. Se pudesse. O que poderia fazer?

Erich encarou-o por um momento e levou a própria xícara vazia até a pia.
-Se tem vontade, deveria pensar em algum jeito…
-Conhece algum jeito?
-Eu nunca trabalhei com o que você trabalhou, Alexis.
Então deve ser por isso que não faz a menor idéia do quão difícil isso poderia ser. Segurou a própria língua, encarando-o. O único amigo que possuía.
-Sei que não. – respondeu, amuado.
Erich ficara por mais alguns minutos antes de retirar-se de volta a sua casa. Tem uma família, tem mais conhecidos com quem conversar. Não que estivesse inclinado a longas conversas. Alexis despediu-se taciturno, e tentara voltar a sua leitura após já ter sido tirado da cama e sentir-se incapaz de voltar a dormir. A tarde poderia ter passado tranqüila. Mas não demorara mais de algumas horas até que a campainha tocasse novamente.
E Alexis sabia quem estaria lá. E sabia que seu dia estaria arruinado.

_________________________

[1] Passagem de ‘Os Sofrimentos do Jovem Werther’, de Johann Wolfgang von Goethe. – Ich habe allerlei Bekanntschaft gemacht, Gesellschaft habe ich noch keine gefunden. Ich weiß nicht, was ich Anzügliches für die Menschen haben muß; es mögen mich ihrer so viele und hängen sich an mich, und da tut mir’s weh, wenn unser Weg nur eine kleine Strecke miteinander geht. Wenn du fragst, wie die Leute hier sind, muß ich dir sagen: wie überall! Es ist ein einförmiges Ding um das Menschengeschlecht. Die meisten verarbeiten den größten Teil der Zeit, um zu leben, und das bißchen, das ihnen von Freiheit übrig bleibt, ängstigt sie so, daß sie alle Mittel aufsuchen, um es los zu werden. O Bestimmung des Menschen!

CAPÍTULO 18
OBSERVATION
 

“They were killers, he thought.

They were his best chance.”

Moscou, Rússia – Ano de 1950

  

Com ovos e café forte quebravam o jejum no restaurante do hotel, já quando o salão se encontrava praticamente vazio. Mesmo nas raras vezes que Damaran acordava cedo o suficiente para não ter de almoçar logo após sair da cama, Kyouya já estaria acordado havia horas. A ansiedade dificultava-lhe o sono, por mais que ele mesmo não compreendesse o motivo dela ainda estar lá. Imaginou que depois de boas semanas acompanhando o russo nos mais suspeitos lugares já teria se acostumado com tudo, mas não se passava um dia sem que ele descobrisse algo novo… ou alguém.

Damaran concentrava-se mais na comida, que já enchia seu prato pela terceira vez, do que em manter uma conversa. Os dois quase sempre partilhavam refeições silenciosas, o garoto por temer dizer algo estúpido, e o outro, aparentemente, por falta de interesse ou interesse maior na comida. Kyouya não sabia ao certo, mas era raro que Damaran iniciasse qualquer tipo de assunto. Eram coisas pequenas que acabavam por iniciar diálogos igualmente pequenos, e ele mais lhe dirigia a palavra quando queria ensinar-lhe algo ou quando Kyouya perguntava algo sem pensar, apenas por curiosidade. Pensou que fora o desconforto repentino que o incitara àquilo, naquele momento.
-Como foi que perdeu o olho?

O russo parou o garfo no ar e fitou-o longamente com o único olho castanho avermelhado que lhe sobrara. Kyouya encarou-o de volta, notando as feições cansadas e sombrias do outro que assim se mantinham mesmo quando ele sorria, havia reparado. O redor de seus olhos por debaixo da grossa sobrancelha cinzenta tinha um tom escuro e levemente arroxeado, de forma que quem não o conhecesse pudesse imaginar que passava noites e noites em claro. Ele franziu o cenho e soltou um suspiro longo, levando à boca um grande pedaço de salsicha com ovos.
-Que raio de conversa pra um café da manhã é essa? – perguntou ele, mastigando a comida, engolindo e novamente abocanhando o novo pedaço de ovo que trazia do garfo e cortando um naco de pão branco com os dentes.
-Eu… estava curioso.

-Longa história. – Kyouya concluiu que certamente não seria naquele momento que iria ouvi-la. Esforçou-se para procurar um novo tópico que pudesse ajudar a corrigir sua gafe, mas, para o seu alívio, foi interrompido por uma voz grave e aveludada em suas costas.
-Buon giorno, Damaran. Ti sei svegliato questa mattina presto. – riu a voz, depositando uma mão sobre o ombro de Kyouya.

O garoto virou-se, deparando-se com um homem ao menos uma cabeça mais alto que ele, mas aparentemente pouco mais baixo que o russo. Tinha o rosto alongado, de feições sérias e parcialmente coberto por uma franja espessa de cabelos castanho escuros e bagunçados que ele prendia na nuca com uma fita de veludo negro em um rabo-de-cavalo. Grossas sobrancelhas encimavam seus olhos dourados, ligeiramente apertados por seu largo sorriso. Vestia um terno marrom avermelhado, e levava no corpo uma variedade de jóias – de anéis em todos os dedos de ambas as mãos a brincos que cobriam completamente sua orelha esquerda e um broche decorado com pedras vermelhas em seu peito, ambos combinando com o relógio dourado em seu pulso. No entanto, mantinha o pescoço livre de qualquer ornamentação, com exceção de um fino lenço de seda amarrado ao redor da gola de sua camisa. Ele puxava uma cadeira da mesa ao lado para sentar-se do lado de Damaran, fazendo-o de uma forma mais leve que Kyouya imaginou que qualquer um daqueles homens poderia fazer, e cruzou as pernas apoiando as mãos entrelaçadas sobre um joelho.

-Bom dia, Andrea. – respondeu-lhe Damaran com um ligeiro sorriso, aparentemente também aliviado pela interrupção. – Ontem correu pro quarto mais rápido que de costume. – riu ele. Kyouya raramente o vira rir assim quando estava sóbrio.
-Alguns costumes nunca mudam. – riu o outro, com um sotaque forte e o largo sorriso estampado no rosto. Levou uma das mãos sobre o peito, fechando os olhos num suspiro dramático. – E que costume, é tão bom quando a noite é inesquecível assim. Mas você hoje possui uma companhia inesperada. O que é isso, comprou uma criança chinesa? Não sabia que a Zhao tinha entrado no tráfico infantil, muito menos que você teria interesse nisso.

Kyouya sentiu o sangue subir ao seu rosto, numa mistura de constrangimento e ofensa. Damaran, no entanto, começou a rir alto. Arregalando os olhos, Kyouya perguntava-se que estranho efeito que o homem dos anéis estaria causando no russo, que estendia a brincadeira. Ou ele poderia apenas ter arranjado uma maneira de se vingar por ter entrado no assunto de seu olho perdido.
-Como se algum dia eu fosse capaz de fazer uma coisa dessas. Acho que prefiro prostrar-me frente a um canhão antes de sair adotando adolescentes por aí.
O rosto do garoto estava mais vermelho que os tomates no prato.

-Pena. Seria interessante vê-lo lidar com crianças. – Andrea aproveitou a deixa para roubar uma das torradas de Kyouya, levando-a à boca. Sorriu, abanando a mão. – Sem ressentimentos, garoto. É apenas uma brincadeira, uma brincadeira. Não é todo dia que o Capo almoça com uma companhia que eu não conheço. Sinto-me traído.
-Desse jeito parece uma amante, pare com isso. É assustador. – ria o russo, levantando uma das sobrancelhas.
-É assim que se sente a meu respeito? Terei que quebrar seu coração, Capo. Não posso corresponder-lhe, não é de meu feitio. Melhor ficarmos apenas como amigos, ou terei de fugir de você.
-Amigos. – sorriu Damaran, rindo pelo nariz ao ver a expressão amedrontada no rosto de Kyouya. – E o garoto acreditou. Viu o que fez?
-Em minha defesa, digo que passo todas as noite com mulheres e tenho dezenas de testemunhas. E aí está, quando achei que ele não poderia parecer mais perturbado… – Andrea ria em voz alta e batia a mão sobre a perna, atraindo algumas atenções no salão. Ele estendeu a mão ao garoto. – Perdão, perdão. Acabei empolgando-me mais do que deveria. Andrea Cavalcanti, amigo e algo-como-um-secretário do Capo, Damaran, como quer que o esteja chamando. Venho da Sicília. E você, garoto, quem seria?

Kyouya encarou-o por alguns segundos, ligeiramente irritado por ter sido feito parcialmente motivo de chacota. Apertou a mão do italiano, mantendo o corpo reto, excessivamente formal devido ao nervosismo.
-Iwasaki. Kyouya… Iwasaki. Sou de Yokohama, no Japão… e tenho vinte e dois anos, não sou um garoto.
-Ma dai, vinte e dois. Esse aprendeu a mentir bem.
Damaran apenas ria.

-Não é mentira, não sou um garoto. – Kyouya apertava o cenho. Aparentemente, ninguém iria levá-lo a sério no primeiro contato, jamais. Andrea encarou-o por um tempo e passou os dedos pelo queixo, pensativo.
-Pensando bem, esses asiáticos parecem mesmo mais jovens do que realmente são. As mulheres tem um rostinho de criança, mas sabem bem o que fazem. – ele sorriu para Kyouya. – Mi dispiace, não era minha intenção ofendê-lo. Se está fazendo companhia ao Capo, deve ter sua importância?
Damaran respondeu-lhe com um encolher de ombros.
-Não. Só achei que um mudança de rotina seria interessante.

Kyouya fitou-o de boca aberta, incapaz de argumentar. Andrea voltava a rir.
-E como foi que se encontraram? Está longe de casa, rapaz. Posso chamá-lo de rapaz? É melhor que garoto, mas não sei dizer se já é um homem…
O garoto estufou o peito, com o rosto vermelho.
-Sou sobrinho do antigo chefe da família Inagawa, e irmão do novo. É a família que se tornará uma das maiores famílias Yakuza no meu país. Não sou uma mudança de rotina.
Andrea fitou-o por um momento e sorriu.
-Ahá. O rapaz sabe falar quando quer, muito bom. Então posso concluir que está num ambiente com o qual está acostumado?
-Algo do tipo…
-Mas mesmo assim pareceu perturbado ao saber de minhas “atividades”?
-Não estava perturbado…
-Não? Estava com inveja?
-Não!
-Você é virgem, garoto? Rapaz.

Kyouya calou-se. A expressão de Andrea foi de surpresa a pena, e ao riso, novamente. Fora Damaran quem respondeu em seu lugar.
-Manda em alguma coisa dentro da sua família? – perguntou ele, em tom severo. Kyouya sentia sua coragem esvair-se.
-Não… mas… não sou só um garoto…
-E eu não sou de família proeminente nenhuma, mas você sabe bem o que eu conquistei e o que tenho. Orgulhe-se do que conseguiu por si mesmo, não do que seus parentes fizeram ou deixaram de fazer. – Damaran serviu-se de café e bebeu o conteúdo da xícara em apenas um gole. Kyouya sentia-se, agora, mais constrangido do que irritado. Andrea interferiu.

-Vamos, Capo, não precisa tratar o garoto tão duramente. Era só uma brincadeira. Ele parece estar se esforçando se viajou meio mundo até nós, não é, rapaz? – sorriu ele, colocando a mão sobre o ombro de Kyouya. O garoto sabia que seu rosto ficava vermelho.
-Não fui duro. Apenas disse a verdade. – Damaran rasgava um pão com os dentes. – Se ele veio até aqui sozinho, é porque não está contando com a família.
Exatamente. Kyouya sentia-se envergonhado pelo fato de não ter pensado nisso antes do russo, quando colocou os pés no primeiro navio que o levava até lá. Mantendo a mão sobre seu ombro, Andrea parecia ter notado seu constrangimento.
-Vamos, rapaz, o Capo não te deu bronca. Na verdade, é um bom conselho, sabe? – ele deu-lhe um leve tapinha nas costas. – Sempre é melhor conseguir as coisas com o seu esforço. E Damaran é muito bom em ajudar nisso. Vai conseguir. Te vejo hoje a noite, Capo. – E com um aceno, o italiano afastou-se, mantendo a outra mão no bolso. Kyouya manteve-se em silêncio, e fitou o russo.
-Eu… não lembro de tê-lo visto em nenhum dos encontros.

Damaran sorriu de leve, e soltou um riso baixo. Passou a mão pelo rosto e retomou a compostura, em tom menos severo.
-Depois de menos de uma hora de festa, ele sempre vai direto para o quarto com uma mulher. Ou mais de uma. Depende do dia.
-É um colega de negócios?
-Um amigo. – respondeu Damaran. – A única pessoa em quem eu confio. Pode aprender com ele.

CAPÍTULO 17 – FAMILY

CAPÍTULO 17
FAMILY
 

“When he saw that small figure,

he knew that those rounded eyes didn’t belong there.”

Yokohama, Japão – Ano de 1942

  

A inquietação na capital não demorou a chegar em seus ouvidos, graças a empregados curiosos que trocavam cochichos pelos corredores da mansão. Um dia, Kyouya havia dormido até mais tarde que o normal e fora acordado pelas vozes de duas das empregadas que, aparentemente, não haviam reparado que o pequeno patrão ainda não havia deixado seus lençóis. Ficou deitado em seu colchão, aproximando a cabeça da porta de correr de madeira e papel, escondido pela escuridão e em silêncio, para ouvir melhor o que era conversado.
-Foi terrível, lhe digo. Ouvi dizer que o fogo espalhou-se tão rápido…
-Quando foi que entramos nessa confusão toda?
-Não gosto de cidades, nunca gostei. Todas aquelas casas juntas, só uma faísquinha… um fogo, e lá se vai um bairro inteiro.
-A cidade não é longe daqui. Acha que podem nos atacar? Mesmo quase dentro da floresta…?
-Boba, porque iriam atacar esse lugar no meio do mato? É uma guerra, dizem, vão se importar mais com os lugares grandes e com muita gente…
-Nunca mais reclamo de ter que vir até aqui para trabalhar, ao menos deve ser mais seguro. Acha que poderíamos pedir para trazer as crianças?

Guerra? Ele não sabia exatamente o que se passava, ninguém havia lhe dito palavra. Ouvia sobre uma tal guerra, sobre batalhas, aviões, bombas. Sobre soldados do outro lado do mundo, coisas até assustadoras, mas sabia como fofocas de mulheres poderiam ser traiçoeiras. Sua vizinhança sempre fora pacífica, nada acontecia, chegava a ser entediante. A mansão abria seus fundos para a floresta, e tinha que andar uma boa distancia até encontrar alma viva. A maior ameaça que eu poderia temer aqui é meu próprio irmão. Havia se mantido o mais afastado que conseguia desde o dia que o havia visto sobre o corpo mutilado do tio, sorrindo daquela maneira que o havia assombrado por dias, acordado ou em seus sonhos. Tinha medo, medo por si mesmo e pela irmã, quem sentia-se incapaz de proteger. E esse sentimento de inépcia vinha se tornando mais forte a cada dia, chegando a angustiá-lo. Saía de casa menos freqüentemente o possível, tentava manter um olho atento em Manami, sabendo que era o máximo que poderia fazer caso qualquer idéia de fazer-lhe mal subisse à cabeça do irmão.

Por causa disso, não fazia mais a menor idéia do que o irmão poderia estar planejando ou fazendo. Teruo passava cada vez mais tempo fora de casa, e ele, dentro. Kyouya havia ouvido sobre o negócio no qual parte de sua família, o ramo principal, estava envolvida, por menos que soubesse sobre tudo isso. Sabia, no entanto, que era algo perigoso… e que não era difícil de imaginar que o irmão poderia facilmente se envolver com tal. Era esse ramo que seu tio controlava, e agora ele estava morto. Morto por Teruo, meu próprio irmão, por um motivo que Kyouya não conseguia entender por mais que pensasse naquilo. Poder, era a única explicação que poderia imaginar. Desde quando ele estava tão interessado assim em poder? Teruo nunca havia se entendido bem com o ramo principal da família, mas mesmo assim, viviam com um conforto muito acima da maioria das pessoas. Serei eu o único satisfeito com tudo isso?

Mas não era. Na verdade, nem ele estava totalmente satisfeito… mas seus motivos eram outros, e ele não podia reclamar de todo o aconchego no qual vivia. Temia o irmão, sim… mas era uma vida na qual nada lhe faltava.
… Ou talvez, apenas uma coisa.

Levantou-se da cama e ajeitou as vestes, saindo pelo lado da varanda. De pés descalços, caminhou pelo chão de madeira procurando fazer o mínimo de barulho possível. Era leve, portanto não era algo tão difícil; mas há tempos que havia percebido o quão sonora poderia ser sua própria respiração. A passos longos, esgueirou-se até o último quarto que dava para o jardim dos fundos e abriu a porta com cuidado, sentindo-a deslizar lentamente, madeira roçando em madeira.
E lá estava ela, deitada de bruços sobre o colchão, seu pequeno corpo coberto apenas por uma veste de seda branca. Em suas mãos mantinha um pequeno livro de páginas amareladas, cujas letras seus olhos seguiam lentamente, até ela notar a presença do garoto e levantar a cabeça para ele. Sorriu.
-Achei que ia dormir o dia todo. – ela puxou a coberta sobre as costas, levantando o corpo e sentando de frente para ele. – Ia começar a hibernar antes mesmo do inverno chegar de uma vez?
-Não dormi até tão tarde. Estava acordado, mas não quis sair da cama.
-Sei… ficou admirando a madeira do telhado? Com os olhos fechados? – riu ela, ajeitando com os dedos uma fina mexa de cabelo para trás da orelha. Ele não tinha palavras para descrever o quanto gostava de ver aquele sorriso em seu rosto, por mais que o visse todos os dias. Ela sempre conseguia sorrir na pior das situações, e por vezes ele havia imaginado se ela não se forçava a isso para confortá-lo. E esse era um tipo de força que Kyouya desejava ter para poder retribuir a ela.

-É verdade, estava acordado. – disse, apertando o cenho.
-Eu sei, bobo. Estava brincando com você. – ela riu e colocou a mão sobre seus cabelos, bagunçando-os e jogando-os pro rosto. Kyouya apertou os olhos e abaixou a cabeça.
-Fiquei ouvindo as empregadas conversando. Sobre a guerra.
O sorriso de Manami se esvaiu.
-Também ouvi. Não gosto das fofocas. – suspirou ela, puxando a gola da veste. – Está com medo?
-Não sei. É difícil ter medo de fofocas sobre algo que não conseguimos ver.
-E tem medo de chegar a ver, um dia?
Kyouya não respondeu por um momento.
-Não. Se a guerra chegar aqui, podemos ter alguma chance.

Manami respondeu-lhe com uma piscadela. Ela sabia muito bem ao que ele se referia, por mais que nenhum dos dois ousasse dizê-lo em voz alta. Teruo. O irmão ficava cada vez mais obcecado pelos negócios do tio, pelo poder, por ocupar o lugar que ele mesmo havia vagueado em segredo. O tio estava morto. Como herdeira tinha apenas uma filha, agora adolescente. Teruo era o homem mais velho da família em condições de liderar, e era o que ele pretendia fazer. Por mais que alguns homens ainda apoiassem a garota, – corriam rumores dela ser mais habilidosa e astuta do que muitos lideres da família já haviam sido – uma mulher, sozinha, dificilmente ganharia o posto. Kyouya a havia conhecido na única vez que se encontraram. Não conseguia lembrar-se bem de seu rosto, mas lembrava-se dos longos cabelos negros que chegavam-lhe ao quadril. Talvez ela tivesse se tornado bastante bonita. Em vez dessa guerra constante com a família, Teruo poderia apenas tentar ganhar sua mão… mas eram primos, e Teruo aparentemente não possuía qualquer desejo de dividir a liderança com uma mulher de caráter forte o suficiente para reunir o apoio de parte da família.

-Gostaria de ajudá-la. – suspirou ele, falando consigo mesmo.
-Como?
Percebendo que havia se perdido em pensamentos, Kyouya voltou a encarar Manami, e sorriu-lhe.
-Nada… não é nada. – Ele não queria que ela se envolvesse demais nisso tudo, e o que mais desejava era poder tirá-la dali o mais rápido possível. Manami era sua irmãzinha. Não. Era mais do que uma irmã. Ele já sabia há tempos que não eram irmãos de verdade, uma das melhores descobertas que já havia feito, e sentiu-se tão aliviado quando soube… aliviado de não precisar refrear seus próprios sentimentos, aliviado por saber que o que sentia não era errado. Aliviado por saber que, um dia, poderia ser correspondido sem medo, sem nada para ameaçá-los. Ele era apaixonado por ela desde os primeiros anos que ela passou na casa, e ele sabia que ela também sentia algo por ele.
Ela novamente respondeu-lhe com um sorriso, delicado, leve, um sorriso tranqüilizador. No entanto, acabou não surtindo efeito sobre ele, por culpa de apenas um pensamento que vinha atormentá-lo.

Teruo também sabe. Teruo também a deseja.

Algumas novidades!

Oi, pessoal! 

Faz tempo que o blog não ganha uma atualização, né? É culpa minha mesmo, mal vi os meses passarem e acabei me ocupando com outras coisas, além de ter dado uma travadinha no capítulo seguinte por vários motivos… que incluem a criação de váaaarios capítulos que devem vir só bem mais pra frente, assim como pequenas histórias extras que não necessariamente vão se encaixar no plot principal. ><‘ Pois é, acabei renegando a linearidade da história (que já não é escrita linearmente XD) pra epifanias e inspirações repentinas que me vieram, mas tenho que dizer que vai ser pro melhor. :3 

E foi exatamente por causa desses textos… que resolvi abrir um novo blog, o GR-Vergangenheit! O nome vem da palavra ‘passado’ em alemão e é bem auto-explicativo: ele vai consistir de histórias passadas, beeem passadas de cada personagem, além de cenas que não entram na história principal e até mesmo textos que focam mais em personagens secundários que temi não poder retratar como eles, na minha cabeça, mereciam. ;3;’ Acho que isso vai deixar a publicação mais frequente e me deixar mais animada pelo fato desses textos ficarem só no meu computador forever and ever. XD  

Ando meio parada, mas quero muito dar um pontapé pro projeto de GR ir pra frente um pouco mais rápido. O último ano de faculdade vai dificultar grandes avanços, mas quero me esforçar, pelo menos, em nome do apego crescente pelos personagens. Quem sabe o que pode surgir até o final do ano? :3

 

Muito obrigada de coração a quem acessa o blog e até a próxima!

~Anna

CAPÍTULO 16
SCHUSS INS SCHWARZE 

“His wish for power was infinite,

and his reasons were his strenght.”

Białystok, Polônia – Verão de 1941

  

Aquela fora a primeira noite que ele conseguira dormir satisfatoriamente. Alexis demorava a acostumar-se com lugares novos, ainda mais considerando o asco que sentia pelas pessoas que sabia terem ocupado aquela casa até então. Mas tomou as medidas necessárias para deixar o lugar suficientemente limpo para o curto período de tempo que teria de passar lá. Os quartos foram limpos, os banheiros desinfetados e toda a roupa de cama havia sido trocada. Da comida, não sobrava muita dos antigos inquilinos; tudo havia sido alterado para melhor se adaptar ao conforto do oficial. Um motorista e um carro haviam sido colocados ao seu dispor sob seu requerimento, e alguns soldados ainda o acompanhavam no dia-a-dia para sua necessidades – o que não eram muitas. Durante seu tempo livre, não precisava de mais do que um bom livro e água quente para banhar-se. A limpeza pessoal e o exercício intelectual eram as coisas que ele mais apreciava para si mesmo, além do reconhecimento. Detestava sentir-se sujo, e não havia nada que odiasse mais do que ignorância. Desprezava pessoas que se limitavam à mediocridade, que se prendiam a futilidades desnecessárias, que se satisfaziam com respostas prontas sem sequer refletirem um mísero segundo sobre o sentido que aquilo fazia… ou não. Deviam buscar o crescimento pessoal, acreditava ele. Não acomodar-se debaixo de ordens, de dogmas, de ‘porque é assim’ e ‘porque alguém quis’. Havia aprendido que muitas pessoas preferiam viver abaixo de outros, seguindo ordens sem questionar, a se dar ao trabalho de decidir por si mesmas. Precisavam de alguém dizendo o que deviam ou não fazer, o que é certo ou errado, pois pensar por si mesmo aparentemente era demasiado trabalhoso. E isso o irritava. A falta de iniciativa o aborrecia, a complacência com respostas fáceis o enfurecia.

Não havia nascido em uma família abastada. Possuíam a mesa sempre servida, mas nunca foram capazes de dar-se a luxos. Alguns dias, a sopa do jantar era mais rala ou o café da manhã, apenas pão; não havia se acostumado a receber presentes grandiosos em seu aniversário, mas sim passá-los com um bolo feito pela mãe e alguma pequena lembrança de família dada pelo pai. Aprendeu a tocar piano e violino com o avô, depois com o pai, sempre usando instrumentos antigos da família e, quando podiam, pagavam um professor vez ou outra. No entanto, treinava sozinho na maior parte do tempo, acompanhado de sua força de vontade e de sua paixão pela música. Ele e a irmã sempre tiveram de dividir um quarto até ele ser capaz de mudar-se para a universidade que freqüentou, onde pode receber uma educação de qualidade e economizar graças ao seu próprio esforço em manter uma bolsa de estudos pelo seu ótimo desempenho. Havia se formado com sucesso em história, outro de seus maiores interesses, e queria seguir a carreira, por, na época, nada agradá-lo mais do que o reconhecimento de sua inteligência; mas o falecimento precoce do pai e a conseqüente despesa por causa da saúde da mãe o obrigaram a empregar-se o mais rápido que conseguira. Fora assim que havia entrado para o partido, para o exército, para aquilo.

Subir não havia sido difícil. Nunca fora um homem que se contentava em ficar em seu lugar. A disposição para melhorar e a ambição já estavam há muito instaladas em seu caráter, e ele não poupava esforços para tal. Faria o que fosse necessário, fosse arriscar a vida ou até… matar. Havia aprendido o grande prazer que muitos viam nisso. O reconhecimento colocava-o acima. O domínio fazia o mesmo, mas também colocava outros para baixo. Era um prazer momentâneo, mas havia se acostumado com a idéia de apreciá-lo, ainda mais que, de certa forma… era uma desculpa para livrar-se pessoalmente daqueles que considerava detestáveis.

No entanto, não estava ainda preparado para morrer. Não por covardia; mas ainda havia uma pessoa, uma única pessoa que lhe importava, que ainda precisava dele. E ele não estava disposto a abandoná-la assim. Iria arriscar-se, sim. Mas iria prender-se à vida com garras e dentes, não importava que tipo de situação desesperadora fosse colocado. Não importava que guerra teria de lutar.

A pequena reunião de oficiais que havia se passado alguns dias antes e para a qual havia sido convocado e levado até aquele lugar tinha o objetivo de informar os soldados sobre os russos com quem dividiam o território, e prepará-los para a entrada na Bielorússia e o avanço a Moscou. [1] O exército do Centro iria comandar o ataque sob comando do Marechal Von Bock [2], e o Wehrmacht se encarregaria de continuar o avanço. Será essa a minha chance de mostrar do que sou feito, pensava Alexis. Ainda mais considerando o que havia ouvido por aí. Os rumores de um novo coronel ainda mais jovem que ele, discreto, de poucas palavras mas com um histórico de vitórias, o incomodavam. Orgulhava-se de ter um posto alto antes dos trinta, e não queria um eslavo qualquer roubando-lhe os louros. Ele lutar pelo outro lado é uma vantagem, dizia a si mesmo. Não preciso de uma desculpa para matá-lo com minhas próprias mãos.

Von Bock era um homem alto e magro, já em seus sessenta anos. Possuía os finos lábios típicos da raça, e a feição severa, com o cenho levemente apertado sobre os olhos claros. Era alguém com quem Alexis sentia-se capaz de simpatizar. Apesar de ligeiramente arrogante e não particularmente brilhante, era um homem com determinação e seriedade. Não se dava a reações exageradas ou eloqüências como alguns outros; assim como Alexis, seu senso de humor era seco e ele limitava-se a apenas sorrir. Estava, de certa forma, aliviado em poder trabalhar com ele e estar longe dos bufões do partido. Havia tido uma oportunidade de falar-lhe a sós antes do desjejum, e, apesar da conversa ter sido rápida, havia lhe deixado com algo sobre o qual ponderar por algum tempo.
-Você é conhecido do nosso Reichsführer, não é? – havia perguntado o Marechal, logo após as introduções. – Além de dentro da hierarquia, digo.
-… Sim. – respondeu Alexis, um pouco surpreso por ele saber sobre isso. – Desde quando era mais novo… – o homem era apenas 15 anos mais velho do que ele, e haviam tido algum contato desde que Alexis era apenas um garoto, e ele, um estudante em Munique. O pai daquele que eles agora chamavam de Reichsführer, o senhor Gebhard Himmler, havia trabalhado na universidade, e esse contato sempre havia influenciado Alexis em todo o seu interesse acadêmico.
-Você é da Bavária?
-Não, senhor. Nasci em Frankfurt. – disse Alexis, respeitosamente. – Mas tive a oportunidade de visitar o lugar algumas vezes.
-Bom. Sei que a universidade por lá é muito boa. – ele abriu um sorriso leve na expressão severa. – Partilha a opinião dele? Sobre eles, quero dizer.

Alexis ficou em silêncio por um momento.
-Imagino que todos partilhemos, senhor.
O homem fitou-o.
-Apenas por compartilhar, ou possui seu próprio motivo…?
Ah, isso. Alexis sabia que havia quem tivesse apoiado a causa apenas por ver vantagens, e não por odiar aqueles povos propriamente ditos. Mas ele não era de aceitar opiniões alheias dessa maneira.
-São arrogantes. – começou ele. – Chamam-se de povo escolhido, mas para quem não acredita em tais bobagens, são apenas sem-terra incapazes com um ego maior do que podem carregar.
-Alguns dizem que eles sofrem por terem descumprido sua ‘missão’. – sorriu o Marechal, cinicamente.
-Sofrem pois nem todo mundo tem paciência para agüentar arrogância não justificada por tempo demais. – E quem acha justificado, parece acreditar que devem sofrer de qualquer forma.
-E quanto aos outros? O que acha deles?
-Se aproveitam de nossos bens sem pagar nada. Enquanto alemães pagam impostos, eles andam em nossas ruas, bebem da nossa água, ocupam nossas cidades e sujam nossas praças. Não contribuem e ainda têm a audácia de roubar. Incomodam, invadem nosso país e não se dão ao menor trabalho de mostrar gratidão… não fazem nada além de perturbar.
Mas isso vale também para os párias que infelizmente já faziam parte daqui, mas matá-los ainda é ilegal. Um passo de cada vez. O Marechal pareceu ponderar por alguns segundos antes da próxima pergunta. Passo a mão pelo queixo e olhou Alexis nos olhos.

-E nós, Alexis? O que acha do ‘nosso’ povo escolhido?
Por um momento, Alexis fitou-o sem dar resposta. Aquilo já havia lhe passado pela cabeça, claro. Mas nunca gostara de chamar a si mesmo de ‘escolhido’. Ninguém o havia escolhido para nada, ninguém havia traçado seu caminho, ninguém. Ele decidia por si mesmo, ele fazia o que achava melhor, ele escolhia seu próprio destino. Ele sabia a responsabilidade que tinha por suas ações e não ia, jamais, tentar aliviá-la colocando a culpa em mais ninguém. Homem ou o que quer que fosse. Isso era para fracos, isso era para pessoas sem coragem de tomar suas próprias decisões e arcar com as conseqüências. Sou soberano sobre mim mesmo e não há quem meta dedo em meu caminho.

-… Não fomos escolhidos por ninguém, senhor. Nós mesmo tomamos a iniciativa. Fomos escolhidos por nós mesmos para lutar por nossa própria causa, e pela de ninguém mais. Ganhando ou perdendo, vai ser por nosso próprio mérito e o de mais ninguém.
O mais velho sorriu novamente.
-A nossa própria causa dos homens, Reinhardt?
-Não há nenhuma outra além da dos homens, senhor.
A resposta parecia tê-lo satisfeito. Alexis sempre preferira prezar pela sinceridade, não era um homem de mentiras e lisonjas. E isso agradava a quem lhe era importante. Quem precisava de bajulações baratas e sorrisos falsos não recebia seu respeito, apenas a cortesia padrão com a qual se trata um superior.
Aquele fora, no entanto, o fim da conversa. Alexis estranhou não receber perguntar do porquê de estarem espalhando a sua faxina para fora, até, do território que era a antiga grande Prússia menos de um século antes. A Rússia, por exemplo, era apenas uma ambição de conquista… e agora, para Alexis, a oportunidade de encontrar um rival.

Além das obrigações como militar, ocupava-se também com rápidas visitas aos locais onde mantinham os indesejáveis. O país não lhe despertava curiosidade para sair em passeios turísticos, e muito menos seria completamente seguro. Por mais dominados que estivessem, os habitantes ainda resistiam. Alguns, e apenas uma minoria, sim. Mas resistiam, aparentemente sem medo de parar num gueto ou sem a menor noção do que lhes aconteceria se, por acaso, ferissem – ou matassem – um oficial. Alexis, algumas vezes, pensava que preferia quando eles realmente lutavam. Significava que não se satisfaziam com a condição de oprimidos, que juntariam forças para conseguir o que queriam. E esse momento seria o momento de ver quem era mais forte.

Os guetos espalhavam-se por todo o país, assim como os campos de trabalho ou extermínio. Ele havia visitado alguns no caminho, trocado algumas palavras com os que ali trabalhavam, visto como as coisas estavam por ali. Em geral, não havia grandes diferenças com os quais já havia visto, e apenas ajudava no ‘serviço’ quando precisava aliviar algum tipo de tensão ou quando a vontade lhe vinha. No entanto, havia já algum tempo que resolvera reservar seu ócio vespertino para apreciar a própria companhia com um livro sobre a cama, prevendo os dias duros e sem conforto que se seguiriam à sua entrada na Rússia. Seus olhos corriam pelas letras, sentenças e linhas, pelas páginas e capítulos. Lia sobre a fraca luz da pequena lâmpada de cabeceira, após assegurar-se de tomar um banho e limpar os dentes antes de deitar-se, e, alguns minutos depois, caíra no sono sobre os lençóis recém lavados e o travesseiro afofado. Sonhara com uma distorcida batalha de terra, fumaça e aço. Sonhara com soldados correndo, atirando, morrendo. Com homens que reuniam seu último pingo de coragem para lutar pelo seu pais.

Pela nossa causa, e pela de ninguém mais.

_________________________

[1] A batalha refere-se à batalha de Białystok, operação estratégica militar alemã do grupo Centro durante a penetração da fronteira soviética na abertura da Operação Barbarossa, que durou de 22 de Junho a 3 de Julho de 1941. O objetivo de cercar as forças do exército vermelho em Minsk foi cumprido, e todas as tentativas soviéticas de contra-ataque, falhas. O Wehmacht foi então capaz de capturar uma grande quantidade de prisioneiros de guerra e avançar para dentro da Rússia de forma que quase era crível que os alemães sairiam vencedores da guerra.

[2] Fedor von Bock (3 de Dezembro de 1880 – 4 de Maio de 1945) foi um Marechal do exército alemão, que doutrinava os soldados para ‘morrer pela patria’. Foi apelidado ‘Der Sterber’ (‘aquele que morre’) e é conhecido pela operação Tufão, uma tentative falha de tomar Moscou no inverno de 1941.

CAPÍTULO 15 – RISE

CAPÍTULO 15
RISE 

“One step at a time

leads a man to his simplest ambitions.”

Moscou, Rússia – Ano de 1941

  

Tudo naquela cidade era novo para ele. Ainda mais os bares. Ele queria aproveitar aquele pequeno momento de calmaria que lhe fora concedido, e sentiu que poderia, enfim, andar pela cidade e beber até sentir-se alto. Pela primeira vez havia sido colocado em um quarto de hotel decente, e não nos rústicos acampamentos militares nos quais ele havia dormido desde a mais tenra idade; o relativo sucesso na mais recente batalha e em outras campanhas pequenas permitiram a ele um posto de Tenente-Coronel. Naquela noite, após voltar de um almoço de oficiais durante o qual não pronunciara mais que meia dúzia de palavras, resolveu que vagaria pela cidade grande e procuraria um lugar agradável para embebedar-se. E foi assim que encontrara aquele recinto; um bar pequeno, espremido entre prédios de comércio, rústico e escuro, construído em madeira velha com o nome pintado numa tábua em tinta desgastada. O degrau na entrada rangeu sob suas botas e a porta soltou um silvo pelas dobradiças quando ele a abriu. Dentro, uma única lâmpada funcionava eficientemente, acima do balcão, e algumas que piscavam fracamente ajudavam a iluminar os cantos mais distantes. Os móveis de madeira era velhos marcados com queimaduras de cigarro, cortes de canivetes e com a umidade dos milhares de copos que nelas já haviam sentado, e apenas três homens davam a graça de sua presença àquele horário. Uma dupla sentava-se ao redor de uma mesa dividindo uma garrafa já quase vazia, e conversavam em voz baixo. No balcão, um homem mal-vestido debruçava-se sobre um copo vazio que apertava entre os dedos. Já estava obviamente bêbado havia muitas doses, mas resistia bravamente ao peso de seu próprio corpo e recusava-se a cair sob efeito do álcool.

Damaran sentou-se na outra ponta do balcão, lançando ao bêbado apenas um olhar de soslaio. Gesticulou para o barman, que ocupava-se em secar os copos e guardá-los dos armários, e logo foi servido de um copo de vodka. Vodka do povo, forte, nada refinada, vagabunda. Mas exatamente do tipo que ele gostava. Nunca foi muito dado à frescuras quando o assunto era comer e beber. O primeiro gole desceu aquecendo-o e os outros mantiveram sua garganta quente, e ao parar para suspirar percebeu que o homem do balcão o estava observando. Desviou os olhos rapidamente e empurrou o copo vazio para o barman, mas já era tarde. O homem sorria para ele por trás do emaranhado acinzentado que era a barba que lhe cobria o rosto, e aproximava-se arrastando as sujas mangas do velho casaco surrado que trajava pelo balcão. O odor de álcool chegou ao nariz do militar junto do de suor e imundice, mas não era isso que o incomodava. Era o desconhecido que vinha fazer contato que, a Damaran, parecia ainda menos que desnecessário.

-Ei. Senhor, o senhor. Gosta de boa vodka, eh? Eu vi o que pediu, é das boas.
Não é, não. Só gosto delas assim. Ele já havia experimentado a ‘boa vodka’, e não achou grande coisa. Damaran tentou fingir que não havia percebido que o velho lhe falava, mas o bar vazio não o ajudava em nada.
-O senhor é jovem, não é? – ele soltou um riso alto, com uma baforada malcheirosa de álcool pela boca. – Tudo bem, comecei a lhe chamar de senhor, vou continuar. Vê, sou um homem educado. Respeitoso. Quantos anos tem?
O soldado evitou responder durante algum tempo, mas viu que a longa pausa não faria com que o bêbado desistisse de incomodá-lo.
-Vinte e quatro… – respondeu, sem olhar para o homem.
-Ora, mas é quase uma criança! – Damaran olhou-o com o cenho apertado. – Não, não quero lhe faltar com respeito. Senhor. De maneira alguma, vejo que já é um homem feito apesar da pouca idade! Trabalha para o governo, senhor? Vejo que está, digamos assim, ricamente limpo. É um fidalgo de Stálin?

Damaran não sabia exatamente o que responder a isso. Também não sabia exatamente o que a palavra ‘fidalgo’ significava. Mas de alguma forma o homem lhe soava insolente. E não estava nem perto de ‘ricamente limpo’. Sabia que cheirava a cidade e a suor, apesar de não chegar nem perto do odor do velho.
-Sou… um soldado. – disse em voz baixa, curta e friamente. Passou os dedos pela borda do copo, voltando a desviar o olhar. O homem abriu-lhe um sorriso.
-Um soldado! Oh, sim, eu era um oficial, sabe. Fui um homem que recebeu boa educação. Ah, aqueles tempos, os tempos do Czar. Pouco antes de você nascer, se tem pouco mais de vinte. Eu era jovem, mas acreditava que iria subir na vida. Consegui um bom emprego, por algum tempo, me lembro bem… – ele gesticulou por mais um copo de vodka para o barman, que o serviu resmungando. A cada palavra, O homem aproximava o rosto do de Damaran conforme criava intimidade, e se afastava rapidamente, rindo em rosnados. – Conheci minha senhora naqueles tempos. Era de uma família boa. Coisinha maravilhosa, ela era. Pena que nosso romance durou pouco. Os tempos mudaram, e agora os jovens estão diferentes… ainda me lembro dela, sinto falta dela, como sinto.

Damaran limitou-se a concordar com a cabeça, ouvindo-o. O militar sentia-se incrivelmente impotente perante àquele estranho discurso. Queria que ele parasse, mas não sabia como pedir isso. E, aos poucos, mais pessoas adentravam o bar conforme a noite caía, aumentando o ruído ao redor dos dois e, conseqüentemente, fazendo com que o velho elevasse a voz. O rosto de Damaran tornava-se cada vez mais vermelho à medida que ele continuava a tagarelar sobre a ex-esposa, sobre uma possível vida de luxo, sobre a universidade que dizia ter freqüentado, enquanto o mais jovem apenas mantinha-se em silêncio.

-Diga-me, tem uma senhora? Uma senhorita, no seu caso? Deve ter, não é possível que nunca tenha ido para a cama com esse porte todo! – riu ele, de forma escandalosa. Os rostos virando-se em sua direção deixavam Damaran profundamente constrangido. – Prefere que tipo? Jovens? Mais experientes? Para uma relação longa, ou…?
-Eu… – gaguejou Damaran, encarando o bêbado com os olhos escancarados. Cada pergunta daquelas fazia-o pedir mais um copo de bebida. Já tinha dormido com uma, duas, três e muitas mais mulheres, garotas, prostitutas, todos os tipos, até… Mas nunca havia anunciado para estranhos da maneira que ele parecia querer que fizesse.
-Esse velho louco pega uma vítima diferente a cada dia! – berrou um dos homens na mesa que havia escutado a conversa desde o início, com a paciência claramente esgotada. – Não precisa ligar pra ele, rapaz. A maioria apenas o ignora. É inofensivo.

Rapaz? Por um momento, Damaran sentiu-se de volta ao seu tempo de garoto no meio dos oficiais. Mas, agora, era um desses oficiais. Não que o homem precisasse saber; mas pensar que não era só um ‘rapaz’ fazia-lhe bem.
-Eles me ignoram! – choramingou o bêbado, levantando as mãos sobre a cabeça. – Vê, meu bom amigo? O mundo está cheio de pessoas cruéis! Mas você, eu sei, você é um bom homem, tenho certeza. Que acha de dividirmos uma garrafa? Sei que gostaria, vi o que bebeu. Tem bom gosto…
-E lá vai ele! – soltou o outro homem na mesa, com uma gargalhada de escárnio. Mais homens ao redor riram com ele. – Vê o que ele faz? Vai sair daqui com uns bons rublos a menos na carteira, rapaz, se continuar a ouvir o tolo.
Damaran abriu a boca e lembrou-se que, provavelmente, não poderia tratar aqueles homens como tratava os de seu batalhão. E percebeu pela centésima vez como tinha pouco jeito para tratar com pessoas de fora do exército. Costumava trocar palavras com soldados, com superiores, e com mulheres que serviam para satisfazê-los. Mas nunca com muito tato. O velho apenas usou o seu silêncio para pedir a garrafa de vodka, e apontar o dedo para a mesa dos dois.

-Vocês invejam dois bons homens educados conversando! Ah, Deus, a ignorância do populacho! A falta de respeito!
-Cuidado com a língua, velho. O cão sarnento da vaca gorda da minha senhoria é mais educado que você! – riu o homem, batendo o copo na mesa. – Ei, soldado, prepare-se! Essa garrafa vai sair do seu bolso!
-Veja como ele fala! Não o escute, meu bom senhor. Veja, aqui, beba. Beba pelo seu sucesso, eu irei pagar por esta!
-Não tem um tostão nos bolsos, seu velho senil.
-Como sabe disso se não vê dentro de meus bolsos, homem?
-A vizinhança toda sabe. É mais famoso do que imagina, oficial!
O bar explodiu em risos. Aqueles que já riam, passaram a rir em voz alta, e aqueles que apenas escutavam desinteressados acompanharam em coro. Damaran começava a sentir-se ainda mais desconfortável, mas não sabia dizer se era por estar naquela situação ou se apiedava-se pelo pobre velho, que agora virava motivo de chacota. A única reação na qual conseguiu pensar foi de levantar-se, e fora uma idéia terrível. Agora, olhavam para ele tanto quanto olhavam para o velho.

-Viu, velho? Ele levanta-se para partir! Quantos mais vai ter de aborrecer até deixar de enganar os viajantes?
-Ah! Senhor, o senhor não levanta-se para sair, não é mesmo? Não se enfurece ao ver como esses trastes tratam um homem de bem?
-Diga-me onde está o tal homem de bem, e hei de tratá-lo com respeito! – o riso continuava pelo salão, e mais gente se juntava aos insultos e às brincadeiras. O rosto de Damaran estava num tom de vermelho escuro pela vergonha, e o velho pegava a garrafa que havia lhe dado e bebia direto do gargalo.

-Bruto! – praguejou ele, limpando a boca com a manga suja do casaco. – Vilão ignorante, terrulento, vil! São todos filhos de uma puta imunda, todos que riem! Riem de um homem de bem, ah! – argumento algum além de insultos lhe haviam restado, para sua infelicidade. Por um breve momento, fez-se um silêncio seguido pelo arrastar de cadeiras dos homens menos pacientes, que começavam a xingar e avançar contra o velho, puxando-o pela gola. E em pouco tempo, não era uma briga que envolvia apenas aqueles dois lados, mas quase todos no bar brigavam entre si. Uma garrafa arremessada erroneamente fez um homem desmaiar e seus companheiros irem para cima do agressor; uma pancada não intencional com o cotovelo deixou o nariz de outro sangrando e seu dono enfurecido; e rapidamente o caos instalou-se dentro do bar. Damaran viu-se em meio a ele, entre a multidão, o velho que tentava escapar para trás do balcão e um barman em desespero por seu estabelecimento. Os homens que primeiro se levantaram puxavam o velho pelo casaco, rasgando-o ainda mais e empurrando Damaran para o lado. O barman tentava expulsá-lo para defender seus copos e garrafas, já ameaçados o suficiente pelos objetos que voavam sobre as cabeças, e ele defendia-se a chutes e tabefes que raramente funcionavam.

Sem pensar muito, Damaran enfiou-se em meio a multidão achando que o melhor a se fazer seria sair daquele lugar o mais rápido que pudesse. Protegeu-se com os braços e abriu caminho na base dos punhos e dos cotovelos, sem se importar com quem quer que estivesse ferindo no caminho. Um homem segurando uma garrafa quebrada quase o acertou, mas o soldado fora mais rápido. Deixou que a garrafa apenas raspasse por sua manga e puxou o braço de seu agressor, levando-o ao chão e lá deixando-o, sem olhar para trás. No entanto, os gritos do velho obrigaram-no a virar o rosto.
-Senhor! – berrava ele, sem esperanças de sair da situação que se encontrava. – Senhor, ajude-me! Por obséquio, eu…! – um punho atingiu-o no rosto, e os gritos pararam. Naquele momento Damaran sabia que o velho estava, pelo menos, inconsciente. Mas isso não fez com que os homens que o espancavam parassem.

Continuam espancando-o mesmo sem que ele possa reagir. Não gostava daquilo. Sabia como era sentir-se impotente, sem forças, e sem que ninguém tivesse piedade por ele… abriu caminho pelo meio do bar, novamente, desta vez mais atacando do que apenas se defendendo. Era alto e largo, tinha força nos grossos braços. Sabia brigar e tinha tamanho para tal. Conseguiu levar dois ou três homens ao chão, deixar narizes sangrando e dedos quebrados até conseguir chegar novamente até o balcão. Agarrou dois pelo cangote dos casacos, arremessando-os para trás com toda a força que conseguira reunir. Para o terceiro, bastou fechar o punho e levantá-lo para que ele soltasse o pobre velho inconsciente, amedrontado, e esgueirar-se para um canto do bar. Damaran colocou o velho no ombro, prendendo a respiração por causa do cheiro, e rodeou a briga pela parede do bar. Ainda teve de acertar um ou dois, mas conseguiu chegar até a porta e sair de uma vez por todas.

Quando se deu conta do absurdo que fizera para salvar um desconhecido, um velho malcheiroso que agora deitava em seu ombro, os pêlos de sua nuca eriçaram-se e seus dedos se retorceram. O cheiro do bêbado ficara ainda mais forte quando ele encontrava-se assim tão próximo, e o contato físico daquele homem o deixava desconfortável. O que deveria fazer agora?
Não podia deixá-lo na sarjeta, começava a fazer frio. Mas não sabia onde ele morava, nem quem eram seus amigos, nada. Achou melhor largá-lo em frente a algum hospital, e arrastou-o durante algumas centenas de metros pela rua, na escuridão. O fedor o deixava nauseado. Deu graças quando avistou o hospital e arrastou-o para a porta, ali deixando-o. O velho não soltou nada alem de um silvo. Ao menos, estava vivo. Bateu no vidro da entrada e chamou a atenção de uma enfermeira. Contou-lhe o que havia acontecido, deixou um pouco de dinheiro para seus cuidados e seguiu seu caminho. O que quer que aconteça agora, não é mais problema meu. Fiz o que pude.

No final, mal tinha bebido uma garrafa inteira. Suas roupas fediam, seu humor para passar a noite bebendo havia se esvaecido. Pensou que seria melhor simplesmente voltar para casa, para o seu quarto que lhe tinham reservado. Seria bom passar o resto da noite descansando, ou…
Ele olhou pro lado, e seus olhos encontraram os de uma mulher morena, com os cabelos arrumados em grossos cachos e a boca delineada em batom vermelho escuro. Ela sorriu para ele, aproximando-se jogando o quadril de um lado para o outro conforme andava, e tocou com os dedos brancos sobre seu braço. Ela exalava um suave aroma floral, e parecia limpa e educada. Uma dessas costumava sair caro… mas aquela noite, ao menos aquela noite de folga tinha que valer à pena. Ele sorriu para ela, segurou em sua mão… e a levou para dentro de seu quarto, para cima de sua cama, por entre seus lençóis.

A noite seria, ao menos, minimamente memorável. Satisfatória. Algo que o deixasse com o humor bom o suficiente para, na manhã seguinte, receber um comunicado para que preparasse seu batalhão para partir para a Polônia.

CAPÍTULO 14
CONSCIENCE 

“A mind that never rests

resides in a man that never forgets.”

Hamburgo, Alemanha – Ano de 1950

  

Alexis acordara naquela manhã como se não tivesse dormido em absoluto. Sua cabeça pulsava, seu corpo doía e ele sentia os olhos arderem. Esfregou-os e olhou para as cortinas, apertando a vista para o feixe de luz que entrava por entre elas. Já havia amanhecido, mas ele não sabia que horas eram. Suspirou e virou-se para o outro lado, observando o sono da bailarina que, sem mover-se, suspirava baixo sob as cobertas. Ele encarou-a por um momento, sem mudar sua expressão de absoluta indiferença. Ela ficava mais bela sem toda a maquiagem que usava, pensava ele. Já havia dito isso a ela, mas lembrava-se apenas dela sorrir e voltar a arrumar-se. Sem nada dizer, ele apenas havia suspirado e saído do quarto sem dizer mais nenhuma palavra. Já se fora o tempo no qual ele possuía paciência de argumentar com quem não estivesse disposto a ouvi-lo.

Passou as mãos pelo rosto, erguendo o corpo, ainda com sono mas se sentindo incapaz de dormir por mais tempo agora que o sol já iluminava parte do quarto. Esfregou as têmporas respirando fundo e levantou-se, deu a volta na cama e entrou no banheiro do quarto. Lavou o rosto com água gelada, sentindo um alívio indescritível – a primavera havia trazido um calor que o agoniava apenas de imaginar como seria dali a alguns meses. Deixou a água correr por um momento, mantendo as mãos em concha sob a torneira e encostando a face sobre elas. Tateou pelo sabonete e esfregou as mãos, lavando-se, e secou-se com a pequena toalha branca pendurada ao lado. Olhou o reflexo de seu rosto no espelho e parou por um breve momento.

Passou os dedos pelo rosto, pelos lados de seus olhos, procurando por falhas que não queria realmente encontrar. Puxou a pele levemente, observando se haveria alguma grande diferença, e suspirou achando melhor parar antes de frustrar-se ainda mais. Não estava tão velho, convencia-se. Não havia nem chegado aos quarenta, por quantas experiências ruins precisaria passar para se preocupar com a idade e a aparência àquela altura? Não, pensou consigo mesmo. Não há nada de errado. Sua vaidade não permitia que ele aceitasse a possibilidade de estar envelhecendo tão rápido. Ainda estava em boa forma; talvez não a melhor, mas, ao menos, satisfatória. Mas seria ‘satisfatório’ o suficiente?

-Olha só… normalmente quando eu acordo, você já está na cozinha com tudo pronto. Não é que hoje te peguei procurando por rugas? – riu a voz atrás dele, jocosa. Alexis virou-se.
-Acordou mais cedo que o normal. Queria mesmo me ver fazendo isso?
-Queria. – respondeu Vladilena, sorrindo. Ela foi até ele e deu-lhe um leve afago nas costas. – Você fala da minha maquiagem, mas anda morrendo de preocupação com a idade… não fica assim. Você fica mais bonito com a idade. – riu ela, despindo-se e entrando no chuveiro. Ele a encarou por um breve momento e suspirou, escovou os dentes e desceu para a cozinha sem mais uma palavra sequer.

Entrou e abriu o armário procurando por algo que pudesse transformar em um café da manhã decente. No entanto, encontrou-o praticamente vazio; havia algum tempo que não fazia compras e a viagem acabou atrasando-o. Amaldiçoou o próprio trabalho e subiu de volta, pegou um pouco de dinheiro, sua arma no coldre e um casaco para escondê-la não obstante o calor que começava a fazer, e saiu de casa após deixar um bilhete na mesa da cozinha. Iria num dos poucos mercados que ainda sobraram da guerra e havia conseguido se restabelecer satisfatoriamente, e, com um pouco de sorte, ainda conseguiria encontrar produtos em condições razoáveis. Ia quase sempre a pé, pois isso o ajudava a pensar. O ar da cidade durante uma caminhada, apesar desta não estar em sua melhor aparência, era mais agradável que dentro de um veículo qualquer e fazia-o sentir-se melhor – e a proximidade com o mar ajudava. Não sentia obrigação moral nenhuma de ser simpático com estranhos, portanto, era só ignorá-los e refletir sobre o que fosse que ele sentisse necessidade de fazê-lo.

Virou a esquina da rua onde morava e caminhou por apenas mais alguns minutos até o mercado. Sem demorar-se, colocou o que interessava em uma cesta, com a sorte de ter encontrado alguns pães frescos e as prateleiras ainda razoavelmente cheias, pagou tudo no caixa sem muita conversa e retomou o caminha de volta à casa. Comprara apenas o que poderia carregar, para não se aborrecer durante a caminhada. Outro dia compraria mais, quando tivesse certeza que passaria um bom tempo sem sair de casa. Mas, no momento, sentia que essa paz ainda estava longe de vir. E estará longe durante, pelo menos, alguns bons meses.

-Morangos, senhor?
Aquilo o havia pego de surpresa.
-Não. Obrigado. – Alexis levou a mão ao peito, aliviado por não ter dado um salto na frente da garota. Nem sequer olhou-a nos olhos.
-É barato, senhor… um presente para a senhora sua esposa?
A pergunta forçou-o a encará-la, incrédulo. Processava mentalmente se deveria levar aquilo como sarcasmo, como zombaria, ou como a pergunta inocente de uma jovem vendedora de morangos que nada sabia.
-Estou com pressa. – rosnou ele, retomando seu caminho. Esperava que a garota não fosse tão insistente quanto ele era teimoso.
-Uma boa tarde para o senhor… – ela se limitou a responder, com a voz baixa, sem ousar segui-lo.

Alexis esperava tanto que ela fosse insistir mais, que chegou a surpreender-se com aquilo. Ao olhar sobre o ombro, viu que a garota procurava seu próximo cliente em potencial, deixando-o em paz após a dura recusa que recebera. Talvez dura demais. Havia se tornado ainda mais frio com o passar dos anos, e não se importava. Não estava disposto a se esforçar para ser gentil, e nem tinha mais paciência para tal. Tratar com pessoas nunca havia sido sua especialidade, de qualquer forma, e que lhe importava como uma vendedora de morangos se sentia? Se ela for inteligente o suficiente, também não se importaria. Deve receber grosserias no mínimo diariamente.

Mas talvez… não sabia se deveria ou não agradar Vladilena com os morangos. Ela iria gostar. Certamente iria, mas… por algum motivo estranho, não sabia se deveria mimá-la mais. Ela era mimada, e gostava disso, no entanto ele nunca fora o tipo de homem que traz presentes a cada saída. Só… e se fosse apenas essa vez…?

Ele olhou sobre o ombro mais uma vez, vendo a garota mais ao longe. Com um suspiro longo, deu meia-volta e foi até ela a passos rápidos, pegando algumas moedas no bolso. Sem abrir a boca, entregou-lhe as moedas e pegou um pequeno cesto dos morangos que ela levava, ajeitando-o no braço sobre a sacola do mercado. Agradeceu num resmungo e virou-se, retomando seu caminho, sem importar-se que a garota estendia-lhe a mão por ele ter-lhe dado moedas a mais. Deixou-a encarando suas costas por alguns segundos, sem ver o ligeiro sorriso que ela lhe dirigia, e, apenas por um breve momento, imaginou se isso teria mesmo sido o melhor a se fazer. E resmungou sozinho que se ele mesmo havia decidido que era melhor assim, então era, e ponto.

Passou o resto do caminho tentando pensar em outra coisa, sem grande sucesso, e subiu os degraus até a porta. Tentando equilibrar as sacolas e a cesta de morangos, pegou a chave desajeitadamente no bolso da calça e entrou. Foi direto para a cozinha, onde Vladilena o aguardava frente à uma xícara morna de café com leite, e deixou as compras sobre a bancada da pia.
-Comprou morangos?
Ele não respondeu e apenas passou a cesta para ela, deslizando-a sobre a bancada.
-Comprou pra mim? – ela voltou a perguntar com aquele sorriso infantil no rosto, apoiando o queixo sobre as mãos. Alexis olhou-a com o canto dos olhos e suspirou, balançando a cabeça afirmativamente.
-Achei que fosse gostar. – ele disse friamente. E ela sabia que ele dificilmente lhe daria resposta mais carinhosa que aquela.
-Gosto. Muito. Obrigada.
Ele confirmou com a cabeça e abriu os armários, guardando tudo que havia acabado de comprar exceto por um par de ovos, grãos de café e um saco de pão, enquanto ela saboreava lentamente um dos morangos apertando-o entre os lábios. Ela riu quando sentiu o sulco escorrendo por seu queixo, e limpou-o com a mão, lambendo os dedos.

-Não quer? – ofereceu-lhe um dos morangos.
-Não. Obrigado.
-Estão bem doces.
-Pode comer todos.

Vladilena riu pelo nariz, encolheu os ombros e voltou a entreter-se com as frutas. Ela sabia muito bem que a ele não agradavam tanto assim coisas doces demais. Não que não gostava, exatamente, mas ele lhe havia dito uma vez, após muito esforço, que não sentia vontade de comer qualquer coisa açucarada. Apenas comia quando lhe era dado, e só. Talvez ele prefira algo amargo como ele mesmo, pensava a mulher, rindo-se internamente. Alexis a fascinava sempre que tentava analisá-lo, e relacionar as coisas ao seu ego fazia a brincadeira ainda mais divertida. Amargo, salgado, azedo como ele mesmo. Ele realmente só gosta de si mesmo. E isso não a magoava. As pessoas obviamente amargas eram melhores do que as doces demais. Pessoas doces não eram como açúcar. Este sempre seria doce, mas as pessoas normalmente só o eram por fora. Talvez como aqueles morangos, ponderou. Morangos sempre pareciam doces, mas, muitas vezes, eram azedos.

E o homem mais azedo que havia conhecido lhe trazia doces morangos.

Alexis entregou-lhe um prato com ovos mexidos e pão amanteigado, junto de uma xícara de leite. Ela sorriu para ele ao ver a comida, e observou-o deixar a louça toda na pia antes de sentar para comer com ela. Sua refeição resumia-se a uma xícara de café concentrado.

-Não vai comer de novo?
-Não tenho fome.
-Vai ganhar uma dor de estômago depois. – riu ela.
-Não me importo. – o que era uma dor de estômago perto dos problemas que inundavam sua mente e não ajudavam em nada a melhorar seu humor?

Vladilena encolheu os ombros, pois a partir do momento em que lhe havia avisado, não considerava mais ser problema seu, e começou a comer devagar. Vez em quando dirigia uma olhadela a Alexis, que quase nunca a percebia. Estava ocupado demais olhando pela janela, como se divagasse. Mas ambos sabiam bem o que se passava naquela cabeça sob aqueles finos cabelos louros. Preocupação. Insatisfação. Todas as possibilidades que queria realizar, mas não podia, não tinha meios… ainda.
Pois não iria parar de pensar naquilo até achar uma solução que o satisfizesse.